Quando me divorciei, tive que mudar de casa o mais rápido possível. Consegui um pequeno apartamento de 01 quarto, no centro da cidade, rodeado por dezenas de outros prédios antigos, em uma rua estreita esquecida por Deus e pelos governantes. Mas era o que eu podia pagar naquela situação onde parte da minha renda seria destinada para a minha ex esposa.

Apesar de pequeno, o apartamento era bem funcional e dispunha de uma sacada pequena a qual eu passava algum tempo, após o jantar, observando a paisagem do alto do 10º andar.

Quase em frente, ao meu prédio, havia um outro prédio que fora interditado pela defesa civil por conta de problemas estruturais. Prédio velho, sem manutenção como todos à sua volta.

Nunca havia me chamado a atenção até que, uma noite, enquanto fazia a digestão com uma xicara de café na mão, apoiado na grade da sacada, vi uma menina, de aproximadamente 7 anos, de camisola, que estava neste prédio abandonado, olhando para mim alguns andares acima do meu, também na sacada.

E Isso tinha virado rotina. Ela me fitava por alguns minutos e adentrava ao apartamento escuro.

Pensava que haviam invadido o prédio e alguém se alojara naquele apartamento, porém nada de luzes ou mais alguém à vista.

Voltando certa vez do trabalho, parei na porta daquele edifício e vi que havia alguém na portaria. Era um segurança. Ele me afirmou que o prédio estava vazio e que ninguém poderia entrar ali. Mas também me confessou escutar ruídos na escadaria, como de alguém subindo ou descendo, mas nunca viu ninguém.

E assim eu continuava a ver aquela pequena menina me encarando, sempre no mesmo horário e depois de algum tempo, adentrando ao apartamento.

Mas um dia isso mudou de forma horrível. Após me encarar por alguns instantes ela retornou ao apartamento, mas desta vez voltou e com um banquinho nas mãos. Apoiou o banquinho na beira da sacada, subiu nele, olhou para mim e acenando, como se despedindo, se jogou.

Eu a vi caindo, mas não tive coragem de ver o impacto no chão. Gritei por socorro e desci para a rua para tentar ajudar, porém, ao chegar embaixo do prédio abandonado, não havia nada.

Essa cena perdurou por vários dias. Porém uma noite, eu resolvi dar um basta.

O vigia cochilava na portaria e consegui passar sem que ele me visse. Acessei a escadaria e enquanto subia eu ouvia alguém subindo na minha frente. Rápido, como uma criança. Conseguia enxergar graças a lanterna do celular e ouvia, ao fundo, uma risada também de criança.

Cheguei ao 12º andar e haviam duas portas, ou seja, dois apartamentos. Só que uma estava aberta e ainda se mexia, pois acabará de ser aberta. Entrei.

O apartamento vazio e sujo com a porta da sacada aberta. Aproximei-me da sacada e via o meu apartamento com as luzes acesas.

Olhei para baixo e o trânsito fluía, mas quando olhei para o meu lado esquerdo, lá estava ela, a menos de 30 cm de mim.

Me olhava e sorria, faltando dois dentes na frente. Cabelos longos e a mesma camisola.

- Você quer ser meu pai?

Aquele olhar penetrante me tirou fora do ar.

- Oi????

- Você quer ser meu pai?

- Mas, onde estão os seus pais?

- Eles me jogaram daqui de cima e foram embora. Meu nome é Julia.

Não podia acreditar no que escutara.

- E o que eu tenho que fazer para ser seu pai?

- Ué... é só pular daqui e você será meu pai! Você pula?

- Pular???? Não...

- Pula vai... Eu estou sozinha nesse lugar escuro. Tenho medo...

De alguma forma ela havia entrado na minha cabeça e com tudo o que estava acontecendo comigo, eu via uma forma de me livrar de todos os meus problemas.

- Me dá a sua mão. Vou te ajudar a subir no banquinho!!! Vai, papai!

Eu subi no banquinho e apenas joguei-me para frente. A gravidade fez o resto. Enquanto caia, sentia que os problemas haviam ficado para trás e de repente tudo escureceu.

Acordei sentado no chão imundo daquele apartamento. Levantei-me e fui até a sacada. Olhei para baixo e vi meu corpo estirado no chão com os bombeiros já me colocando em um saco preto. Muitas pessoas em volta.

- Papai, você chegou!!!!! Que bom!!!!

Eu ainda não estava certo do que tinha acontecido, mas sabia que tudo havia mudado.

- Papai, quero te mostrar uma coisa.

Ela apontou para o 9º andar do prédio em frente, onde uma jovem nos olhava fixamente. Não mais de 30 anos, devia ter acabado de sair do banho, pois usava uma toalha na cabeça e vestia um roupão branco. Provavelmente estava tão intrigada quanto eu, quando vi da primeira vez.

- Será que ela pode ser minha mamãe?

Eu olhei para ela sorrindo e disse:

- Quem sabe...vamos tentar!

Foi quando eu a segurei, pelos braços, do lado de fora da sacada.