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Wade

— O soro está pronto?

— Sim.

— E os testes em humanos?

O laboratório mergulhou em silêncio.

— Já funcionou em ratos, cães e macacos. Agora precisamos de uma cobaia.

— Eu sei exatamente onde encontrá-la.

O Órfão

Meu nome é Ben Carson. Sou pesquisador do maior laboratório da cidade e sempre tive um objetivo: ser lembrado como o cientista que mudaria a história.

Meu colega Gill dizia que eu era ambicioso demais.

Eu preferia chamar isso de talento.

Naquela manhã fomos até o orfanato administrado pela irmã Martha. Entre dezenas de crianças sorridentes, uma delas chamou minha atenção.

Não porque fosse diferente.

Mas porque sua ficha praticamente não existia.

Nome: Wade.

Sobrenome: desconhecido.

Pais: desconhecidos.

Histórico: inexistente.

Era como se ninguém jamais tivesse se preocupado em saber quem ele era.

Quando Gill o conduziu até o carro, o garoto não resistiu.

Também não perguntou para onde iria.

Nem sequer olhou para trás.

Durante toda a viagem permaneceu imóvel, encarando o vidro da janela.

Somente quando chegamos ao laboratório ele falou pela primeira vez.

— Qual é o seu nome?

— Doutor Carson.

— Esse é o seu cargo.

Olhei para ele.

— Ben Carson.

Ele apenas assentiu.

— Ben Carson...

Foi a única conversa que tivemos naquele dia.

O Experimento

As aplicações começaram naquela mesma noite.

O soro era experimental e extremamente instável.

As doses precisavam ser pequenas.

Muito pequenas.

Os meses passaram.

Depois vieram os anos.

Enquanto Wade crescia, continuávamos aplicando o composto em seu organismo.

Ele nunca reclamava.

Nunca gritava.

Nunca perguntava quando aquilo terminaria.

Apenas observava.

Sempre em silêncio.

Com o tempo comecei a perceber uma característica curiosa.

Ele odiava ser observado.

Qualquer funcionário encarregado de vigiá-lo acabava ferido.

Braços quebrados.

Cortes profundos.

Narizes esmagados.

Ninguém conseguia explicar como um garoto conseguia fazer aquilo.

As câmeras sempre apresentavam defeito justamente na hora dos ataques.

Decidimos deixá-lo sozinho.

Foi um erro.

A Mudança

Depois de quatro anos, os resultados continuavam insignificantes.

Eu estava cansado.

Oito anos da minha vida haviam sido consumidos naquele projeto.

Então ignorei o protocolo.

Aumentei a dosagem quatro vezes acima do permitido.

Dois dias depois, Wade começou a mudar.

O lado esquerdo de seu corpo assumiu um tom avermelhado.

As veias saltavam sob a pele como raízes negras.

As unhas endureceram.

O olho esquerdo parecia nunca mais piscar.

E seu sorriso...

Seu sorriso parecia cada vez menos humano.

Mesmo assim, continuei.

As Conversas

Depois da transformação, pedi autorização para acompanhá-lo durante as noites.

Na primeira, ele permaneceu em silêncio.

Na segunda, perguntou:

— Eles respeitam você?

Ri da pergunta.

Na terceira noite, disse:

— Hoje riram quando você saiu da sala.

Ignorei.

Na quarta:

— Você nunca percebe quando cochicham.

Na quinta:

— Você acredita mesmo que é o melhor cientista daqui?

Comecei a prestar atenção.

E percebi olhares.

Sorrisos discretos.

Conversas interrompidas quando eu me aproximava.

Talvez Wade tivesse razão.

Talvez todos estivessem rindo de mim.

Na semana seguinte, ele apenas sussurrou:

— Você merece mais do que isso.

E foi embora para sua cama.

Naquela noite, não consegui dormir.

O Massacre

Na manhã seguinte caminhei até a ala restrita.

Peguei uma máscara de gás.

Abri a primeira cápsula.

Depois a segunda.

Depois a terceira.

Uma por uma.

Sem pressa.

Sem pensar.

As pessoas começaram a correr pelos corredores.

Algumas tentavam abrir as portas.

Outras imploravam por ajuda.

Em poucos minutos, o laboratório inteiro mergulhou em silêncio.

Somente depois liguei os exaustores.

Olhei ao redor.

Dezenas de corpos.

— O que eu fiz...

Uma gargalhada respondeu.

Wade

Ele surgiu no fim do corredor usando uma máscara de gás.

Retirou-a lentamente.

Sorria.

— Finalmente.

— Você...

— Você realmente acredita que tudo isso foi ideia sua?

Meu corpo inteiro gelou.

— Você só fez exatamente o que eu queria.

Ele caminhou até mim.

Parou a poucos centímetros do meu rosto.

— O pior tipo de pessoa para manipular é a inteligente.

Ele sorriu.

— Felizmente... você nunca foi.

Segurou meu pescoço com apenas uma mão.

Seu aperto aumentava lentamente.

Eu conseguia sentir minhas veias estourando.

Então ele me soltou.

— Matar você seria desperdício.

— Por quê?

— Porque alguém precisa sobreviver para contar essa história.

Virou-se e caminhou até a saída.

Antes de desaparecer, falou sem sequer olhar para trás.

— Procure meu prontuário.

— Você não vai encontrar nada.

Registro Final

Revirei cada arquivo daquele laboratório.

Não existia ficha médica.

Não existiam exames.

Não existiam fotografias.

Não existia autorização judicial.

Nem mesmo um registro de entrada.

O computador dizia que aquela cela permanecia vazia havia oito anos.

Então quem foi o garoto em quem apliquei centenas de injeções?

Quem conversava comigo todas as noites?

E, principalmente...

Quem foi a criatura que saiu caminhando daquele laboratório enquanto todos morriam?

Revisado em 30 de junho de 2026.

A
Autor Ana Beatriz
Publicado em 25 de janeiro de 2017
Categoria Contos