— Todo dia a mesma notícia... — resmungou minha esposa, Gabriela, enquanto desligava a televisão.
Concordei apenas com um movimento de cabeça.
Meu nome é Jake.
Nasci e cresci no Bairro São Francisco. Foi ali que conheci Gabriela e construí minha família. Nosso filho, Richard, tinha apenas oito anos.
Era um bairro tranquilo.
Pelo menos antes dos palhaços.
Todos comentavam sobre eles.
Diziam que apareciam durante a noite.
Que perseguiam pessoas.
E que toda semana alguém era encontrado morto.
Espancado.
Com o rosto completamente desfigurado.
No começo eu nunca dei importância.
Até o dia em que Richard desapareceu.
Ele havia ido brincar na casa de um amigo.
Quando comecei a sentir sua falta, fui buscá-lo.
O pai do garoto apenas respondeu:
— Ele foi embora faz uns vinte minutos.
Sozinho.
Senti uma vontade absurda de matá-lo.
Como alguém deixa uma criança andar sozinha com aqueles monstros pelas ruas?
Saí correndo.
Refiz todo o caminho.
Foi então que entrei em um beco.
Escuro.
Silencioso.
Ali vi uma figura parada.
A luz do fim da tarde desenhava perfeitamente sua silhueta.
Era um palhaço.
Não pensei.
Peguei um cano de aço jogado próximo ao muro.
Aproximei-me sem fazer barulho.
Levantei o cano acima da cabeça.
E bati.
Uma vez.
Duas.
Dez.
Só parei quando tive certeza de que ele jamais levantaria novamente.
Apaguei minhas digitais do cano.
Olhei para o corpo.
Respirei aliviado.
Naquele momento, tive certeza de que havia feito a coisa certa.
Naquela noite Richard não voltou para casa.
Registramos seu desaparecimento.
Foi a pior noite das nossas vidas.
Na manhã seguinte, desci até a cozinha.
Gabriela ainda não havia acordado.
Ou pelo menos era isso que imaginei.
Havia um palhaço parado diante da pia.
Era maior do que o outro.
Talvez tivesse vindo se vingar.
Peguei um espeto de churrasco.
Quando me aproximei, deixei o metal bater no chão.
O palhaço virou lentamente o rosto.
Foi o suficiente.
Corri.
Enterrei o espeto em seu pescoço.
Ele tentou respirar.
Tentou falar.
Mas continuava parecendo um palhaço.
Continuei empurrando até que parasse de se mover.
Depois embrulhei o corpo em plástico.
Levei-o para o porão.
Mais tarde inventaria alguma desculpa.
Talvez dissesse que encontrei um cadáver escondido ali.
Limpei toda a cozinha.
Quando terminei, estava completamente exausto.
Horas depois, alguém bateu à porta.
Eram dois policiais.
Meu coração disparou.
— Senhor Jake... sentimos muito informar...
Richard havia sido encontrado morto.
Espancado.
Com um cano de aço.
Próximo ao beco por onde costumava passar.
Fiquei sem conseguir respirar.
Então perguntei:
— Foi um dos palhaços?
Os dois policiais se entreolharam.
— Palhaços?
— Sim... eles estão matando pessoas...
Um deles franziu a testa.
— Senhor... nunca houve nenhum caso envolvendo palhaços neste bairro.
Meu mundo desabou.
Olhei para eles.
Depois para o chão.
E murmurei:
— Tem... tem um palhaço morto no meu porão...
Os policiais correram até lá.
Retiraram o plástico.
E ficaram em silêncio.
Não era um palhaço.
Era Gabriela.
— O senhor pode explicar isso?
Comecei a chorar.
— Não... era um palhaço...
— Eu juro...
— Sempre foram os palhaços...
Fui condenado.
Hoje vivo em um hospital psiquiátrico.
Escrevo este relato escondido, usando um lápis de cor roubado da sala de terapia.
Ninguém acredita em mim.
Mas eu sei a verdade.
Os palhaços existem.
E eles destruíram minha família.
Não fui eu.
Eu nunca faria isso.
*
28 de março de 2014
"James Belafonte, interno de um hospital psiquiátrico condenado pelo assassinato da esposa e do filho, foi encontrado morto em seu quarto. A causa da morte foi asfixia provocada por um lápis cravado na traqueia. Funcionários afirmam que, minutos antes do ocorrido, um médico voluntário vestido de palhaço entrou por engano no quarto do paciente."
Conto revisado em 30 de junho de 2026.