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Para onde você está levando Lúcifer, papai?

Eram duas horas da madrugada.

Eu estava em casa organizando alguns arquivos do trabalho no computador.

A noite seguia calma, silenciosa, igual a tantas outras.

Então ouvi um zumbido.

Era um som agudo, alto e contínuo, vindo do banheiro.

A intensidade era tão grande que imaginei meus vizinhos reclamando a qualquer momento.

Levantei-me para verificar.

No instante em que coloquei a mão na maçaneta...

Silêncio.

Revirei o banheiro inteiro.

Nada.

Voltei para o computador convencido de que era apenas cansaço.

Poucos minutos depois, o zumbido voltou.

Dessa vez, vinha do quarto das crianças.

Corri até lá.

July e Mike dormiam profundamente, como se nada estivesse acontecendo.

Resolvi não acordá-los.

Contei tudo para Helena.

Ela apenas sorriu, disse que eu estava trabalhando demais e insistiu para que eu fosse dormir.

Mas eu precisava terminar aqueles arquivos.

Voltei ao escritório.

Não demorou muito para o som reaparecer.

Dessa vez, porém, havia algo diferente.

Além do zumbido, ouvi gemidos femininos.

Baixos.

Dolorosos.

Por um instante, tive certeza de que eram das crianças.

Corri novamente até o quarto.

Nada.

Comecei a acreditar que July e Mike estivessem pregando alguma peça em mim.

Deixei a porta do quarto aberta para flagrar os dois caso tentassem repetir a brincadeira.

O silêncio voltou a dominar a casa.

Olhei para o relógio.

Três horas da madrugada.

Foi então que tudo piorou.

O zumbido desapareceu.

Em seu lugar surgiu um som metálico, como uma enorme barra de ferro sendo arrastada lentamente pelo chão.

O ruído parecia atravessar as paredes.

Corri novamente até o quarto das crianças.

As camas estavam vazias.

Meu coração disparou.

Olhei para o corredor.

O som agora vinha do banheiro.

Fui imediatamente ao quarto de Helena.

Ela também havia desaparecido.

Comecei a chamá-los desesperadamente.

— Helena!

— Mike!

— July!

Ninguém respondeu.

O som ficou ainda mais alto.

Era insuportável.

Sentia meus tímpanos vibrarem de dor.

Peguei o taco de beisebol de Mike e caminhei lentamente até o banheiro.

Respirei fundo.

Empurrei a porta.

July estava caída no chão.

Seu corpo jazia sobre uma enorme poça de sangue.

Corri até ela.

Seus braços e pernas estavam cobertos por cortes profundos, revelando parte dos ossos.

Meu mundo desabou.

Abracei minha filha e implorei para que ela resistisse.

Então seus dedos se moveram.

Meu coração se encheu de esperança.

Ela abriu lentamente os olhos.

— Papai...

— Sim, minha filha... estou aqui.

Ela respirou com dificuldade.

Olhou diretamente para mim.

— Por que você nos deixou, papai?

Não consegui entender.

Pedi que repetisse.

Mas seus olhos perderam o brilho.

Sua cabeça caiu para o lado.

Ela não respondeu mais.

Recusei-me a acreditar.

Ergui seu corpo nos ombros.

Precisava levá-la imediatamente ao hospital.

Enquanto caminhava em direção à porta, continuei chamando por Helena e Mike.

O silêncio era a única resposta.

Segurei a maçaneta.

Foi quando ouvi uma voz.

Ela vinha do corredor.

Não.

Vinha do quarto das crianças.

Era a voz de July.

— Papai...

Meu corpo inteiro congelou.

Lentamente, virei a cabeça em direção ao quarto.

— Para onde você está levando Lúcifer, papai?

I
Autor @Arrozdocii
Publicado em 23 de janeiro de 2017
Categoria Contos