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Capítulo II - O Vaticano

1555, Vaticano.

O clima dentro da Santa Sé era de completa libertinagem. Sob o pontificado de Júlio III, muitos diziam que o Vaticano lembrava mais um palácio de excessos do que um local dedicado à fé.

Naquela manhã, porém, uma visita inesperada tornaria o ambiente ainda mais agitado.

Dom Amaral, um padre português, havia viajado durante semanas para conseguir uma audiência urgente com o Santo Padre.

— Bom dia. Seja bem-vindo, Dom Amaral.

O guarda da entrada fez uma breve reverência.

Preocupado demais com o motivo de sua visita, Amaral apenas respondeu com um discreto aceno antes de continuar seu caminho.

Enquanto subia os longos degraus do Vaticano, sua mente voltou aos acontecimentos da semana anterior.

Algo profundamente maligno parecia ter despertado.

Após o término de uma missa, quando todos os fiéis já haviam deixado a igreja, Amaral percebeu uma jovem ajoelhada diante do altar.

Ela permanecia de costas para o crucifixo.

Aquilo era estranho.

Mais estranho ainda era o fato de ela parecer conversar com alguém.

Entretanto, a igreja estava completamente vazia.

Aproximando-se com cautela, Amaral falou calmamente:

— Minha filha... você está voltada para o lado errado.

Assim que ficou a poucos passos dela, a jovem ergueu lentamente a cabeça.

Uma voz completamente diferente da sua ecoou pela igreja.

— Eu fui a luz... hoje sou as trevas. Venho em nome dele para anunciar o fim deste mundo. Eu sou aquele a quem todos temem.

Dom Amaral sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Sem hesitar, iniciou uma oração.

— Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra...

A entidade começou a rir.

— É só isso? Esperava alguém mais preparado.

Amaral retirou rapidamente um pequeno frasco de água benta do bolso.

Antes que pudesse aspergi-la sobre a jovem, a criatura voltou a falar.

— Vou facilitar o seu trabalho.

Uma sombra negra desprendeu-se lentamente do corpo da garota e atravessou um dos vitrais da igreja, desaparecendo na escuridão.

Jamais, em toda a sua vida sacerdotal, Dom Amaral havia presenciado algo semelhante.

Foi naquele instante que decidiu viajar até Roma.

Precisava da autorização da Igreja para investigar aquele fenômeno. Mas, acima de tudo, precisava de ajuda.

Não acreditava ser capaz de enfrentar aquilo sozinho.

O Vaticano

Quando finalmente se aproximava da sala onde aconteceria sua audiência com o Papa, gritos interromperam seus pensamentos.

Dois arcebispos saíram correndo em completo desespero.

— O que aconteceu?

— A besta... a besta está aqui!

Outros religiosos fugiam pelo corredor.

Amaral, porém, caminhou na direção oposta.

Ao entrar na sala, encontrou um cenário perturbador.

Jovens estavam caídos pelo chão, desacordados, com símbolos vermelhos desenhados sobre seus corpos.

Eram estrelas de oito pontas.

As mesmas que havia visto durante a possessão.

No fundo do salão encontrava-se o Papa.

Quase sem roupas, permanecia imóvel.

Ao seu lado havia um jovem ajoelhado.

Quando Amaral se aproximou, a figura do pontífice começou a se distorcer diante de seus olhos.

Chifres surgiram lentamente sobre sua cabeça.

Seu rosto tornou-se irreconhecível.

Por um instante, Amaral acreditou estar diante do próprio demônio.

Mas havia algo errado.

Tudo parecia irreal.

Como um pesadelo.

Como se alguma força estivesse tentando mostrar-lhe exatamente aquilo que mais o aterrorizava.

Os gritos dos guardas ecoaram pelo corredor.

Amaral cambaleou para trás, completamente desnorteado.

Sem perceber, entrou em outra sala.

Sentou-se na primeira cadeira que encontrou, tentando recuperar o fôlego.

Foi então que percebeu que não estava sozinho.

Um garoto de roupas velhas observava-o em silêncio.

— Olha só... nós nos encontramos novamente.

Amaral permaneceu calado.

— É preciso muita coragem para chegar até aqui.

O garoto começou a caminhar lentamente em sua direção.

— Onde estão seus pais? — perguntou Amaral.

O menino sorriu.

Fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, suas pupilas haviam desaparecido.

— Eu fui a luz... hoje sou as trevas. Venho em nome dele para anunciar o fim deste mundo.

Dom Amaral empalideceu.

Era a mesma entidade.

Ergueu lentamente o crucifixo.

— Vade retro, Satana...

Num piscar de olhos, o garoto desapareceu.

Amaral respirou aliviado.

Mas apenas por um instante.

A voz voltou a surgir.

Desta vez, bem atrás dele.

— Você vai morrer... como todos os outros.

Antes que pudesse reagir, a porta foi aberta violentamente.

Um homem entrou na sala usando um longo sobretudo preto.

Sem perder tempo, levantou uma pequena pedra verde que carregava na mão.

Virtute Savedro, vos teneo viridi lapide.

A entidade pareceu hesitar.

Logo depois, uma intensa luz verde tomou conta do ambiente.

A sombra foi puxada violentamente em direção à pedra até desaparecer completamente.

Quando a claridade cessou, o estranho voltou-se para Amaral.

— Parece que cheguei na hora certa.

O padre ainda tentava compreender o que havia acabado de acontecer.

— Quem é você?

O homem guardou cuidadosamente a pedra.

— Eduardo Savedro.

Fez uma breve pausa.

— Estou caçando essa criatura há meses.

— Ela... morreu?

Savedro balançou a cabeça.

— Não.

— Então o que aconteceu?

— Apenas a aprisionei.

— Por quanto tempo?

Savedro olhou para a pedra em sua mão.

— Espero que por muito tempo.

O silêncio tomou conta da sala.

Amaral respirou fundo antes de perguntar:

— O que era aquilo?

Savedro demorou alguns segundos para responder.

— Não é um demônio comum.

— Então o que é?

— Uma maldição.

— Quem a criou?

— Ninguém sabe.

— Nem a Igreja?

— Nem ela.

Savedro voltou os olhos para a pedra.

— Sabemos apenas que, de tempos em tempos, alguém a desperta.

— E toda vez que isso acontece...

Ele respirou profundamente.

— A morte caminha entre nós.

Amaral apertou o crucifixo contra o peito.

— Então... isto é o início do Apocalipse?

Savedro permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Então respondeu:

— Não.

— Ainda não.

— Ao longo da história sempre existiram homens capazes de impedir que essa maldição alcançasse seu verdadeiro propósito.

Seu olhar se perdeu por alguns segundos.

Como se revivesse uma lembrança distante.

— Mas haverá um dia...

— Um único dia...

— Em que ninguém conseguirá detê-la.

— E, quando esse dia chegar...

— Tudo aquilo que chamamos de humanidade deixará de existir.

Continua...

Revisado em 30 de junho de 2026.

Fatos curiosos

Savedro significa "pedra milenar" e também é o sobrenome de uma das famílias mais importantes do universo dos contos de JC Botelho.

O Papa Júlio III realmente morreu em 1555 e é lembrado como um dos pontífices mais controversos da história da Igreja.

JC
Autor JC Botelho
Publicado em 11 de janeiro de 2017
Categoria Contos