Me vejo sem direção, defesa, cercada de estranhos competindo pela minha destruição e ruína. Às vezes eu os imagino como sombras de soldados alemães me levando para a guerra, talvez seja a velhice ou não.
Soldados impiedosos me acorrentaram. Não posso gritar ou chorar suas faces ganham formas peculiares quando estão com raiva ou em extrema fúria, sinto meus pêlos brancos e frágeis se arrepiarem. Não sei mais onde estão me levando, o veículo de combate não para de balançar.
As cordas me sufocam são cortantes e desesperadoras. Olho para fora e vejo o nevoeiro de fumaça, é o fim estamos quase chegando no destino final. Não acredito que serei morta a sangue frio por pessoas que nunca fiz o mal, serei uma eterna pecadora até meu último suspiro de dor. Nunca soube de fato o que era a maldade, talvez agora eu saiba.
O capitão parou o veículo, um sujeito alto com um olhar sombrio no rosto. Vejo algumas lágrimas caírem de seus olhos, seria ele um homem sensível e piedoso? Será que de repente mudou de ideia e decidiu me soltar? Seja qual for a resposta, é melhor do que ficar presa nesse lugar.
Estou livre. Na verdade, parcialmente livre. Retiraram as cordas sufocantes do meu corpo, sinto o ar tóxico deslizar em meus pulmões tão livres quanto eu, talvez tão mortais quanto. Minha felicidade momentânea tem seu fim quando vejo onde chegamos, as chaminés altas exalam escuridão.
Meu coração disparou quanto mais observava pior ficava, o grande balcão sem janelas e cores atrativas. O clima cinzento e sua melancolia tão grudenta quanto cola impregnava na minha pele como pura radiação, me infectavam com sua desolação.
Ao andar aos tropeços, memórias vívidas de minha vida pulsavam como sangue nas veias. Tempos difíceis porém felizes de infância, guardadas em algum cantinho da minha mente desesperadas por liberdade. Uma pena eu não as enxergar com tanta clareza como desejo. Decidi-me fechar os olhos e poupar-me sofrimento eis o momento que mais temia, a morte.
Não foi fácil abrir os olhos e encontrar outra realidade tão dolorosa e desprezível, mas por algum motivo esses sentimentos ruins aos poucos foram sumindo. As imagens formaram entre si um lugar calmo e aconchegante, seria essa a paz que tanto que queria? É bela.
Há mobílias de madeira branca espalhadas pelo quarto, um bonito abajur em formato de nuvem com glitter nós arredores, o teto tem um glorioso lustre de tamanho médio com fragmentos de vidro. Quando a luz solar da tarde entra pelas janelas do quarto há um contato imediato com os vidros do lustre, trazendo raios coloridos para dentro do cômodo.
Seria esse lugar o meu paraíso individual? Um lugar onde eu possa me isolar e reviver minhas memórias e antigas paixões? Não. Há algo de errado, eu esperava o pior. Esse lugar é uma mentira disfarçada de um sonho bom, os móveis não são reais e essa nuvem abajur não deveria existir. Mentira.
Em um ataque de fúria fui com passos pesados até a porta, me recusava estar em uma mentira. Atravessar a porta não foi uma desafio para mim, não senti nenhuma vibração estranha ou dor. Ampliei meu campo de visão, meu aguardado pós-vida estava apenas começando. Inesperado, como sempre.
Era um corredor vermelho escuro e comprido, como se tivessem despejado litros e litros de vinho nas amplas paredes. Encontrei detalhes dourados semelhantes a fios de ouro escondidos entre a forte cor vermelha, se eu não forçasse a visão não teria visto essas pequenas peculiaridades. Entretanto, o visual se tornou ainda mais bonito e misterioso.
Segui em frente tocando os desenhos de alto relevo suavemente, a tinta dourada cintilava como pó mágico entre minha pele enrugada. Apesar de não entender o significado dos desenhos, eu compreendia sua atraente natureza.
O corredor longe teve seu trágico fim junto aos desenhos, me deparei com a última parede exibindo um quadro grande artístico. Não consegui ler a assinatura do pintor, no lugar uma mancha cinzenta atrapalhava a identificação. Pisquei os olhos afim de melhorar a visão e lubrificar meus ressecados olhos, minha visão clareou e a imagem do quadro ganharam vida num piscar de olhos.
Tenho vagas lembranças da minha infância e uma delas era a pintura. Tentei muitas vezes expressar meus sentimentos com a ajuda do pincel e tinta barata, mas no fim das contas eu apenas rabiscava desenhos insignificantes. Mas quem seja esse pintor, expressou bem e de maneira clara o conceito de paisagem bonita.
Além das cores vivas, o ambiente apresentado remete a um sentimento bom e agradável de se olhar.
Apesar de ter uma temática simples, sinto o encanto mais puro e genuíno sendo transmitido por essa tela. Há uma cabana de madeira simples no centro, sendo direcionado por um caminho de pedras e flores crescendo junto à grama. Nas árvores ao redor folhas esverdeadas se unificam entre os galhos largos. Os raios de sol influenciam diretamente no visual da pequena cabana trazendo ainda mais detalhes.
Por ter uma luz forte as janelas vibram em brilho. Eu desejava aquele lugar, com certeza seria melhor do que viver em uma mentira. Meus desejos de fugir, eram mais fortes do que a realidade. Aos poucos fui atraída pela paisagem bonita, com os olhos vidrados sem ter um pensamento na cabeça. O mistério que sentia não estava explícito mas eu ainda conseguia sentir, lá no fundo da minha essência.
O tombo foi como um empurrão, se não fosse por minha idade avançada eu já teria levantado e explorado o lugar. Mas ao invés disso esperei, a experiência completa da paisagem de uma hora ou outra iria surgir e me encantar. Esperei sentir as pedras do caminho amassando minhas mãos, esperei sentir o cheiro das flores e o raio de sol se locomover e cegar momentaneamente o meu olhar. Tanta espera, para mais uma vez eu me decepcionar.
Não vi nada. Nas minhas mãos, a terra molhada entrava entre meus dedos, sem nenhum tipo de odor, apenas escuridão. Senti um leve arrepio na espinha.
O vento congelante surgiu de repente para dificultar minha caminhada, sentia repetidamente meus joelhos oscilarem e doer. Que diabos era esse lugar? Onde estava a luz?
Os barulhos me assustavam com facilidade, não conseguia distinguir o que era normal ou não. As fortes rajadas de vento quase me derrubavam, por ser leve era questão de tempo eu ser levada pela ventania. Socorro.
Meus gritos eram abafados pelos diversos sons, se aquela era a morte eu preferia morrer de uma vez por todas. Morra.
Minha luz do fim do túnel surgiu de repente, senti a madeira firme de uma porta ao tocar nela. Segurei a maçaneta e abri a porta com pressa, o sufoco que tanto me afligia sumiu. Pude respirar com calma e recuperar a consciência.
A temperatura dentro da cabana aumentou por conta das janelas fechadas, mas ainda conseguia ouvir o vento fazer pressão como se tivesse desesperado para entrar. Eu estava salva, por enquanto.
A claridade da lua lá fora me possibilitou encontrar a caixinha de fósforo caída sobre meus pés, no interior ao todo 5 fósforos para usar. Eu precisava verificar os cômodos e encontrar ajuda.
Acendi o primeiro fósforo e o ergui no ar, foi de grande ajuda pois pude verificar o interior da sala. Não encontrei nada de útil, o sofá mofado parecia ter sido atacado por um lobisomem de tão destruído. Decidi me movimentar ao lado das janelas, o fósforo apagou.
Com as mãos trêmulas acendi outro fósforo, apoiei uma mão na parede e caminhei devagar sentindo a textura da madeira me levar para algum lugar. Atravessei a primeira janela, lá fora não tinha nada para observar. Talvez se eu andasse mais devagar nessa área, alguém poderia me encontrar com a claridade do fósforo aceso.
Continuei a tocar a parede erguendo o fósforo no ar, o único som era da minha respiração apressada. Tive medo de me desesperar e acabar com os fósforos, eu poderia me perder ou pior...ser engolida pela escuridão que me acompanhava ao andar. Senti a pressão da janela, a ventania lá fora era um alerta de que eu não poderia sair de lá se quisesse viver. Um cheiro azedo arrepiou os pêlos da minha narina, eu estava me aproximando de algo.
Eu estava assustada não há como negar, a cada passo dado minha bexiga se contorcia com vontade de soltar a urina. Quando estou com medo, as chances de ter uma surpresa desagradável são grandes.
Cheguei em algum lugar ainda não identificado, quando acendi o fósforo estava na frente de uma louça. Era a cozinha, na louça haviam restos de comidas podres e pratos quebrados. Do lado esquerdo a geladeira antiga parecia estar abandonada à tempos, a julgar pelo musgo e odor de mofo por toda a parte. Era nojento ficar perto dali, minha atenção foi direcionada a porta ao lado da geladeira. O fósforo apagou, fiz ânsia de vômito.
Restam apenas mais 2 fósforos na caixinha e eu não faço ideia do que irei encontrar nos próximos cômodos da pequena cabana. Apesar de ser pequena, o lugar parenta ter uma história perturbadora. Não sei o que pensar, na verdade, melhor só seguir em frente para não perder a coragem.
Ao andar tive um pressentimento ruim, do tipo que costumava alertar meus filhos por terem más companhias. Porém esse era sentimento mais forte e arrasador, do tipo que encolhe suas entranhas até não sobrar nada.
Abri a porta e estava um pouco enferrujada, tive que fazer um pouco de força para poder abrir. Deu certo, aquele era o banheiro tão sujo e fedorento quanto os outros cômodos. Torci meu nariz com nojo, tentei abrir a torneira mas nada saiu. Tive a desagradável surpresa quando uma barata passou de raspão no meu pé, sacudi o mesmo com desgosto.
A cima da pia tinha um pequeno espelho sujo e quebrado, entre a sujeira pude ver meu reflexo por poucos segundos. Meu rosto cansado e velho não mudou muita coisa, com o tempo passei a esquecer a beleza que um dia deixei pra trás. Perdida em pensamentos, me assustei ao ver algo passar rapidamente por trás de mim.
Paralisei. Não estava sozinha nunca estive, eu só não conseguia enxergar a pequena criaturinha que me seguia. O fósforo se apagou com o sopro da sombra que me seguia, novamente a escuridão dominou meu olhar.
Meu enjôo devido ao nervosismo embrulhava meu estômago como ácido, perdi o controle das pernas e caí no chão. Sem enxergar, duvidando de meus próprios pensamentos fui tomada por uma onda de sentimentos ruins. A sensação terrível que me perturbava, agora tão perto de mim.
Desânimo sem fim, talvez seja esse o motivo de tanta escuridão. Ofuscar qualquer tipo de foco de luz, engolir minhas esperanças a preço de quê? Novamente eu estava sozinha, terrivelmente sozinha. Déjà-vu.
Apalpei o chão procurando a caixinha de fósforo, me lembrei que ainda restava o último fósforo. Felizmente o encontrei, levantei sentindo dores nas articulações mas ignorei, não era tempo de sofrer por banalidades. Acendi o fósforo, na minha frente a última porta. O quarto, a sensação ruim voltou.
Abri a maçaneta com cuidado, senti uma pequena confusão mental ao entrar, como se eu já tivesse estado lá. Memórias ruins que tanto insistir em esquecer, agora me assombração sem piedade. Sim eram minhas trágicas memórias.
Finalmente compreendi quem eram as sombras e por quê elas faziam aquilo comigo. Eu as guardei em uma caixa lacrada e esqueci com o tempo, mas de algum jeito elas conseguiram se libertar e agora fazem questão de mostrar que estão mais vivas do que nunca.
Ali estava a última sombra na última porta. Uma sombra pequena e desajeitada, encolhida no chão frio com carcaças de animais e insetos mortos. Não tive medo dela, era como se a minha presença também fosse assustadora.
Aos poucos me aproximei, o reflexo da lua na janela facilitou minha localização. Pensei estar alucinando, mas ao lado da perna dela tinha uma vela branca caída. Eu precisava ser rápida, sem mais escuridão por hoje.
Estiquei meu braço, o foco de luz quente queimava o resto do fósforo. Mas de repente, quando eu quase alcançava o fio da vela, o inesperado aconteceu. A sombra pequena sentou e apagou a única coisa que importava para mim, acabaram meus fósforos.
Decepcionada, não percebi a presença de outra criatura ao lado da cama de casal velha. Era horripilante, sua presença tão abominável quanto a de uma fera extremamente perigosa e imprevisível. Ali parada esperando o momento certo para atacar, o culpado de tanta escuridão e sofrimento para a pequena cabana.
Ele, tão perverso que me enganou com uma paisagem bonita, me fazendo pensar que o paraíso era algo real e significante. Nunca existiu.
O quarto resfriou, a janela do quarto trincava com o sopro congelante da criatura, eu precisava sair dali ou iria morrer de frio.
A criatura era alta, semelhante a uma bola de poeira densa. Pude ouvir sons sendo emitidos por ela, tais como choro de criança, às vezes gritos e grunhidos de dor. Tudo em uma só criatura. Não me movimentei, precisava de um plano para não atrair a coisa até mim. Meu plano estava em minhas mãos, literalmente.
A caixinha de fósforo era a minha salvação e a única tentativa, tive a brilhante ideia de arremessar a caixinha na janela, assim terei alguns segundos para correr. Espero eu. Mentalizei a contagem, no três.
"1...2...3...agora!"
No momento em que a caixinha tocou no vidro, consegui visualizar a coisa se mover brutalmente até a janela em meia tanta adrenalina. Os cacos de vidro explodiram no ar, como se alguém tivesse dado um tiro de escopeta na janela. Aquela era a minha deixa, corri como se a minha vida dependesse daquilo.
Meu braço sangrava, alguns pedaços de vidro me atingiram ao correr, porém tive forças para fugir do quarto. Rapidamente fechei a porta, por conta da vasta escuridão bati a barriga com força na pia do banheiro.
Uma forte dor se alastrou na região, não pude verificar mas como certeza estaria roxo o machucado. Mordi o beiço aguentando a dor, não era hora de ficar parada, mas com certeza agora não podia correr. Em poucos segundos a criatura me alcançou, ouvi a porta do quarto explodir e tremer o chão com o ataque inesperado. Saí do banheiro.
A cada passo que dava uma insegurança e medo surgia para atormentar meus pensamentos, por um momento pensei que isso devia ser algum truque da criatura, ou apenas minha mente assustada. Cheguei a conclusão que talvez seja a mistura de ambas as coisas. Tinha medo de me perder, ao mesmo tempo não queria me machucar pela criatura. Confuso, muito confuso.
Cheguei na cozinha, sentia o cheiro azedo quando passei ao lado da geladeira. A saída estava próxima, não vou desistir. Não agora.
Andando apressada com as mãos apertando delicadamente o machucado na barriga, que tremendo pesadelo. Não encontrei as janelas, apenas o breu. Impossível, cadê a luz da lua? Grunhi de dor, o monstro terrível tirou de mim qualquer sinal da realidade, então esse era o fim? Não fiquei para descobrir.
Me arrisquei andando pelo lado esquerdo, se eu encontrar a janela vou saber minha localização. Ouço sons do monstro se aproximando, "merda merda merda".
Esbarrei em algo macio e extenso, o sofá. "O quê? O sofá? Não faz sentido ele estar aqui, lembro de vê-lo próximo a saída!". Primeiro foi a luz da lua, agora os móveis estão trocados de lugar.
Correndo contra o tempo e morte, meus últimos momentos foram rápidos e cruéis. Mesmo com dor eu alcancei a porta da saída, felizmente ela não tinha mudado de lugar. Mas no último segundo, o inesperado aconteceu quando virei a maçaneta. A criatura me puxou pela barriga, uma sensação ruim da sua desalma se intensificou, pude sentir o meu fim. Lembro-me dos gritos e dores que a bolha preta transmitiam. Mas não há dor pior do que não conseguir dizer adeus, desculpe meus amados filhos.
Fora da cabana o sol nasceu trazendo sua luz reconfortante, as flores coloridas desabrocharam e as pedras voltaram a formar o caminho.
O quarto era perfeito para a mamãe, tão bonito e elegante. As cores suaves davam um ar de simplicidade, não era extravagante ou chique demais, digamos que estava na medida certa. Estive tão concentrada em apreciar que esqueci completamente da hóspede, fui até o banheiro mas ela não estava lá. Reparei em um detalhe interessante no banheiro, bem arrumado com uma banheira/chuveiro, certamente essa casa de repouso atende as expectativas dos clientes e seus responsáveis.
Minha única alternativa era procurar fora do quarto, mamãe deve estar vagando por aí se perguntando sobre a mudança repentina. Precisava encontrá-la rapidamente pois a enfermeira/cuidadora precisava conhecê-la com a minha presença. Sem falar nas papeladas de autorização que aguardavam minha assinatura...
Encontrei um corredor longo ao sair do quarto, ela não foi muito longe, graças a Deus. Preocupada, não observei por muito tempo pois precisava levar a mamãe de volta para o quarto. Lá estava ela, no final do corredor encarando algo que eu não conseguia enxergar. Mamãe optou por vestir o vestido de casamento da vovó, insisti em mostrar outras opções de vestidos tão bonitos quanto mas ela não mudou de ideia. Por ser um vestido muito antigo, a costura deixava a desejar junto com as cores ultrapassadas. Mas apesar disso, era um vestido elegante e ao mesmo tempo discreto. Naquele tempo as mulheres eram proibidas de usar vestidos curtos e com cores chamativas, resultado de uma sociedade machista e opressora.
Me aproximei dela lentamente para não a assustar, seu cabelo solto deslizava pelo vestido, sempre achei seu cabelo lindo. Segurei em sua cintura, com os olhos vidrados no quadro ela nem se importou comigo. Disse:
- Quadro bonito, não é mãe?- Dei um beijo em sua bochecha e continuei.- Vamos voltar para o quarto, você precisa conhecer a enfermeira Cláudia. Ela vai cuidar muito bem da senhora, e de brinde vai ganhar mais uma amiga.
Sorri de canto tentando encontrar algum vestígio de expressão em seu rosto, mas não achei nada. Partia meu coração vê-la daquele jeito chorei diversas vezes no carro ao vir pra cá, sua condição me afetava tanto quanto a ela mesma.
Voltamos para o quarto e sentei a mamãe na cama, passei de leve a mão em seu cabelo para afastar os fios rebeldes que caíam em seus olhos. Sou uma péssima filha, esqueci de cortar o cabelo dela espero que a cuidadora dê um jeito nisso. "Desculpe mãe".
Cláudia apareceu alguns minutos depois, era uma mulher de meia idade gordinha de cabelos pretos cacheados. Com um sorriso doce nós lábios, ela segurava uma prancheta na mão e disse:
- Olá! Você é a responsável pela senhora Evangeline?
Eu olhava para a janela, procurando as travas de segurança nos lados. Cláudia pareceu ter entendido minhas intenções ali, e logo respondeu minhas dúvidas como se pudesse ler minha mente.
- As travas ficam na parte de dentro dos trincos, ela pode ser aberta até certo ponto. Gostaria de tentar? Nossa prioridade é sempre a segurança de nossos pacientes.
Senti vergonha ao ouvir suas palavras, não precisei de um espelho para saber que meu rosto mudou de cor na hora. Me virei em sua direção e disse:
- Não. Não é necessário, fui verificar porquê não conhecia boas travas por dentro. Erro meu, perdão.- Fiquei incomodada com a situação mas Cláudia pareceu não se importar.
- Sem problemas! É muito comum os filhos verificarem os sistema de segurança, se importam tanto quanto nós.- Ela deu uma risada que melhorou o clima, me senti mais tranquila para conversar com ela. Assenti e disse:
- Prazer meu nome é Rosa, sou a filha mais velha. Ao todo somos quatro filhos, os outros três não puderam estar aqui mas ajudaram à trazer a mamãe pra cá.
- Ah sim. Foi boa a viagem? Soube por outros pacientes que a senhora Evangeline estava bastante agitava.
Cláudia me olhou com paciência e compreensão, esperando uma resposta. De fato aquela não foi uma viagem fácil, respondi:
- A condição da mamãe piora quando ela saí de casa, como se a doença dominasse completamente ela. Por isso tive um pouco de receio em levá-la para longe.- Suspiro.- Mas saindo de casa ou não, ela já está piorando.
Então decidimos escolher a melhor casa de repouso que encontramos.
- Entendo perfeitamente. Ela tem Alzheimer certo?
- Sim, mas um dos sintomas que mais prevalece são as alucinações. De vez em quando ela tem picos de realidade, por exemplo à alguns minutos atrás quando mostrei o quarto a ela. Estava sã e adorou a decoração.
Cláudia assentiu e anotava cada palavra em um diário dos pacientes, perguntou:
- Na viagem de carro, como ela agia? De 0 a 10, em termos de normalidade.
- Eu diria que...5 definitivamente. Foi difícil para colocarmos o cinto de segurança nela, a todo momento ela nos referia à soldados.- Continuava a escrever, recordei mais alguns detalhes importantes.- Não houve ataque físico, como chutes ou tapas. Mas foi difícil ouvi-la gritar.
- Soldados? Interessante.- Ela terminou de anotar algo e olhou em meus olhos séria.- Toda alucinação tem um fundo de realidade, seja um contexto, pessoa ou até mesmo lembranças e traumas. Saberia me dizer qual é a da sua mãe?
Balancei a cabeça afirmando, e revelei o duro passado da mamãe.
- Mamãe foi abandonada quando criança. Ela tinha uns 6 anos na época, o vovô foi convocado para lutar na guerra contra a Alemanha. Como na época eram tempos difíceis, vovó fugiu com ela para se isolarem da realidade em uma cabana antiga no topo de uma montanha.
- Elas viveram alguns meses lá, isoladas de qualquer contato humano. Vovó saía de vez em quando para fazer compras na cidade mais próxima, demorava umas 7 horas para ela voltar, enquanto isso mamãe ficava sozinha.- Lacrimejei, sentia nojo de lembrar da vov, mas engoli a vontade de xingá-la .- Certo dia a vovó recebeu uma carta oficializando a morte do vovô, depois dessa revelação dolorosa foi a gota d’água para ela.
- O que aconteceu?
- A vovó entrou em depressão profunda e isso a levou fazer escolhas erradas, muito erradas.- Sinto uma tristeza ao lembrar desses detalhes, queria poder ter protegido a mamãe.- Ela fugiu e deixou a filha trancafiada na cabana por dias. Sem qualquer tipo de alimento, mamãe se alimentava de ratos e outros insetos que eram atraídos pela sujeira.
A enfermeira revelou seu lado sensível, fez uma expressão solidária e curiosa. Ela queria saber o desfecho da história, disse:
- Podre coitada...E como ela foi encontrada?
- Um grupo de saqueadores invadiram a cabana e a encontraram quase sem vida, desnutrida e com infecções graves na pele por ter se alimentado dos ratos.- Senti um gosto azedo na boca.- O estranho é que essas memórias ruins voltaram como uma avalanche para cima dela, com o surgimento dessa doença é claro. Por um tempo eu até desejei que ela apenas se lembrasse da adolescência ou quando foi adotada, mas não, justo essa memória.- Me aproximei de Cláudia e segurei suas mãos com firmeza, naquele momento as lágrimas deslizavam em meu rosto como águas de um rio.- Vocês poderiam ter um cuidado extra com ela? Sei que é um pedido indelicado da minha parte, até porquê vocês tem tantos outros pacientes para cuidar... Mas estou desesperada, pareço normal por fora mas por dentro... Ah. Eu só quero que ela passe por momentos bons, mesmo com a mente tão perturbada. Por favor, faça isso por mim.
- Sim. Pode ficar tranquila, dona Evangeline vai se sentir no céu conosco.
Mas no fim os olhos vidrados e cansados da dona Evangeline diziam o contrário, sua prisão mental tinha apenas começado. Por dentro seu maior desejo não era um quarto confortável e sim um confronto direto com sua detestável arqui inimiga, a morte.