Se eu pudesse ter sete vidas, então viveria todas elas da melhor forma possível. Em uma casa longínqua a beira mar com muita comida e pessoas gentis por perto que pudessem me dar carícias ao passar. Diferente de tudo que consigo imaginar, submergi em uma caixa escura onde a luz do sol invadia as pequenas penumbras pelas frestas e sequer me aquecia.
O frio de inverno se agravava em outubro,gatos que cresciam demais sumiam após a porta do juízo final ser aberta pela força maior. Estrelas caiam sobre o chão e enormes estrondos reverberavam pelo solo, passávamos tanta fome, tal qual às pessoas lá fora. Nunca conheci minha mãe ou outro parente qualquer, nunca tive um nome. Mesmo os gatos filhotes guardavam energia, nada é desperdiçado sem um propósito e o objetivo era alcançar a pouca comida que era jogada para nós e disputar com cem outros gatos.
Nascemos com o rosto para o chão e sobrevimentos com os olhos voltados ao vazio de nossa existência. Já é dezembro e mal consegui alcançar a comida da última semana. Tremo de frio e me abrigo em carcaças em putrefação que ficaram pelo caminho. Os anjos cantam mais forte do outro lado das tábuas e da grade de ferro, o grande espelho miserável que reflete as imagens vulgares de guerra.
Abrem a porta, recolhem os corpos ao meu redor até chegar ao meu que treme fraco, cansado e inútil. Mas se fosse para ter algum sentido, que seja para salvar as pessoas do outro lado deste mundo, que fiquem vivas e tenham uma vida melhor que a minha quando meu pescoço foi quebrado e meu corpo largado na panela enfervecente de água.
Hoje servi de alimento para duas pessoas pálidas, pobres, magrelas e deformes. Hoje eu segui a um propósito maior e fui maior que a mim, mais forte que toda minha vida. Não me importa morrer se consegui salvar alguém, nada importa para quem está condenado desde o início da primeira estrofe. O que mais me magoa é que nunca tive a verdadeira consciência de que pude salvar alguém, não participei da primeira estrofe de meu monólogo e jamais verei os sorrisos de todos aqueles que alimentei...