Chovia intensamente naquela noite. Raios riscavam o céu e trovões ecoavam sem parar. O barulho era ensurdecedor, mas nada me incomodava mais do que as vozes que habitavam minha mente. Elas me atormentavam dia e noite.
Meu nome é Carlos. Eu morava em uma pequena cidade do interior de São Paulo, com pouco mais de novecentos habitantes. Era um lugar tranquilo, cheio de pessoas humildes e acolhedoras. Como toda cidade pequena, porém, havia também aqueles vizinhos inconvenientes que pareciam viver apenas para incomodar os outros.
Minha vida era feliz... até que uma nova família se mudou para a casa ao lado.
Eles transformaram minha rotina em um verdadeiro inferno. As crianças passavam as tardes correndo, gritando e rindo sem parar. Eu odiava aquelas risadas. Os pais fingiam ser pessoas exemplares, educadas e corretas, mas bastava olhar para eles para que um ódio inexplicável crescesse dentro de mim.
Quanto mais o tempo passava, mais altas ficavam as vozes em minha cabeça. Elas não me deixavam descansar.
Quando eu já estava à beira da loucura, uma voz diferente surgiu.
Era grave.
Sombria.
E falou com uma clareza assustadora:
— Você quer voltar a ter paz? Então faça exatamente o que mandarmos.
Aquelas palavras congelaram minha alma... supondo que eu ainda tivesse uma.
Fiquei completamente imóvel.
Quando finalmente consegui me mover, percebi algo parado atrás da porta do quarto.
Nunca esquecerei aquele par de olhos vermelhos, intensos como sangue e completamente sem pupilas.
Passei o restante do dia trancado em casa, tentando decidir o que fazer.
Quando anoiteceu, a voz voltou.
Ela repetia sempre a mesma pergunta.
— Já tomou sua decisão? Prefere matar... ou morrer?
— Já tomou sua decisão? Prefere matar... ou morrer?
— Já tomou sua decisão? Prefere matar... ou morrer?
Não aguentei mais.
— Sim! Vou fazer o que for preciso... Só me deixem em paz!
Saí de casa completamente transtornado.
Foi somente naquele momento que percebi que uma tempestade havia tomado conta da cidade. A chuva caía com violência, acompanhada por relâmpagos e trovões que iluminavam as ruas por frações de segundo.
Mesmo assim, continuei caminhando em direção à casa dos meus vizinhos.
Ao me aproximar, vi uma pá encostada perto do jardim, provavelmente usada para cuidar do terreno. Peguei-a sem pensar.
A porta da casa estava apenas encostada.
Empurrei-a lentamente e entrei tentando fazer o menor barulho possível.
Foi então que a esposa do meu vizinho me viu.
Ela soltou um grito desesperado.
No mesmo instante, um relâmpago caiu tão perto da casa que as janelas estremeceram, iluminando todos os cômodos por um breve segundo.
Corri em sua direção.
Mas algo chamou minha atenção.
Parei imediatamente.
Virei lentamente a cabeça.
E, quando olhei para o lado...
Continua...