Talvez seja apenas impressão minha.
Mas eu sei que existe alguma coisa dentro de mim.
Há muito tempo tento descobrir o que há de errado com a minha mente. Não é exatamente o que penso que me assusta, mas aquilo que essa outra presença faz comigo... e o quanto ela influencia minhas ações.
Tudo começou há dez anos.
Eu dirigia tranquilamente pela estrada quando um caminhão invadiu a pista e bateu de frente com o meu carro.
O impacto destruiu completamente o veículo.
Disseram que sobrevivi por um milagre.
Perdi o olho direito.
Perdi a perna esquerda.
Fiquei um ano inteiro em coma.
E, ainda assim, insistem em chamar isso de milagre.
Milagre foi o que aconteceu com o caminhoneiro.
Aquele desgraçado saiu ileso.
Durante o coma, tive apenas um sonho.
Ou pelo menos foi isso que sempre acreditei.
Eu estava em um lugar completamente vazio.
Não havia chão, nem céu.
Apenas uma imensa escuridão iluminada por uma cor que jamais consegui descrever. Não era azul, nem branca, nem qualquer outra que existe neste mundo.
Ao meu lado havia um homem.
Ele permanecia sentado em silêncio, olhando para o horizonte.
Nunca dizia nada.
Eu também não sentia vontade de falar.
Era como se o silêncio fosse suficiente.
Depois de um longo tempo, ele se levantava, caminhava até mim e colocava a mão sobre meu ombro.
Então dizia alguma coisa.
Mas toda vez que eu acordava, esquecia completamente suas palavras.
Os médicos diziam que era apenas uma construção da minha mente.
Eu também acreditava nisso.
Até alguns anos depois.
Hoje passo os dias preso a uma cadeira de rodas.
O acidente levou muito mais do que partes do meu corpo.
Levou meus amigos.
Minha antiga vida.
Minha vontade de continuar.
Nenhum deles voltou para me visitar.
Talvez nunca tenham sido meus amigos.
Mas existe outra coisa.
Todas as noites, exatamente antes de dormir, um vulto negro aparece no canto do quarto.
Ele nunca se aproxima.
Nunca fala.
Apenas me observa.
Contei para minha esposa.
Ela disse que eram traumas do acidente.
Procurei psicólogos.
Passei por neurologistas.
Todos afirmaram a mesma coisa.
— Seu cérebro está perfeitamente normal.
Mas eu sei que não estou imaginando.
Consigo sentir aquela presença.
E, a cada noite, ela parece ficar mais próxima.
Já estou cansado.
Talvez exista apenas uma maneira de descobrir a verdade.
Minha arma continua guardada na gaveta do criado-mudo.
Olho para minha esposa dormindo.
Sussurro:
— Me desculpe...
Depois olho para o relógio.
Quatro horas da manhã.
Pego a arma.
Conto lentamente até sete.
Um.
Dois.
Três.
...
Sete.
Puxo o gatilho.
Não sinto dor.
Não escuto o disparo.
Quando abro os olhos, estou novamente naquele lugar.
O mesmo vazio.
A mesma estranha luz.
O mesmo homem está sentado ao meu lado.
Desta vez ele sorri.
Levanta-se.
Coloca a mão sobre meu ombro.
E, finalmente, consigo entender aquilo que ele tentou me dizer durante todo o tempo em que permaneci em coma.
— Você já está morto.