Minha primeira estadia no Inferno foi... diferente de tudo o que vivi durante minha obscura existência.
No Terceiro Mundo, os humanos imaginam o Inferno de inúmeras formas. Alguns acreditam que ele seja apenas uma prisão destinada aos renegados, aos pecadores e aos que desafiaram a palavra do Criador. Outros o descrevem como um lugar de fogo eterno, sofrimento e desespero.
A verdade é muito pior.
A imaginação humana jamais seria capaz de compreender o que realmente existe aqui.
No Terceiro Mundo, vivi segundo meus próprios instintos. Matei pessoas. Estuprei homens, mulheres e crianças. Cometi atrocidades que nem o tempo seria capaz de apagar.
Eu sempre soube qual seria meu destino.
Enquanto aguardava minha execução naquela cela imunda, passei horas refletindo sobre tudo o que havia feito. Curiosamente, não sentia arrependimento.
Quando o guarda bateu na porta anunciando que minha hora havia chegado, senti apenas alívio.
A vida humana finalmente terminava.
Aqui, o tempo não existe como na Terra.
Um único minuto parece durar anos.
As torturas que sofri desafiam qualquer descrição. Nenhuma mente humana conseguiria imaginar a crueldade dessas criaturas.
O Inferno é imenso.
Tão vasto que parece não possuir limites.
Existe um lugar chamado Cumes Flamejantes, para onde são enviadas as almas que desafiaram os deuses ou profanaram aquilo que era considerado sagrado. Nem mesmo os outros condenados suportam ouvir os gritos vindos daquele lugar.
O vento carrega o sofrimento.
E cada lamento ecoa por todo o Inferno.
Depois de algum tempo, compreendi uma verdade que jamais imaginei admitir.
Eu estava errado.
Durante toda a minha vida, pensei ser um monstro.
Mas, diante das criaturas que habitam este lugar...
Eu não passava de uma criança brincando com crueldade.
Meu torturador chamava-se Alastair.
Seus olhos eram completamente brancos.
Não havia pupilas.
Não havia vida.
Apenas um vazio impossível de encarar por muito tempo.
Foi ele quem me revelou algo que destruiu qualquer esperança que ainda restava.
Disse que já havia estado ao meu lado inúmeras vezes enquanto eu ainda vivia na Terra.
Segundo ele, era sua voz que alimentava meus impulsos mais perversos.
Era ele quem sussurrava em meus pensamentos.
Quem fortalecia minha maldade.
Quem me preparava para chegar ali.
Um dia, depois de séculos de sofrimento, Alastair fez uma proposta.
Disse que eu poderia abandonar o papel de condenado.
Em troca, passaria a ocupar o lugar dos torturadores.
Não haveria liberdade.
Não haveria perdão.
Apenas uma troca.
Minha dor...
Pela dor de outras almas.
Aceitei sem hesitar.
Ele me ensinou técnicas que nem mesmo a imaginação mais doentia seria capaz de conceber.
No início, senti culpa.
Depois veio o prazer.
E, por fim...
O orgulho.
Os milênios passaram.
Meu nome tornou-se conhecido entre os condenados.
As almas tremiam quando ouviam que seriam entregues ao aprendiz de Alastair.
Hoje compreendo que aquele nunca foi um castigo.
Foi um treinamento.
O Inferno não destrói monstros.
Ele os aperfeiçoa.
Espero que tenha lido esta mensagem com atenção, nobre leitor.
Quando chegar sua vez de atravessar os portões deste glorioso submundo...
Não se preocupe.
Eu estarei esperando.
Atenciosamente,
O Aprendiz.