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Eu só queria atenção

Desde pequeno, eu não suportava não ser o centro das atenções. Odiava quando alguém roubava os olhares que deveriam estar voltados para mim.

Com o passar dos anos, essa necessidade só aumentou. Foi então que decidi me tornar modelo. Achei que, finalmente, encontraria o reconhecimento que sempre procurei.

Mas não foi assim.

Nunca fiz sucesso. Tentei outras profissões, mudei de emprego diversas vezes, mas nada funcionava. Minhas ideias haviam acabado.

Até aquele dia.

Durante meu horário de almoço, fui encontrar alguns amigos em um restaurante. Assim que os avistei, caminhei em direção à mesa, mas um senhor caiu da cadeira bem na minha frente. Ele havia se engasgado.

Corri para ajudá-lo.

Nossos olhares se cruzaram.

Tentei chamar socorro, mas era tarde demais. Aos poucos, seus movimentos cessaram, e eu vi a vida desaparecer de seus olhos.

Naquele instante...

Todos estavam olhando para mim.

Aquilo foi incrível.

Pela primeira vez em muito tempo, eu era o centro das atenções. Todos observavam cada movimento meu. Todos falavam comigo.

Eu me senti importante.

Sabia que, mais cedo ou mais tarde, precisaria sentir aquilo novamente.

Então pedi demissão e comecei a procurar restaurantes que estivessem contratando garçons.

Não demorou muito para conseguir uma vaga.

Esperei duas semanas.

Precisava que todos confiassem em mim antes de colocar meu plano em prática.

Certa tarde, um homem entrou sozinho no restaurante. Sentou-se próximo à janela e pediu um suco.

Enquanto preparava a bebida, misturei algumas gotas de um veneno de ação lenta.

Depois, apenas esperei.

A ansiedade aumentava a cada segundo.

Quando percebi que ele começava a passar mal, aproximei-me da mesa.

— Posso trazer mais alguma coisa?

Ele tentou responder.

Não conseguiu.

Começou a sufocar diante de todos.

O restaurante inteiro entrou em pânico.

Era o espetáculo perfeito.

Corri para ajudá-lo.

Procurei rapidamente as chaves do carro entre seus pertences e, com a ajuda de outro cliente, o carreguei até o veículo.

Disse a todos que o levaria imediatamente ao hospital.

Todos acreditaram.

Mas meus planos eram outros.

Dirigi até minha casa.

Ele morreu antes de chegarmos.

Mesmo sem vida, seus olhos permaneciam abertos, encarando-me fixamente.

Eu sorri.

Aquele dia não poderia ter sido melhor.

Decapitei o corpo e coloquei a cabeça sobre a mesa da cozinha.

Passei horas observando aquele rosto imóvel.

Enquanto isso, no restaurante, todos acreditavam que eu era um herói.

É claro que nunca mais voltei lá.

As perguntas seriam muitas.

Você deve estar se perguntando por que escrevi tudo isso.

Bem...

Acabei de arrumar minhas malas.

Existem muitas cidades onde ninguém me conhece.

E muitos restaurantes esperando pelo próximo espetáculo.

Quem sabe...

A próxima cidade seja a sua.

E talvez...

Você seja a próxima pessoa que eu irei salvar.

Conto revisado em 30 de junho de 2026.

JL
Autor Jorge Luis Lopes
Publicado em 27 de fevereiro de 2017
Categoria Contos