Sons.
Passos.
Ecos.
Alguém está me seguindo.
Isso me assusta, mas, ao mesmo tempo, me conforta. Significa que ainda não estou completamente sozinho no mundo. Às vezes gosto de imaginar que sou o último homem vivo: inerte, intocável, esquecido.
Caminho pelas ruas escuras do Bairro Hill's. Um vento gélido atinge minha nuca e faz um arrepio percorrer todo o meu corpo. As ruas são estreitas e mal iluminadas; confundem qualquer um. Mesmo morando aqui há anos, ainda me perco entre elas.
Hoje fui visitar um velho amigo.
Mas ele não mora mais lá.
A escuridão domina cada esquina do bairro.
Viro discretamente a cabeça para a direita. No breu, qualquer movimento se torna quase imperceptível. Graças à minha visão periférica, consigo distinguir uma sombra fraca projetada pela luz da lua.
Ela está próxima.
Acelero o passo.
O medo cresce dentro de mim, mas também desperta uma estranha satisfação. Alguém ainda se lembra de mim.
Para ter certeza de que estou sendo seguido, começo a correr.
Corro durante vários minutos.
Os passos desaparecem.
O silêncio toma conta da noite.
É um silêncio tão absoluto que chega a machucar os ouvidos.
Entro no primeiro beco que encontro e me sento contra uma parede. O suor escorre pela testa e encharca minha camisa. A corrida foi suficiente para me deixar sem fôlego.
Já fiz tanta coisa esta noite...
Mereço descansar.
Então...
TAC!
Uma dor lancinante atravessa meu braço.
Olho para o bíceps.
Um prego está cravado na carne.
Tento arrancá-lo, mas outro passa zunindo ao lado da minha orelha.
Depois outro.
E mais outro.
Os dois últimos atingem a parede atrás de mim, abrindo pequenas rachaduras no concreto envelhecido.
Saio correndo.
Abandono o beco e invado um antigo prédio abandonado.
O cheiro de mofo domina o ambiente.
Há tanta poeira que respirar chega a doer.
Meu braço pulsa sem parar.
No centro do salão existe um velho balcão.
Reviro gavetas à procura de qualquer coisa: gaze, álcool, algum remédio...
Nada.
Droga.
Enquanto continuo procurando, sinto algo frio encostar lentamente nas minhas costas.
A lâmina rasga minha camisa.
— Finalmente encontrei você, seu bastardo.
A voz era grossa, rouca e fanha.
Provavelmente um homem.
Levanto devagar.
— O que você quer?
— Vingança.
Sem pensar, lanço o cotovelo para trás.
O golpe acerta seu abdômen.
Ele perde o ar.
A faca cai no chão.
Antes que consiga se recuperar, apanho a arma e deslizo a lâmina por seu rosto.
O corte atravessa sua testa.
O homem grita.
Então o reconheço.
É um policial.
Ou melhor...
Era.
Depois da morte da esposa e da filha, enlouqueceu.
Eu me lembro perfeitamente daquela noite.
Fui eu quem matou as duas.
Estava bêbado.
Foi divertido.
O sangue da esposa desenhou um arco perfeito no teto da sala.
O da filha percorreu o corredor como um rio vermelho.
Ainda consigo ouvir os últimos sons que saíram de suas gargantas.
O vermelho sempre foi minha cor favorita.
Volto ao presente.
Desferi outro golpe.
Desta vez, profundo.
Rompi uma artéria.
Sei exatamente onde elas ficam.
Não quero que ele morra imediatamente.
Quero que tenha tempo suficiente para me ouvir.
— Você perdeu... de novo.
Ele cospe sangue.
— Aqueles pregos foram uma boa ideia.
Dou uma risada.
— Mas não o bastante.
Abaixo-me ao lado dele.
— Agora você vai reencontrar sua esposa...
Faço uma pausa.
— ...e sua filha.
Cravo a faca em seu pulso.
Quase separo sua mão do braço.
Dou as costas e caminho lentamente até a saída.
Então...
TAC.
TAC.
TAC.
Três impactos.
Olho para baixo.
Três pregos atravessam minha barriga.
O sangue escorre entre meus dedos.
Cuspo um pouco no chão.
E começo a rir.
Não porque venci.
Mas porque, finalmente...
Talvez tudo esteja acabando.
Olho para trás.
O corpo do ex-policial permanece imóvel.
Mesmo morto, suas mãos ainda seguram o disparador de pregos.
Otário.
Vida.
Morte.
No fim...
É só isso que existe.
Com o pouco de força que ainda resta, continuo caminhando.
Respiro com dificuldade.
Cada passo pesa mais do que o anterior.
Mesmo assim...
Continuo seguindo em direção à luz.
Conto revistos em 30 de junho de 2026.