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Bazar das Almas

Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Efésios 6:12

A loja funciona num prédio antigo da cidade velha em Belém do Pará, solitária entre tantos outros prédios antigos abandonados na capital paraense, a loja de antiguidades estava cercada por uma bruma espiral que a torna mais escura e cinzenta durante aquela tarde chuvosa, o bazar se agigantava através da névoa estranha que cobria a cidade velha, bairro antigo de Belém.

01 de novembro de 2019

Madalena entra com alguns de seus amigos no bazar, mas não fazia ideia de como aquele dia acabaria. Enquanto limpava uma quinquilharia qualquer, a acompanhava com um olhar de esgueira conforme ela seguia com seus dois amigos pelo corredor estreito até uma prateleira nos fundos da loja. Como uma cena tão normal poderia levar a tanto horror horas depois.

Maria Madalena Silva, aluna do último ano do ensino médio na melhor escola da cidade, Gentil Bittencourt, morou na capital paraense a vida inteira. Ela não deveria ser ingênua em se aventurar com Marcus Andrade indo aquela loja, as 15h, matando os últimos tempos de aula, ela nunca fizera isso antes, como sei de tudo isso?

Ela é uma visitante assídua deste bazar, mas nunca ofereço nada, deixo ela olhar tudo, mas não vendo nada, absolutamente, nada! Não para ela.

Ela sabe que corre riscos ao se envolver com Marcus Andrade. Mas, às vezes, o romantismo atrapalha o bom senso.

Madalena esperava por um fim de semana perfeito, era o que planejavam ao entrar na loja com Marcus Andrade e anjinho como era chamado o segundo rapaz. Mas ela não podia adivinhar que aqui no bazar tranquilo de suas manhãs de sábado o medo e a dor eram a mercadoria mais vendida.

— Tem certeza de que não se interessaria por algo mais forte? —Anjinho perguntava segurando uma caixinha pequena que eu mesma vendi a ele, mas deixou claro o que queria dizer. Madalena forçou outra risada.

Durante toda a vida, vi homens como ele. Altos, morenos e bonitos, com olhos brilhantes e lábios que se mexiam com suavidade. Ao longo dos meus 30 anos conheci vários anjinhos. Aos 15 anos, teria escrito o nome dele no meu diário. Aos 16, teria beijado ele ardentemente. Aos vinte anos, teria deixado que ele enfiasse a mão onde quisesse. E agora, aos 30, só queria que ele fosse embora e deixasse aquela garota em paz.

— Não, obrigada — disse ela. — Minha mãe me aconselhou a não usar drogas. Ele abriu um sorriso que indicava não ter perdido a deixa.

— Uma adolescente que ainda ouve a mãe em pleno 2019. —Riu Madalena sem graça.

— Malvadinha obediente. — Você deveria ter vindo com uma coleira da mamãezinha. — Ela piscou para ele. Tentando disfarçar o nervosismo.

Observei Marcus colocar o pequeno comprimido na língua e logo depois beijar Madalena, com um profissionalismo que não tinha visto até então num rapaz tão novo.

A porta bateu com a entrada de um bando de garotos da escola estadual, me distraindo por segundos do trio. O Bazar estava ficando bem lotado de fedelhos. Virei de volta para Madalena, mas ela já estava saindo pelo outro corredor com Marcus e o Anjinho, sorriso largo e agora com seus cabelos lisos de índia soltos, ela sempre os mantinha presos num rabo de cavalo, sua pele era muito branca, mas aquele sorriso, parecia que a garota tímida tinha morrido naquela tarde.

Fui até o balcão, precisava fechar a loja, logo cairia a noite, mas uma força me agarrou pela cintura e me puxou. Uma voz sussurrou ao meu ouvido: — Luna... não vá.

— Não vá — repetiu.

Tinha me esquecido da voz, e para quem trabalhava naquele bazar, sabia do preço a pagar se não cumprisse as regras. Madalena era um reflexo do que um dia fui. Somos a mesma pessoa em tempos diferentes.

Ela não pode ter o mesmo destino.

Eu era aquela baixinha, de cabelos ruivos e fartos, olhos verdes de gato e uma pele clara, era linda de morrer como dizia meus amigos, e morri. Adorava o vermelho e sempre estava com uma echarpe vermelha no pescoço. Usava um batom vermelho- -vivo, chamado Fogo Caliente, vermelho era a minha cor registrada até tudo acontecer.

Eu vi tudo acontecer novamente, O cemitério, o túmulo, os garotos. Os jovens não deveriam brincar com isso, cemitério não é lugar de paz e tranquilidade como todos acreditam ser, ninguém quer morrer, por mais dolorida que seja a vida, todos querem uma oportunidade de serem felizes, todos tem essa linda fé que tudo um dia acabará bem, mas nem sempre é assim.

Antes de ser a vendedora no bazar, fui uma garota feliz, e tinha sonhos. A entrar no cemitério meus sonhos foram enterrados por um bando de garotos infernais e alguma droga, o imenso Soledade. Cemitério da Soledade é uma das mais antigas necrópoles do município de Belém. Uma construção enorme e deformada pelo tempo. Suas gárgulas sorriam para todos em noites malditas, parecendo um convite a entrar.

E lá estava eu novamente, por um tempo nada se movia a não ser minhas lembranças, todas àquelas almas e demônios possuindo meu corpo, o tornando um receptáculo maldito, os choros e dores das almas de toda natureza habitavam em mim, teria sido menos doloroso ser possuída por meia dúzia de garotos drogados a ser possuída e escravizada por uma legião de almas e demônios aprisionados dentro do meu ser.

Sabia onde Marcus e anjinho estavam levando Madalena, e sabia por ter sido eu mesma a ter vendido a alma apaixonada. Quando o Anjinho entrou no Bazar, ele não queria realizar um sonho, ele queria conquistar uma garota, mal sabia eu que estava selando meu destino. Vendi uma alma apaixonada, que morreu no século passado e que estava presa em meu corpo. A alma apaixonada só seria liberta num cemitério. Aquilo seria o fim de Madalena, ela seria uma escrava sexual daqueles garotos, achava que anjinho só queria conquistar uma mulher em especial.

Hoje será uma noite maldita, a noite dos finados, a noite onde todas as almas saem de seus túmulos no badalar dos sinos querendo fugir de seus castigos, dia de finados nada mais é do que um salvo induto do inferno e de todos os céus, Madalena não será a próxima Luna.

E lá estavam eles, dentro do cemitério maldito. A luz fraca das velas da noite quase sepultada, em meio a neblina que surgia entre as folhas das arvores como almas moribundas. Com a brisa, vinha o assobio rouco de uma coruja assombrado em algum lugar longe dali. E, então, o silêncio. À espera. A vozes dos garotos dentro do cemitério ecoou firme em minha direção, assustando uma pequena garça que velava o túmulo onde eles agora estavam, é a hora da maldição.

— Ei! — gritei o mais alto que pude. — Não tinha mais tempo.

— Saiam daqui agora seus idiotas!

O olhar de Madalena passou rapidamente por eles, imponente e misterioso, luminoso e profundo, era possível sentir a sede das almas.

— Vamos, vamos, vamos! — gritou Anjinho para Marcus, deixando Madalena nua na tumba.

— Vá para o inferno! — falou Anjinho ao passar por mim.

Olhei para Madalena desesperada, e falei: — Corre! sai daqui agora!

Quando vi um vira-lata desgrenhado ao lado do velho andando em minha direção, ele estava tremendo com uma raiva incontrolável.

— Que diabos você fez? — rosnou.

— Você só precisava se desfazer das almas que habitam em você naquele bazar. Trocar sua paz pelos sonhos idiotas das pessoas, sua paz pela agonia deles.

Minha visão começou a falhar, a voz do velho maldito ficou suave, senti meu coração congelar e minhas veias arderem em chamas, gelo e fogo dominavam meu corpo atormentado, Madalena estava a salvo agora e eu condenada, sabia o preço.

Perdia minha alma, os demônios consumiam meu corpo, assim como há 15 anos atrás, eles ansiavam por aprisionar minha alma e se alimentarem dela, tudo tinha sido adiado por causa do Anjinho da época, nem sei em que momento o sexo aconteceu, estava completamente drogada, mas foi o que me salvou naquele momento.

Maria Madalena me salvou e para tentar salvá-la, entreguei-a para adoção.

O tempo parou, prendi a respiração, então começou, o maldito velho assistia meu fim, meu corpo parecia vidro estilhaçado encima daquele túmulo, sofrendo a mais violenta possessão, ele passou a mão em meu rosto enquanto me contorcia de dor com todas aquelas almas e demônios sugando minha vida.

Senti o pesar nos olhos amaldiçoados daquele padre crescer, fervilhando, sombrio e tóxico, até ele finalmente arrancar meu coração para procurar uma nova vendedora para seu bazar.

LI
Autor Lia Carvalho
Publicado em 28 de setembro de 2021
Categoria Contos