A nova cadela do vizinho está fazendo barulhos estranhos de novo. Já é a 3° vez na madrugada que saio de casa e vou até lá reclamar. Ele sempre aparece com um rosto sereno e diz a mesma coisa:
- Ela está se adaptando ao ambiente.
Sua barba por fazer indica o quão preguiçoso o sujeito é, a casa não aparenta ser tão esquisita quanto seu rosto, mas, por via de dúvidas, eu perguntei.
- Por que não a deixa solta no quintal? Aqui fora ela irá se adaptar mais rápido e me deixará dormir em paz.
Ele, por outro lado, deu uma gargalhada debochada, me fazendo sentir como se minha pergunta fosse um absurdo sem pé nem cabeça. Disse:
- A cadela está prenha, preciso ficar de olho nela, senão, é capaz de devorar o próprio filhote caso eu não a impeça.
Suas palavras, por mais absurdas que fossem, tinham tanta convicção que me fizeram recuar e desistir de discutir com o vizinho, finalizei observando seus olhos escuros:
- Que seja, só dá um jeito nela fechar a porra da boca.
Ele se curvou em forma de respeito e acenou com a cabeça, me informando que era hora de ir para casa. Respirei fundo e funguei ao sentir um odor típico de porões vindo dele, o forte cheiro de fungos misturado com urina mal cheirosa. Nojento.
Acordei assustado com um choro de criança, peguei meus óculos ao lado da cabeceira para me localizar melhor, mas não havia nada dentro do quarto. Calcei minhas pantufas do Mickey Mouse e desci as escadas com cuidado, talvez fossem gatos trepando em cima do telhado. Decidi olhar no quintal, tenho o costume de deixar o lixo guardado em caixas lá trás antes de levá-lo para fora. Entretanto, não encontrei nada. Liguei uma lanterna velha e apontei para o telhado, caminhei ao redor da casa e não havia vestígio nenhum de gatos, nem mesmo uma bola de pelo flutuando.
“Você está ficando louco, Willian, não há gato nenhum no telhado.”
Pensei ao terminar a vistoria na parte externa da casa. Sem saber o que fazer, verifiquei as horas: 04:15 da madrugada logo teria que me preparar para trabalhar. Quando me virei para entrar em casa, ouvi novamente o mesmo choro só que mais baixo, senti um arrepio na espinha ao perceber que o som provavelmente vinha de um bebê vivo.
A casa do lado esquerdo estava completamente destruída por um incêndio acontecido no começo do ano de 2019. O pai e as duas crianças pequenas morreram queimadas. Segundo os bombeiros, a menina mais velha sacrificou a própria vida para salvar a irmãzinha, mas infelizmente ambas morreram carbonizadas pelas chamas. A mãe das crianças não fora localizada, há rumores de que ela causou o incêndio e fugiu com o amante, mas são apenas boatos estúpidos. Apesar de ser uma trágica notícia, tive a chance de ouro em comprar a casa ao lado por metade do preço. Não há outros moradores na rua pois todos fugiram apavorados pela tragédia sem solução, menos o vizinho esquisito.
Restava apenas uma casa de suspeita, andei em direção a porta da frente mas me surpreendi ao vê-la entreaberta, talvez aquela fosse minha melhor chance para bisbilhotar a casa do vizinho esquisito sem ser chamado de “fofoqueiro”.
Sem nada a perder, entrei pela porta da frente.
O choro da criança vinha do porão. Pouco me importei com o barulho desagradável, estava mais interessado em verificar o quão ridículo era o interior do imóvel. As paredes borradas com manchas escuras davam a impressão de que a casa era menor, o piso forrado com jornais e revistas pareciam ocultar alguma coisa.
“Péssimo gosto para decoração.”
Pensei. De fato, a aparência da casa era tão deplorável quanto a face do dono. Não vi a presença de nenhum tipo de porta retrato ou até mesmo de cartas, sem objetos pessoais, apenas mobílias antigas e plastificadas.
Com a cabeça nas nuvens, sem querer chutei algo que fez um barulho alto, parecia ser uma lata de algum produto químico. Fui rapidamente em direção à saída, não queria ser enxotado para for a ou receber uma intimação por invasão à domicílio.
No final do corredor vi a porta fechar por uma silhueta robusta. Sem saber para onde correr, me escondi debaixo de uma mesinha estreita na sala de estar. Senti um leve arrependimento por ter invadido o lugar.
A figura que trancou a porta estava nua, me assustei ao ver meu vizinho usando uma coleira de espinhos no lugar de um colar. Se não bastasse somente isso, ele segurava em sua mão direita uma guia presa a uma coleira de metal pesada, mas a cadela em questão não era um animal, era uma pessoa.
Prendi o grito sem querer acreditar em meus próprios olhos, a mulher aparentava estar extremamente magra e com hematomas por todo seu corpo, sua cabeça contava com poucos fios de cabelo. Nunca havia visto algo tão diabólico em toda minha vida. A parte de cima do rosto dela parecia coberto por uma espécie de máscara canina bizarra de látex, já a sua língua deslizava para fora da boca sem ter onde ficar, afinal, ela não tinha mais dentes. Um rastro de baba era deixado a cada movimento deles, o corpo exausto da mulher a fazia tropeçar em seus próprios braços. O silêncio inquietante se rompeu quando o homem intimidador disse:
- O que será que fez esse barulho, minha querida?
Completamente muda, ela parecia tentar gritar. O pouco som que saía de sua boca junto ao forte impacto da coleira de metal fazia ela se engasgar com a própria saliva. O ato de se engasgar era de fato a única coisa normal diante de tanta anormalidade, seus grunhidos de agonia atiçaram em minha mente lembranças. Aquele som não me era estranho. Pensei:
“Esses malditos grunhidos!!!! Sempre pensei que fossem causados por um cachorro infeliz, e o filho da puta ainda deu a desculpa de que a cadela estava doente. Mas não era uma cadela, e sim A PORRA DE UMA MULHER!”
A seriedade da situação embrulhou meu estômago, não estava diante de um louco qualquer, mas de um horrendo maníaco psicopata. Sua natureza maligna era refletida nos olhos da vítima, que era forçada a agir como um animal. Não havia dúvidas de que aquilo era apenas uma amostra de todos os podres ocultos por essa casa. Não tenho como sair daqui.
“Terei que esperar eles saírem da sala, irei procurar a chave e correr para longe daqui. Preciso urgentemente ligar para a delegacia local. Ai, porra, eu espero que ele saia logo. Que merda ele tá fazendo??”
O vizinho segurava fortemente a corrente enquanto observava algo suspeito na janela da sala de estar, seu rosto concentrado era assustadoramente bizarro. Senti um gelo na espinha quando avistei minha casa no reflexo da janela.
“Ele sempre esteve me vigiando, não, não, não ,não! A MINHA CASA NÃO!!”
O louco nu permaneceu parado por um bom tempo em frente a janela. Meu traseiro doía junto com a coluna por estar em uma posição nada favorável, não via a hora de sair desse lugar.
Cochilei por alguns segundos e o vizinho já não estava mais na sala. Foi tão rápido quanto o cair de uma gota, mas agora não faço ideia do paradeiro dele. Minha única fonte de luz, que possibilitava a mim um senso de localização, parecia escurecer cada vez mais. A lua brevemente irá sumir. Pretendo sumir junto com ela.
Pois então decidi me arriscar pela janela. A porta da frente com certeza estaria trancada, a não ser que por algum milagre ele tenha saído para dar uma volta no bairro. Segui me arrastando pelo chão, iria fazer menos barulho e eu não precisaria me preocupar com qualquer infortúnio. No momento em que senti tocar a parede, me levantei com muita cautela, evitando fazer barulho. Em frente à janela, me via em liberdade, só precisava fazer um pequeno esforço para abrir o pino da janela.
Click.
Fez um barulho e aquela era a minha chance de sair. Puxei-a para cima, mas a janela não se movia. Minhas mãos tremiam ao fazer tamanho esforço, mas de nada adiantava, pois havia uma trava de segurança me impedindo de abri-la. Talvez minha alma tenha saído do corpo naquele momento, não me lembro de como consegui me esconder atrás da cortina, ou quando o vizinho correu loucamente até a sala carregando um machado pesado nas mãos. O verdadeiro pesadelo adentrou em meus pensamentos, não havia sequer um lugar em meu corpo que não estava coberto por suor, logo eu estaria encardido não só pelo suor, mas também por medo.
“Eu vou morrer aqui, não acredito que tem uma trava de segurança. QUE PESADELO! Como ele me ouviu tentar abrir a janela?!”
Não havia uma explicação lógica para mim, porque nada fazia sentido. Pude observar o homem louco através de falhas na costura da cortina, dessa vez ele usava uma máscara de látex preta em seu rosto. A parte metálica do machado se arrastava pelo chão, os sons dos rangidos amplificavam meu desespero, ele estava procurando o invasor da sua casa. Além de procurar o intruso, um diferente som se intensificou a cada passo dado. Era um assobio.
Resisti a tentação de dar uma cotovelada na janela para quebrá-la, eu estaria apenas facilitando o trabalho dele afinal, não há ninguém para me ajudar em um raio de 40km. Não havia o que fazer, apenas esperar e torcer com que ele não perceba minha presença. De repente ouço sua voz rouca ao parar de assobiar, uma breve corrente de ar balançou a cortina que escondia meu corpo paralisado. Mas antes de pensar em reagir, ouço novamente ele dizer palavras confusas:
- Vá, minha querida. Não tente fazer nenhuma gracinha ou terei que pegar as correntes novamente.
A mulher desnorteada apareceu com seu corpo desnutrido na porta da sala de estar, ela se agarrava as laterais da parede na tentativa de se levantar sem cair. Quando finalmente conseguiu, vejo a cena mais bizarra em toda a minha vida: com uma de suas mãos praticamente esquelética, ela retira algo de dentro de sua vagina. Pela falta de claridade, não entendi qual objeto era, mas me assustei ao ver suas pernas correrem freneticamente para cima de seu agressor. O som do impacto vibrou junto ao piso de madeira. Tive a chance perfeita de sair daquela sala sem ser descoberto, mas a infeliz curiosidade me fez olhar para trás. O maníaco tinha um canivete atravessado em seu ombro direito, e em suas mãos estava a cabeça da pobre mulher, sendo arremessada diversas vezes contra a parede. Ela fracassou na sua tentativa de matar o agressor, provavelmente não tinha forças para o atingir em uma área fatal. Como resultado, seu rosto foi completamente destruído por ele.
Não era hora de sentir pavor, mas a imagem do rosto desfigurado da mulher não saía da minha cabeça. Minhas mãos tremiam ao forçar a maçaneta da porta principal. Enquanto isso, no cômodo ao lado, o maníaco finalizou sua brutalidade e agora arrastava pelo braço o corpo da mulher.
“O QUE VOU FAZER?? NÃO TEM OUTRA SAÍDA?? MEU DEUS EU O OUÇO ARRASTAR A MULHER, AQUELA POBRE MULHER ESTÁ MORTA!”
Pensei.
No decorrer de tanta adrenalina, me lembrei de um caminho alternativo logo quando adentrei a casa. Se não fosse pelo pânico, ainda dava para ouvir um fraco choro ao fundo. Nas profundezas da escuridão, havia uma porta no final do corredor, ela levava até o porão.
Os degraus eram estreitos demais, não havia um corrimão sequer para usar de apoio na descida. Se não fosse por meu forte senso de equilíbrio, meu corpo já teria me autosabotado e eu estaria rolando escadaria abaixo e, possivelmente, morreria pelo impacto. Por um milagre, todo o sufoco já havia passado, mas pude ouvir os passos pesados do maníaco enquanto arrastava o corpo da mulher no andar de cima. Ele estava se aproximando cada vez mais. Ergui meus braços procurando algum interruptor nas paredes frias, quando o encontrei, a luz mal acendia, parecia estar fraca ou quase queimando. A pouca claridade me enfraqueceu a ponto de tropeçar em algo grosso no chão. As correntes que prendiam a mulher se agarraram em meus pés no processo.
- Porra, porra. Não, não, não, não. Me solta!
Falei baixinho ao tentar afastar as correntes pesadas de meus pés. Na tentativa de puxar uma das correntes, senti meu corpo ser jogado para trás com o impulso. Era de se esperar o impacto com o chão de concreto, porém senti algo macio e relativamente pequeno encostar em minhas costas. Pensei seriamente se valia a pena descobrir o que causara aquilo. No entanto, me virei.
A luz fraca não me impediu de vê-lo: um pequeno e frágil feto de talvez uns 50 centímetros largado no chão frio. Ele exibia uma coloração roxa na pele, também parecia não respirar. Ao observar mais perto, pude entender que o feto prematuro faleceu em decorrência da falta de oxigênio no cérebro. Não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo.
Lágrimas escorriam de meu rosto, não havia nada que eu pudesse fazer por ele ou até mesmo por mim. O maníaco descia as escadas lentamente assobiando a canção de sempre. Mas, dessa vez, seu assobio transmitia uma sensação estranha, como se meu próprio corpo pudesse sentir o trágico fim que estava por vir. As correntes se enroscavam cada vez mais nas minhas pernas, sentia dores nas articulações e o odor repugnante do local invadia minhas narinas, uma mistura de dejetos com sangue humano impregnado a cada metro quadrado do porão.
Os olhos escuros do maníaco se cruzaram com os meus, que estavam atordoados pelo pânico e medo de morrer. Sem qualquer tipo de objeto ao meu redor, usei do meu bom e velho truque, implorando por misericórdia.
- POR FAVOR, ME DEIXE IR!! E-EU VIM PEDIR POR UMA XÍ-XÍCARA DE AÇÚCAR, MAS ACABEI ME PERDENDO DENTRO DA CASA. ME PERDOA!!!
O homem soltou o corpo da mulher e sorriu ao ver a minha súplica por misericórdia, parecia se divertir com todo aquele alvoroço. Ele levantou seu braço e eu logo me defendi protegendo o rosto de um possível golpe, mas nada senti. Ele estava retirando sua máscara de látex, mas por algum motivo algo saía junto ao tecido brilhoso do acessório pecualir, era algum tipo de curativo. Ele foi puxando aquela coisa até não existir mais, e foi revelando seu verdadeiro rosto. As chamas do passado criaram cicatrizes incuráveis, as queimaduras eram tão feias que minhas pálpebras recaíam só de olhar. Um verdadeiro show de horrores parado me encarando.
Um tapa doeria menos que essa revelação. No fim, a resposta que tantos cobiçavam permanecia trancafiada em um porão sujo, acorrentada, sem qualquer chance de fuga. Ela, a mulher que perdeu sua família para um incêndio “sem solução”e foi tão julgada por um crime que nunca cometeu. Mesmo em seus últimos momentos de vida, teve que conviver ao lado de um assassino. O seu vizinho.
A luz queimou, o breu se espalhou como uma gota de veneno em um copo d’água. O vizinho/maníaco/assassino disse em bom tom o veredito final:
- Olha, minha querida. Encontramos quem invadiu a nossa casa, mas esse vira-lata entrou no território errado.
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Uma casa em chamas fora localizada por um grupo de turistas em uma região afastada da cidade. Estima-se que o incêndio durou cerca de 10 horas até ser notificado. Não foram encontrado vítimas ou qualquer outra evidência de um crime cometido no local. No entanto, o dono da moradia de 2 andares, Willian Gomez, se encontra desaparecido.