Vocês ainda não me conhecem bem, ainda! Claro que meu nome tem que ficar escondido por força do que eu irei contar. Histórias sobre tempos remotos, dos habitantes dessa terra por muitos séculos, que hoje se encontram em outra dimensão, os Antigos. Que aparecem em muitos livros sagrados com nomes distintos, apesar disso sempre trazem uma linha de Ariane que mostra que são, todos, os mesmo que hoje foram banidos para outra dimensão.
Elementos que deveriam ser desconhecidos para a maioria de vocês. Contudo, figuram em lendas, mitos e no folclore de povos das mais diferentes regiões. Quem eu sou? Podem me chamar de narrador, de qual gênero literário, é algo que deixo para vocês decidirem.
No entanto, como os filhos de Adão têm predileção para nomear todas as coisas, ficando complexo para eles viverem em um mundo onde não se possam dar nomenclaturas as coisas, darei a vocês um nome que possam me titular: Khalil Omar Ali. Sim, vim das terras dos Califas, Sultões e Paxás. Já me sentei aos pés de sábios Xeques e servi nos domicílios de Vizires, Marajás e Rajás. Assim, se preferirem, podem me chamar de Khalil Omar Ali; a seu dispor.
A história que tenho para contar é essa: o navio era de quinta categoria. O mesmo poderia ser dito das acomodações que nos deram. Terríveis para se dizer no mínimo. Fomos todos amontoados em um porão fétido. O qual possuía um cheiro de necrópoles quando o sol chega ao seu ápice. Sem a luz solar, sem nada que nos dissesse como estava o firmamento; o que acentuava a falta de alegria nos semblantes dos passageiros. Alguns poderão dizer que para um homem de espírito não pode nem pensar que exista a palavra dificuldade. Todavia, quando se vendeu a primogenitura por uma sopa de lentilhas; o espírito foi junto com a negociata.
Passageiros que queriam conquistar o Novo Mundo. Como todos os estrangeiros em terra estranha não traziam dinheiro para uma viagem confortável. Fomos lançados em um destino indiscreto e sórdido. Apesar disso, mantínhamos a esperança de dias melhores, grandes esperanças. Na verdade, pelo menos os otimistas, no entanto todos sabemos que um otimista nada mais é que uma pessoa má informada.
O porão não era para seres humanos, mas para ratos, o que na verdade tinha em número abundante. A circunstância não era pior graças a um bichano que vivia no navio, exatamente no porão onde passamos toda a travessia, fiquei admirado de como um gatinho magro podia dar conta de tantas ratazanas! Óbvio que os passageiros achavam que isso não era problema: o estado bucólico do gato. Eu, porém, cria que não condizia com os fatos. Para um homem complicado, e eu sou um deles, tudo é uma nova complicação. Era difícil de acreditar que um gatinho daqueles pudesse dar conta de tais roedores. Não obstante, com o tempo eu me rendi aos que os outros passageiros achavam; nada é tão difícil que, à força de tentativas, não tenha resolução. Minha resolução foi, crer.
Os ratos iam aparecendo com os pescoços quebrados e secos, algo que no início achamos extraordinário, porém depois fomos colocando de lado todos esses pensamentos singulares. Tanto quanto o bizarro passageiro que ninguém sabia quem era. Branco, chegando quase a cor de cera, vestindo sempre um casaco preto. De dia ficava em um transe enigmático em um canto nas sombras do porão e, a noite, saia para varar pelos corredores e convés da embarcação. Não sabíamos como aquele lugar não o incomodava; é uma grande habilidade saber esconder a própria habilidade. Ele sabia como fazer tal façanha. Camuflar de todos essa aptidão de não ser aborrecido por aquele lugar abjeto.
Não sei o seu nome, nunca soube, um dia eu o questionei sobre isso; entretanto ele simplesmente me ignorou. Sua presença me dava asco, não só a mim, a todos. É um fato mais do que conhecido: todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a essência. Eu, como os outros, não queríamos saber do cerne daquele viajante, pois, se o exterior dava repugnância, imagine as profundezas.
Um dia o gatinho foi trazido a nossa presença pelas mãos de uma atônita jovem que dizia que ele tinha morrido! Ficamos traumatizados. O pescoço tinha sido quebrado e estava totalmente seco!
Quatro pequenas incisões tinham sido feito em sua jugular. Algo realmente medonho. Enquanto discutíamos o que poderia ter ocorrido, percebi que das trevas, o obscuro passageiro observava tudo com um sorriso irônico e maléfico. Um riso suspeito, cínico, medonho e quase imperceptível. Desnecessário dizer que fiquei o resto da viajem o mais longe possível dele e, no dia, em que estava no convés e via a terra firme fiquei aliviado com o fim da jornada.
Num relance notei, em um dos corredores, abrigado nas trevas, o misterioso passageiro olhando-a com o mesmo sorriso jocoso. Fitando-a com o mesmo rosto de desejo, com o aspecto que sempre olhava para o gatinho. Quando o barco aportou achei por bom tom fugir daquela insólita figura. Para sempre e sem olhar para trás.