Olá.
Se você está lendo este relato, significa que meu último pedido foi atendido.
Os médicos prometeram publicar esta história caso eu não sobrevivesse. Disseram que escrever poderia me ajudar a aceitar o que estava acontecendo.
Talvez eles estivessem certos.
Ou talvez já seja tarde demais.
Quero contar a vocês sobre uma entidade que poucas pessoas conhecem. Um ser que caminha entre nós sem chamar atenção, assumindo rostos que já existem. Alguns o chamam de Doppelgänger.
Até pouco tempo atrás eu acreditava que tudo isso fosse apenas folclore.
Hoje, sei que não era.
Tenho vinte e dois anos, e tudo começou exatamente no dia do meu último aniversário.
Eu estava no segundo andar da minha casa esperando meus amigos chegarem para irmos a uma pizzaria quando ouvi a porta da frente bater.
Desci correndo.
A porta estava destrancada.
Abri rapidamente e vi apenas o carro dos meus amigos dobrando a esquina.
Confuso, liguei imediatamente.
Quem atendeu foi Marcelo.
— Parabéns... Você conseguiu estragar o próprio aniversário.
— Do que você está falando?
— Você abriu a porta, mandou todo mundo ir embora e nos xingou.
Senti um frio percorrer minha espinha.
— Marcelo... eu nem saí do segundo andar.
Ele desligou.
Mais tarde todos aceitaram minhas desculpas, acreditando que eu apenas tivesse feito uma brincadeira de mau gosto.
Mas eu sabia que não havia aberto aquela porta.
Alguém vivendo minha vida
Nas semanas seguintes tudo começou a piorar.
Mensagens ofensivas eram enviadas do meu celular.
Minha mãe dizia que eu havia ido almoçar em sua casa sem dirigir uma única palavra.
Meu chefe perguntou por que eu faltava ao trabalho sem avisar.
Minha namorada terminou comigo depois de me ver abraçado com outra mulher em um shopping.
Eu nunca estive naquele shopping.
Mostraram até fotografias.
Era eu.
Ou alguém exatamente igual a mim.
Comecei a pesquisar obsessivamente.
Passei noites lendo relatos antigos, fóruns esquecidos e documentos traduzidos de várias línguas.
Um nome aparecia repetidas vezes.
Doppelgänger.
Uma criatura capaz de assumir a aparência de qualquer pessoa.
Alguns diziam que vê-lo significava má sorte.
Outros afirmavam que era um aviso de morte.
Ninguém explicava como escapar.
A primeira vez que o vi
Meses depois, voltando da casa de um amigo, parei na esquina da minha rua.
Ali estava eu.
Não havia dúvida.
Era meu rosto.
Meu corpo.
Minha voz.
Mas havia algo errado.
Ele usava uma roupa azul de hospital.
Caminhava lentamente.
Arrastava uma das pernas.
Parecia completamente desorientado.
Fiquei imóvel.
Quando ele ergueu a cabeça, nossos olhos se encontraram.
Seus olhos eram totalmente brancos.
Sem pupilas.
Sem vida.
Então...
Ele sorriu.
E desapareceu.
As aparições
Depois daquele dia passei a vê-lo com frequência.
Cada vez mais perto.
Cada vez mais parecido comigo.
Na segunda aparição, ele estava dentro da minha casa.
Vestia uma das minhas camisetas.
Seu cabelo estava maior.
A barba começava a crescer.
Andava pelos cômodos cambaleando, como alguém extremamente doente.
Quando caiu no chão...
Simplesmente desapareceu.
Na terceira vez ele surgiu refletido no espelho do banheiro.
Estava muito mais magro.
O rosto afundado.
Os olhos fundos.
Pisquei.
O espelho voltou ao normal.
Foi a primeira vez que pensei seriamente em me matar.
A resposta que eu não queria
Minha vida desmoronava.
Perdi o emprego.
Minhas contas começaram a desaparecer.
Cartões foram cancelados.
Senhas alteradas.
Ninguém acreditava em mim.
Passei por psicólogos.
Psiquiatras.
Neurologistas.
Todos diziam exatamente a mesma coisa.
— Você está saudável.
Até que uma manhã desmaiei.
Acordei no hospital.
O médico segurava alguns exames.
— Há quanto tempo o senhor sente tonturas?
— Alguns meses.
— E alucinações?
Meu coração parou.
Ele colocou a tomografia sobre a mesa iluminada.
Havia uma enorme massa escura ocupando parte do meu cérebro.
— É um tumor.
— Existe tratamento?
O silêncio respondeu antes dele.
Agora eu entendo
Enquanto escrevo estas últimas linhas, consigo vê-lo novamente.
Ele está parado ao lado da janela.
Não usa mais a roupa de hospital.
Está usando um terno preto.
O mesmo que meu pai comprou para que eu usasse em ocasiões importantes.
Agora percebo algo que passei meses sem entender.
Ele nunca tentou roubar minha vida.
Nunca tentou ser eu.
Ele apenas aparecia alguns dias... ou talvez semanas... à minha frente.
Cada vez que eu o via...
Ele estava exatamente como eu ficaria depois.
Mais cansado.
Mais magro.
Mais próximo do fim.
Estou ouvindo passos no corredor.
Acho que meus pais chegaram.
Minha mãe está chorando.
Não consigo ouvir o que os médicos dizem.
O homem de terno continua olhando para mim.
Ele sorri.
Depois estende lentamente a mão.
Acho...
Acho que finalmente chegou a minha vez de segui-lo.
Conto revisado em 30 de junho de 2026.