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O Episódio Perdido da Docinha - As Meninas Super Poderosas

Há alguns anos fui convidada para jantar na casa de um amigo que era sobrinho de Craig McCracken, criador de As Meninas Superpoderosas. A reunião estava bastante agradável e fiquei surpresa ao descobrir que o próprio McCracken também era um dos convidados.

Como praticamente todas as garotas da minha idade, eu era completamente apaixonada pelo desenho. Sempre me sentava em frente à televisão para assistir a cada episódio e brigava com meus irmãos mais novos se eles faziam barulho durante os comerciais.

Talvez por ser uma adolescente um pouco mal-humorada, minha personagem favorita sempre foi a Docinho. Eu adorava seu sarcasmo, seu jeito impulsivo e sua personalidade forte.

Quando finalmente conheci o Sr. McCracken, contei o quanto admirava seu trabalho e disse que era uma honra conhecê-lo. No entanto, ele parecia distante. Respondia de forma vaga e apressada, como se sua mente estivesse em outro lugar.

Pensei que aquilo fosse normal. Afinal, ele provavelmente encontrava fãs o tempo todo e devia estar cansado desse tipo de abordagem.

Resolvi deixá-lo em paz.

Algum tempo depois, percebi que ele saiu da festa às pressas e acabou esquecendo um pequeno envelope sobre uma cadeira.

Dentro havia apenas um CD.

Olhei discretamente ao redor antes de pegá-lo. Imaginei que pudesse conter algum episódio inédito ou um projeto ainda não lançado.

Quando a festa terminou, fui direto para casa.

Minha curiosidade era enorme.

Com as mãos trêmulas, retirei o disco do envelope.

Na superfície dele havia apenas uma inscrição escrita com caneta permanente:

"Docinho.avi"

Meu coração disparou.

Docinho sempre havia sido minha personagem favorita, e pensei que tivesse encontrado um episódio jamais exibido na televisão.

Sem perder tempo, coloquei o CD no aparelho de DVD.

O vídeo começou imediatamente.

Não havia abertura.

Não havia créditos.

Apenas começou.

Logo nos primeiros segundos percebi que havia algo errado.

As cores pareciam desbotadas, próximas de um tom sépia. A casa das meninas estava completamente diferente. As janelas encontravam-se vedadas, as paredes pareciam envelhecidas e sujas, e pequenas marcas avermelhadas subiam pela fachada até a altura das janelas do segundo andar.

Confusa, continuei assistindo.

A câmera atravessou lentamente a fachada da casa e revelou um ambiente ainda mais perturbador.

O Professor estava sentado no chão, chorando desesperadamente.

Então ele levantou a cabeça.

Seus olhos eram assustadoramente realistas, muito diferentes do estilo de animação do desenho.

Ele olhava diretamente para a câmera.

Ou... para mim.

Com a voz embargada, começou a gritar:

— Docinho... o que você fez? O que você fez com suas irmãs? Por quê?... POR QUÊ?... POR QUÊ?!

Era o desespero de alguém que havia perdido tudo.

Meu coração apertou.

Ao fundo da cena era possível ver os corpos de Lindinha e Florzinha.

As duas estavam completamente mutiladas.

A imagem era perturbadora demais para se parecer com qualquer episódio do desenho.

Senti um forte embrulho no estômago.

Mesmo assim, não consegui desviar os olhos da tela.

A cena mudou novamente.

Agora mostrava Docinho.

Seus olhos possuíam o mesmo realismo perturbador do Professor.

Seu uniforme estava coberto por manchas de sangue.

Ela permaneceu imóvel durante alguns segundos, olhando para o chão.

Então levantou lentamente a cabeça.

Um sorriso torto surgiu em seu rosto.

Logo depois, uma gargalhada enlouquecida ecoou pela sala.

— Você realmente achava que isso nunca iria acontecer, Professor?

Ela falava com desprezo.

— Tenho certeza de que todos aqueles seus adoráveis fãs também acreditavam nisso...

Ao pronunciar as palavras "adoráveis fãs", sua voz tornou-se ainda mais agressiva.

— Elas eram irritantes... Sempre felizes... Sempre recebendo carinho... Sempre perfeitas... Eu odiava tudo isso. Durante anos suportei aquela farsa... Mas acabou, Professor. Acabou!

O Professor continuava chorando.

Seu desespero aumentava a cada segundo.

De repente, uma faixa de luz esverdeada atravessou rapidamente a tela.

No instante seguinte, a cabeça do Professor surgiu voando em direção à câmera.

Ela parou a poucos centímetros da tela.

Os olhos permaneceram fixos em mim.

Por alguns intermináveis segundos.

Então tudo ficou preto.

Pensei que o vídeo tivesse terminado.

Levantei-me para desligar a televisão.

Foi nesse momento que ouvi gritos.

Depois, uma canção.

Os gritos cessaram.

Apenas a voz de Docinho permaneceu.

Ela cantava lentamente uma melodia infantil:

— Durmam, meus bebezinhos... Fiquem bem quietinhas... Mamãe vai matar vocês... Depois vai queimá-las... E, se o fogo não consumir seus corpos... Mamãe vai enterrá-las debaixo dos matos...

As palavras eram horríveis.

Mas nada era tão perturbador quanto a forma doce com que ela cantava.

Até hoje, muitos anos depois, ainda sonho com aquela melodia...

E com os olhos do Professor me observando através da tela.

JC
Autor JC Botelho
Publicado em 18 de outubro de 2016
Categoria Creepypasta