Mãos pálidas e esqueléticas abrem pesadas cortinas de veludo verde. Através dos vidros envelhecidos de uma grande janela e da poeira no ar, a tímida luz do sol. As mesmas mãos, ao final de um braço esbelto e coberto por uma manga escura, limpam o topo de uma envelhecida lareira de mármore, que reflete a decadência de uma era opulenta, já esquecida. Acima da lareira, uma grande paisagem de óleo sobre tela: um tigre devorando um faisão, estilo século XVII. A presa e o caçador.
Uma aranha de patas finas, longas e escuras caminha por cima de livros empoeirados. As mesmas mãos pálidas abraçam a aranha e a levam para uma jarra de vidro. Olhos escuros, emoldurados por grandes cílios, observam o animal. Lábios finos sorriem. O rosto jovial de Laci observa a aranha tentando escapar, sem sucesso.
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O sol passa pelas folhas de uma grande árvore. No meio do capim, Laci come um pêssego, deixando escorrer néctar pelos cantos da boca.
Às margens de um grande lago, o vestido flutua ao redor do corpo alto e esguio de Laci, que joga pequenos pedaços de pão para alguns cisnes. O sol reflete na superfície e em seu cabelo loiro, trazendo um aspecto angelical para a jovem, fazendo seu sorriso despreocupado brilhar.
Um majestoso pavão branco eriça as penas numa dança vaidosa em meio a pétalas brancas que caem pelo ar. Laci solta risos de júbilo enquanto alimenta os pavões com as pétalas, que tira de um grande saco de estopa. O viveiro ao seu redor é adornado por arbustos ornamentais e escuros, que contrastam com o pálido tom dos animais. O riso musical de Laci é interrompido por um brusco grito masculino.
— Laci! Tá na hora!
Protegendo o rosto agora sério do sol, Laci encara um grande casarão estilo colonial, imponente em meio a arbustos, flores e árvores idílicas.
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A jovem, agora com um pano segurando os cabelos para trás, está curvada sob o peito de um velho homem - cabelo salpicado e esparso, rosto carcomido pelos 70 anos virado para o lado oposto. Laci move-se para trás e o peito do homem revela um grotesco machucado, bem no esterno. A ferida, do tamanho de um palmo, tem as bordas avermelhadas e estufadas, cheias de bolhas molhadas, que vão abrindo-se à medida que se aproximam do centro do machucado. Ali, um misto de carne com pus palpita à luz do dia, quase num ritmo cardíaco. A respiração do homem é um pouco difícil, ruidosa, e seu nariz enrugado denota a presença de um fedor orgânico no ar.
Laci joga numa bacia as toalhas brancas manchadas de sangue e pega outra bacia, contendo um emplastro verde musgo. Ela passa a pasta botânica na ferida do homem, com a mão nua. O rosto dele se contorce de dor com o toque. O rosto dela também, mas com um deleite inesperado.
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Um úmido e encardido pano vai e vem, encharcando o chão de madeira. Laci agora lava o chão, secando o suor da testa. Respirando fundo, ela olha para o lado - um grande corredor, com velas derretidas em candelabros enferrujados. Ao fundo, quase no escuro, uma cômoda bloqueia o acesso a uma porta. A única porta do corredor.
TUM TUM TUM. Sons pesados de botas ecoam pelo casarão. Laci presta atenção no som, cada vez mais perto. TUM TUM TUM TUM. Uma brisa acaricia sua bochecha - é uma pena branca. Ela olha para cima e vê, a centímetros do seu rosto, um bico escuro. Depois uma pequena cabeça branca. Depois, o corpo desfalecido de um cisne. Por fim, o velho homem, rosto escurecido pelo contraluz, que segura o cisne morto no braço como um infante sonolento.
— Faz ele com alecrim e maçã pra hoje.
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Laci encara o cisne montado em cima de uma travessa de ferro em cima da mesa de jantar. Com o rosto duro, ela funga. O homem senta à mesa, pigarreia e entrega seu prato para ela. Laci começa a servir o homem, cortando a carne do cisne. Enquanto ela olha para o rosto do animal, percebe que um líquido escuro parece escorrer dos olhos negros do bicho.
Ela encara o prato do velho. Continua servindo o prato dele - batata, cenoura, arroz.
— Prova pra eu ver.
Laci obedece e come pequenas porções da comida. O velho a observa com os olhos amarelados atentos. Satisfeito, pega o prato para si e come. Antes de beber o vinho escuro no copo, entrega para Laci novamente. Ela engole suas batatas e toma um gole.
— Ó. Sem veneno.
O velho pega o copo e toma tudo de uma vez, deixando gotas escuras escorrer pela barba grisalha.
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Neblina noturna cerca o casarão. Sons dos pavões ecoam pelo escuro, meio urgentes, meio ameaçadores. Laci está novamente ajeitando o grande machucado do homem, agora deitado numa cama de lençóis brancos. Ela murmura uma música enquanto cobre a ferida com o emplastro verde. O homem retorce o rosto num misto de dor, repugnância e irritação.
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Os olhos grandes de novilha de Laci reluzem à ínfima luz do viveiro de pavões. Sua longa camisola branca combina com a plumagem dos pássaros ao redor de si. Ela encara um pavão enquanto faz uma chuvinha de grãos em cima da cabeça dele. O animal placidamente bica alguns grãos.
— Ô Duque. Tu é lindo, sabia?
Um som sussurrante e escorregadio leva a atenção da jovem para a grama ao lado de Duque, o pavão. Uma cobra totalmente preta passa por ali, escamas reluzentes.
Laci sorri para Duque. Num bote certeiro, Laci pega a cobra com as próprias mãos.
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É outro dia. Novamente cortinas de veludo verde são abertas. Um balcão cheio de fotografias antigas, pássaros empalhados e livros carcomidos é espanado.
Laci varre o grande corredor de madeira. No chão, outra aranha, encorpada e com detalhes vermelho-vivo. A jovem pega o bicho na mão e o observa carinhosamente. Enquanto desliza a aranha para dentro de um pote de vidro, observa novamente a porta no fim do corredor, atrás da cômoda.
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Uma porta de madeira escura dentro de um quarto igualmente escuro, apenas iluminado por acidentais nesgas de sol. O som seco de um móvel sendo arrastado do lado de fora. De supetão, a porta abre. Em pé no meio da luz forte que invade o cômodo, Laci.
A jovem abre as janelas - o sol banha o quarto extremamente empoeirado, mas que ainda abriga imponência e elegância de anos antes, quando era ocupado. Deixando um traço pelo pó, Laci passa a mão pela penteadeira cheia de vidros de perfumes, cosméticos antigos, porta-joias. O reflexo de um pequeno espelho de metal, com as bordas escurecidas pelo tempo, revelam o belo reflexo de Laci, que penteia o longo cabelo loiro e liso com uma escova de prata.
Em frente a um grande e antigo espelho cheio de manchas escuras, Laci rodopia em um vestido longo, de tecido bordô, claramente um tamanho maior que o dela. Prova outro vestido, depois outro. Os tecidos acumulam-se em cima da grande cama de casal empoeirada. O momento de Laci é interrompido pelo barulho de uma porta batendo ao longe.
Laci espia pela porta em direção ao corredor - nada. Ainda vestindo um longo vestido azul marinho, com um decote modesto e babados suaves nas mangas, Laci fecha a porta \"proibida\" e arrasta a pesada cômoda de volta ao seu lugar.
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É noite. Os gritos noturnos dos pavões são quase ameaçadores, como se alertassem para algo que se aproxima na escuridão. Laci, ainda vestindo o vestido azul marinho que claramente não é seu, passa o emplastro botânico no peito aberto do velho com muita calma, totalmente consciente das apertadas de olho cheias de agonia dele. A cada pressão feita pelo dedo dela ao longo da carne viva, uma careta cheia de agonia. O coração do homem bate logo abaixo da carne retorcida, iluminada pela luz bruxuleante de velas. E Laci sabe disso, observando o movimento rítmico com curiosidade.
Ela finalmente vira-se para ir em direção à cozinha, derrubando diversas garrafas de vidro com um ruído estridente e repentino.
— Silêncio, Laci. Silêncio!
A jovem fita o homem, que hiperventila em reação ao emplastro dolorido.
— De noite não tem silêncio aqui, tu sabe. Ó os grito dos pavão.
— Mas é tu que eu tô dizendo pra fazer silêncio. Os grito deles eu aguento.
Laci lança um olhar venenoso em direção ao velho e segue seu rumo até a cozinha.
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O homem mastiga ruidosamente. Laci bebe um gole d\