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Até onde sua curiosidade pode lhe levar?

A noite sempre foi o cenário perfeito para acontecimentos inexplicáveis.

Todas as noites, antes de dormir, sinto uma presença me observando das sombras. Muitas vezes permaneço parado, encarando a escuridão por longos minutos, tentando convencer a mim mesmo de que não há ninguém ali.

Essa sensação se repete sempre que estou sozinho em casa.

Certa noite, eu estava no andar superior observando a rua pela janela.

Tudo permanecia em absoluto silêncio. Apenas os postes iluminavam a calçada deserta.

Foi então que vi uma figura feminina caminhando lentamente.

Ela usava roupas negras e carregava um pequeno jarro que refletia a luz dos postes de maneira incomum.

Continuei acompanhando seus movimentos.

Alguns metros adiante havia uma encruzilhada, onde quatro ruas se encontravam.

Quando a mulher chegou até aquele ponto, algo estranho aconteceu.

O poste ao lado dela simplesmente apagou.

Foi como se toda a escuridão da noite tivesse engolido sua silhueta.

Antes que desaparecesse completamente, consegui vê-la parada, de costas para mim.

Depois...

Nada.

Fiquei observando a rua, tentando entender o que havia acontecido.

A curiosidade tomou conta dos meus pensamentos.

Alguns minutos depois, o poste voltou a acender.

Mas a mulher havia desaparecido.

No lugar onde ela estivera, restava apenas o pequeno jarro.

Ele permanecia de pé, transbordando um líquido escuro que escorria lentamente pelo asfalto.

Observei aquilo durante vários minutos.

O líquido simplesmente não parava de sair.

Pensei que talvez fosse água.

Mas de onde viria tanta água para um recipiente tão pequeno?

Ri sozinho.

"Estou assistindo filmes de terror demais..."

Tentei encontrar uma explicação lógica.

Talvez alguém tivesse rompido um cano e deixado o jarro ali para esconder o estrago.

Ou talvez eu estivesse imaginando coisas.

Mas a curiosidade venceu.

Peguei minha lanterna, vesti um casaco, procurei as chaves da porta e olhei para o relógio.

— São 3h20 da madrugada.

Abri a porta lentamente e caminhei até a encruzilhada.

Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Quando finalmente iluminei o jarro com a lanterna, meu estômago embrulhou.

Não era água.

Era uma substância negra, espessa e viscosa, que continuava jorrando sem parar.

— Droga... Isso definitivamente não é água. Eu devia ter colocado minhas botas.

Enquanto examinava o objeto, um cheiro insuportável tomou conta do ambiente.

Era a mistura do odor de carne apodrecida, fezes e enxofre.

Instintivamente comecei a recuar.

Foi quando percebi que meus pés estavam presos naquela substância.

Por mais força que fizesse, não conseguia sair do lugar.

Olhei novamente para o relógio.

Os ponteiros marcavam exatamente 3h33.

E pararam.

Para sempre.

Quando apontei a lanterna novamente para o jarro, o líquido já não era negro.

Agora possuía uma coloração avermelhada, espessa como sangue.

Algo começou a emergir de seu interior.

Primeiro ouvi um grunhido.

Depois vieram os lamentos.

Pareciam dezenas... talvez centenas de vozes.

Era como se alguém estivesse tentando escapar dali.

De repente, minha lanterna apagou.

Bati nela várias vezes.

Tentei ligá-la novamente.

Nada.

A escuridão voltou a dominar tudo.

Eu só conseguia ouvir aqueles gritos.

E passos pesados se aproximando lentamente.

Meu corpo inteiro começou a tremer.

Eu queria correr.

Queria gritar.

Mas o medo havia roubado todos os meus movimentos.

Então senti uma mão.

Fria.

Úmida.

Ela agarrou meu colarinho e me arrastou até o jarro.

Tentei resistir.

Foi inútil.

A criatura segurou minha cabeça com uma força absurda e obrigou-me a olhar para dentro do recipiente.

O que vi jamais poderá ser esquecido.

Dentro daquele pequeno jarro existia um lugar impossível.

Um mundo inteiro.

O calor que saía dali queimava meu rosto.

Ao longe vi pessoas presas a troncos sendo serradas lentamente.

Outras eram obrigadas a beber rios de magma.

Algumas apenas gritavam.

Outras já nem tinham forças para isso.

Era um sofrimento impossível de descrever.

Comecei a implorar.

Gritei.

Chorei.

Pedi que aquela criatura me deixasse ir.

Ela apenas riu.

A criatura sorriu e disse:

— Para que um possa sair... outro precisa ocupar o seu lugar.

— Agora conte esta história aos meus amigos que permaneceram aqui.

— Obrigado por ter vindo ao meu encontro... seu tolo.

Conto revisado em 29 de junho de 2026.

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Autor Isaque Nascimento
Publicado em 16 de maio de 2017
Categoria Contos