“Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em estranhas realidades até a morte pode morrer.” (H.P.Lovecraft)

1

Foi no verão de 1997 que encontrei pela primeira vez o fantasma. Dizem que todas as pessoas possuem um companheiro invisível, e que somente notam sua existência na época das criancices, quando um amigo imaginário é mencionado numa tarde de chá com a família de bonecos. Se eu tive realmente um, meus pais nunca souberam me dizer, preocupados com contas a pagar e burocracias adultas. Se ninguém me notava, algo tinha que fazê-lo.

Morávamos numa casa amarela na Rua São Martins, em Cruz das Almas, na Bahia. Um terreno curto e arenoso, ideal para brincadeiras de perseguição de insetos e busca por tesouros. Cresci com dois irmãos mais velhos e igualmente peraltas, que souberam promover boas descobertas, mesmo com todas as ausências e ignorâncias. E estiveram presentes quando fiz a maior de todas, numa noite quente e soturna de novembro.

A televisão lutava com a antena para exibir mais um capítulo da novela Por Amor, com a reclamação constante de minha mãe sobre as atitudes inverossímeis da Helena, protagonizada por Regina Duarte. Seu Roberto roncava no mesmo sofá, com a boca estirada como um vulcão em vias de erupção, sendo por vezes cutucado pela Dona Germânia. Eu acompanhava aquele festival de broncas e rouquidões, enquanto tentava encerrar as atividades da professora Mitiko. Sem sucesso, fui até a cozinha para tomar um copo de leite morno, envolto em equações e regras que não precisavam existir.

Enquanto esquentava a panela no fogão com a medida de um copo, tive a sensação de estar sendo observado. Acredito que todas as pessoas já experimentaram algo parecido, como se vissem um vulto negro na extremidade da parede, curioso por aquele ser físico. Uma piscadela e a aparição some como nos efeitos ruins do Chapolin. No entanto, o que eu vi não desapareceu de súbito, mesmo depois de esfregar os olhos e virar a cabeça para os lados.

Era um homem. Baixo, com roupas sociais brancas, incluindo o chapéu coco. Não aparentava ter mais de quarenta anos. Se não fossem os olhos vazios e a expressão triste, eu poderia dizer que ele estava realmente ali, vivo e perdido. Num instinto próprio da sobrevivência, eu corri até a sala e me atirei sobre o sofá dos meus pais. Após ofensas e uma lapada no braço, tentei explicar com a respiração ofegante:

“Um homem na cozinha!”, falei repetidas vezes. O mal-humorado do meu pai se ergueu na altura de seus um metro e noventa e foi resmungando até o ambiente iluminado.

“Que porcaria! Derramou todo o leite no fogão, somente para dar trabalho para sua mãe. Moleque inútil!”, blasfemou Seu Roberto sem menção a qualquer visitante inesperado.

Depois de soltar o cobertor da minha mãe, que nem se hesitou em abandonar a aflita Helena, fui a passos curtos ao local como se pisasse em cacos de vidro. Nem precisei expor todo o meu corpo esquelético na porta para perceber que o homem branco ainda estava lá. Imóvel. Com o mesmo olhar melancólico. Apontei para o canto ao lado da geladeira, clamando que meu pai notasse o intruso transparente.

“O que tem na geladeira? Vai dormir, rapaz, amanhã você tem aula!”

Aceitei a proposta e, sem pestanejar, corri para o quarto, onde meus irmãos se distraiam com leituras de quadrinhos. Tentei contar aos dois sobre a aparição, mas nem Rivaldo muito menos Ediberto prestaram atenção às minhas súplicas, atentos ao novo inimigo do Homem-Aranha. Quis acreditar que havia sido uma ilusão momentânea. Fiz a básica higiene e me entreguei ao véu do lençol, ainda pensando na entidade. Não foi preciso trabalhar a imaginação, pois poucos minutos depois e ele já estava ali no quarto, ao lado do guarda-roupa, velando o que seria uma longa madrugada insone.

2

Quando os primeiros raios solares atravessaram os vãos da janela de madeira, achei que era o momento de encarar mais um dia escolar. O fantasma não estava mais ao lado do móvel, o que me fez soltar um leve sorriso de satisfação. Não durou muito. Ele estava me esperando no banheiro, como se já antecipasse meus movimentos.

“O que você quer comigo, hein?”, falei para o espectro, que manteve o mesmo olhar cadavérico, frio e os dentes serrados. Desci para o café, como se aguardasse a companhia de meu segurança sobrenatural. Imaginei que talvez eu pudesse correr para a escola e fazê-lo se perder pelo caminho, porém eu teria que ignorar o ônibus. Foi o que eu fiz. Após duas mordidas no pão com manteiga e uma rápida golada no achocolatado, sai em disparada pelas ruas, ignorando os gritos eufóricos da minha mãe.

O Colégio Estadual Landulfo Alves era uma realidade distante, afastado alguns quarteirões que pareciam galáxias. Corri. Atravessei o campo de futebol até a Lauro Passos, sob o olhar acusador dos passantes. Antes de alcançar a Praça, precisei parar alguns segundos para recuperar o fôlego. Olhei para trás e nem sinal do meu seguidor.

“Aposto que você não seja capaz de correr tanto.”, pensei, encostado no mercadinho. O resto do caminho, com o uniforme úmido de suor, fiz a passos largos, encontrando colegas que antes de me cumprimentar já pediam pelas atividades da cruel Mitiko.

Minutos depois já estávamos sentados na sala de aula, conversando trivialidades enquanto aguardávamos a chegada do professor Rubião. Assim que adentrou o ambiente, fechou a porta educadamente, para cumprimentar a turma ainda falante. Não consegui prestar atenção a nada que não fosse aquele rosto sem vida, que me observava pela janelinha da porta. O demônio estava lá.

3

Como também estaria nos dias seguintes. Duas semanas, e uma fidelidade absoluta. Natal, Ano Novo, férias. Eu nunca o via se movimentando, nem sabia se ele flutuava, atravessava paredes. Bastava entrar no chuveiro para notar sua presença fria ao lado do espelho, sem reflexo.

Conversei com algumas pessoas a respeito. Leonildo, amigo de longas partidas de botão, fingiu acreditar nas minhas palavras e sugeriu procurar ajuda profissional. Izilda, da vendinha da esquina de casa, indicou algumas orações para afastar o encosto. Abelardo, conhecido no Bar das Meninas como Bel, contou que também tinha uma companhia: a cachaça Ypióca, mais fiel que a esposa.

Fui atrás de todas as possibilidades, exceto da bebida. O Dr. Hênio era o pediatra mais experiente de Cruz das Almas. Disse que era imaginação de pré-adolescente e, quando minha mãe estava distraída, me puxou para o canto e disse:

“É melhor parar com essa mentira. Se quer chamar a atenção, faça de outra forma. Ou prefere ficar internado numa casa de loucos?”

Somente obtive algo realmente esclarecedor com o padre Gilberto, da Igreja Matriz. Ele me disse que antigamente a cidade recebia muitos tropeiros e que estes oravam na grande cruz da Igreja pelos mortos. E que, se isso me deixasse confortável, eu devia fazer o mesmo para que minha assombração finalmente pudesse descansar em paz. Parecia que ele acreditava em mim...ou estava falando algo para me tranquilizar. Ainda assim, a melhor ajuda veio de um homem que estava dois assentos atrás e havia ouvido todo o meu relato.

Assim que o padre se levantou para voltar à sacristia, sem esbarrar no fantasma, como se notasse o cheiro de morte, o rapaz se aproximou:

“Com licença, jovem! Não pude deixar de notar o seu relato ao padre Gil.”, falava com uma voz calma e quase sussurrante. “Eu me chamo Evair. E acho que posso ajudá-lo com o seu....problema.”

“O padre me ajudou. Vou fazer algumas preces para o descanso dessa alma perdida.”, respondi, olhando para o estranho com o canto do olho.

“Não vai adiantar, posso lhe assegurar. Foi a primeira atitude minha, quando notei que a minha entidade era persistente. Aliás, o seu fantasma já começou a apodrecer?”

Olhei mais uma vez para o ser sobrenatural e reparei que ele realmente estava diferente. O fundo dos olhos estava mais nítido; a pele do rosto exibia cavidades espalhadas num cenário lunar, que combinava com a ausência da orelha direita.

“Nem costumo olhar muito pra ele. Tenho medo de que ele possa fazer algo diferente. Mas, agora que você falou, comecei a reparar algumas mudanças...”

“É só o começo. Logo, o seu fantasma começará a exibir partes do esqueleto, do crânio. Você estará com um zumbi putrefato acompanhando-o por todos os lugares. Sua sanidade estará comprometida.

“Você disse que tinha um também? Como fomos escolhidos? Como conseguiu se livrar disso? A propósito, eu me chamo Sérgio.”

Evair levantou-se de seu assento e veio para a minha fileira, olhando ao redor como se fosse um molestador se aproximando de uma criancinha.

“Então, Sérgio, é o seguinte: você foi adotado por um espírito! Toda as pessoas possuem seres que o acompanham, mas são discretos, imperceptíveis. O meu e o seu e de muitas pessoas que muitas vezes são tachadas como esquizofrênicas atravessaram a barreira do improvável, em uma espécie de erro da matrix”.

“Como isso aconteceu?”, perguntei, reparando que o meu fantasma parecia estar prestando atenção na conversa, entendendo do que se tratava.

“Fantasmas estão por todos os lados, até mesmo durante as intimidades. O erro pode ter sido causado por vários fatores: talvez ele não saiba que está morto e simplesmente retornou para casa onde morava; ou talvez alguém da sua residência tenha feito algum experimento de comunicação com os mortos...Mas acho que isso nem é o mais importante. A questão principal é: como se livrar dele?”

“Sim. Se você conseguiu....”

“Cruz das Almas é um portal de acesso para assombrações, demônios e tudo mais que você já viu em filmes de terror. Antes da cidade ganhar esse nome, ela era apelidada de Boca do Inferno, exatamente por ser uma espécie de entrada, permitir a travessia. Já percebeu que aqui não comemoramos o Dia das Bruxas? Seria muito perigoso.

Muitas delas foras queimadas aqui. Há relatos de rituais, sacrifícios e invocações. Em 1649, um caçador de bruxas, de nome Herzgell, veio numa das caravanas de holandeses para a região do Nordeste. Atravessou cidades, conheceu histórias assustadoras, para chegar até onde ele considerava o marco zero, a Boca do Inferno.

A cidade ainda fazia parte de São Félix, mas era o lado negro da região, com relatos de aparições de seres disformes e possessões demoníacas. Herzgell pediu que construíssem uma grande cruz, abençoada por um grupo de eclesiásticos, e que todos os moradores viessem fazer orações. Enquanto o artefato era construído, a partir de uma madeira virgem, houve um aumento grandioso de casos sobrenaturais. Muitas pessoas fugiram da cidade, houve até suicídios, assassinatos e autofragelos.

Em poucas semanas, Herzgell já estava com os cabelos brancos, rugas e feridas abertas pela face e grandes unhas pontiagudas. O próprio estava se transformando naquilo que sempre combateu, a materialização física de um demônio.

A grande cruz salvou São Félix da ruína. O local passou a se designar Nossa Senhora do Bom Sucesso, até adquirir o nome que tem hoje, com a independência.”

Empolgado com todo o relato, eu quase não respirava. Praticamente não pisquei, nem desviei o olhar. Então, perguntei:

“Que história incrível! Isso nem é contado nos livros. E nem faço ideia como soube de tudo isso. Mas, fiquei com uma dúvida: que fim levou Herzgell?”

Evair fez uma pausa, como se não acreditasse em sua própria história. E disse, tranquilamente.

“Ouvi do próprio Herzgell. Ele ainda mora aqui. E é ele que poderá ajudá-lo.”

4

Muitas informações adquiridas em pouco tempo. Não soube como administrar todas elas. Uma cidade pacata, de pessoas simples, sem grandes conquistas, era na verdade um escudo para os males do mundo. E, entre os moradores, escondia-se uma múmia, uma pessoa amaldiçoada a viver para sempre, protegendo o lugar como uma sentinela dos malditos. Conhecê-lo talvez possa permitir que eu me desfaça desse ser medonho que me acompanha desde o ano passado.

“Onde eu posso encontrá-lo?”, perguntei com uma naturalidade que até estranhei.

“Ele está onde devia estar. No cemitério municipal, aquele que já não dispõe de lugares para enterrar os mortos. Mas, só poderá encontrá-lo à noite. Ele está com a visão comprometida, não suporta os raios solares.”

“E o que ele poderá fazer por mim?”

“Na verdade, a pergunta é: o que você estará disposto a fazer por ele?”

“O que for preciso para que eu possa voltar a ter paz! Só não sei como conseguirei sair de casa tarde da noite. Bom, darei um jeito! Onde iremos nos encontrar para visitar o holandês imortal?”

“Minha ajuda termina aqui. Agora é com você.”, Evair disse já se levantando do assento de madeira, fazendo o sinal da cruz.

“Como assim? O cemitério é grande! Preciso de um guia.”

“Você tem um. Pergunte ao seu fantasma. A propósito, ele já começou a falar com você?”

5

“Acho que começamos com o pé errado. Meu nome é Sérgio. Tudo bem?”, estendi as mãos, imaginando que dali poderia vir uma retribuição. Nada, nem sequer um movimento de sua boca, agora sem lábios.

Resolvi tentar mais algumas vezes:

“Dói estar morto?”. Nada. “Você morou nesta casa? Onde era seu quarto?”. Outro nada. “Peço desculpas para você, se fiz parecer que estava com medo. Podemos ser amigos?”. Nem com o mindinho em evidência.

Fiz mais tentativas durante aquela tarde de domingo chuvoso. Procurei não mostrar a ninguém a minha loucura, pois não queria ter que conversar com algum psiquiatra, entre medicações sonolentas.

Com a chegada da noite úmida e a dificuldade de obter privacidade, fui obrigado a suspender o interrogatório, embora o suspeito nem queira se manifestar até mesmo com o advogado. Contudo, a intenção de visitar o cemitério dentro de algumas horas permanecia forte e necessária.

Quando o programa dominical Fantástico terminou, meus pais já estavam dormindo no sofá, numa disputa pessoal pela hegemonia do ronco mais agressivo. Ediberto já dormia, enquanto Rivaldo ainda folheava algumas páginas cheias de quadrinhos. Não quis aguardar seu sono, sabendo que muitas vezes sua leitura invadia a madrugada.

Convoquei meu fantasma para um passeio noturno, e abri a porta lentamente, preocupado com o ranger da madeira. Ainda chovia discretamente, quando alcancei a calçada com a velha Caloi do meu pai.

O passeio foi relativamente rápido. As ruas de terra já vazias, carros guardados e muitas luzes apagadas indicavam que eu não teria testemunhas...vivas. Somente com o avistar das paredes brancas do cemitério que eu percebi a insanidade que estava cometendo. Como nos filmes dos anos 80, quando cheguei ao portão principal, um trovão criou o clima aterrorizante e me trouxe arrepios gelados.

6

O cemitério municipal era bastante conhecido em Cruz das Almas. Abrigava tantas famílias que havia ganhado notoriedade pelo excesso de hóspedes, remetendo à clássica novela O Bem Amado. Muitos túmulos apertados, como se os cadáveres fossem habitantes de um albergue macabro.

Saltei o portão com uma certa tranquilidade que a idade permitia. Apesar do horário e da chuva incômoda, eu sabia que precisaria ser discreto pois muitos jovens casais e drogados usavam o local para se divertir.

Caminhei me atentando aos nomes mostrados nas placas sobre os túmulos, algumas com suas cruzes seriamente danificadas pelo tempo. Leopoldo Vieira havia morrido há pouco mais de vinte anos e aparentava ser bastante jovem; Juliana Carvalho, nascida em 14 de outubro, não permitia que se visse o ano de nascimento e nem de sua partida; e havia um senhor que deve ter vindo com Noé em sua Arca pela vida longa que tivera. Mas, nada de Herzgell.

A trégua da chuva não colaborava com o vapor gélido que despontava da terra fofa. Atravessei quadras, sepulturas diversas, até que resolvi me sentar em um bloco frio, ao lado de uma árvore dividida em duas. Já passava da meia-noite, quando notei uma sombra negra me observando há alguns metros de distância.

Será que fui descoberto pelo coveiro? Sentindo um frio cortante, aproximei-me lentamente do estranho, que começava a ganhar uma forma magra de um zumbi desnutrido, sem o chapéu e a vestimenta outrora agradável. Logo percebi que se tratava do meu chaveiro-fantasma, agora com o rosto ainda mais acinzentado, permitindo que se visse sua dentição completa.

“Você demorou muito. Já estava com saudades. Mentira, não estava, não! Aliás, posso lhe dar um nome? Vou chamá-lo de....Patrick. Pode ser?”

Virei os olhos apenas alguns segundos, mas ouvi uma voz em um tom grave, sussurrante, que se misturava ao movimento dos galhos secos: “Heeerzgeeeell.”

7

Aterrorizado. Aquela voz horrenda havia penetrado em meus ouvidos como um pesadelo. Ela veio acompanhada de um odor tão fétido que me lembrou o cheiro do rato morto que encontrei no portão de casa, certa manhã, provavelmente esmagado pelos pneus de um caminhão.

A entidade não pronunciou o nome novamente, mas seu dedo indicador pálido estava erguido para um canto do cemitério, onde havia um pequeno mausoléu, escondido entre jazigos, numa espécie de ilha fúnebre. Não aparecia abrigar corpos, ainda menos pessoas vivas – quiçá uma múmia. Todavia, era para lá que eu devia ir.

Aproximei-me sem muita pressa, observando os detalhes que começavam a se tornar interessantes: era bem antigo, como eu já imaginava, com duas pequenas vigas mantendo a estrutura desengonçada e repleto de runas e pichações. “Silentium est Aurum” aparecia destacando uma cavidade que poderia ser a entrada de pessoas curiosas e magras. Dei mais uma circulada com a visão, quando um novo trovão anunciou a chuva que iria retornar com força na madrugada.

Atravessei a entrada receoso de que meu movimento pudesse derrubar o depósito de cadáveres. Havia uma escada de degraus curtos, conduzindo-me para a escuridão entrecortada pelos trovões insistentes. Ao descer os degraus tateando a parede fria, vez ou outra sentindo as cascas frágeis de insetos que eu preferia não saber quais eram, cheguei a um espaço possivelmente menor, silencioso e com um odor de queijo velho.

Pequenas pedras se movimentavam com meus passos lentos, emitindo sons ecoados pela saleta. Um novo raio possibilitou que eu visse algumas gavetas de pedra preenchidas e outras agitadas por pequenas criaturas invertebradas. Pensei na estupidez de dizer o nome do matusalém holandês, o que seria uma segunda se considerar a descida até ali, mas fui cativado pela vontade de retornar à parte menos sombria do cemitério.

“Forasteiro...”

Tive a impressão de ter ouvido uma voz ainda mais cavernosa do que a do meu fantasma.

“Herzgell. É você?”, ousei questionar ao anfitrião.

Silêncio. Talvez o som pudesse ter sido uma impressão ou...

“Forasteiro...”

Não. Havia mais alguém ali comigo, além da minha assombração. Se é que ela estava ali. O lugar era assustador demais até para os não-vivos.

“Fui mandado até você por um senhor que conheci na igreja. Ele disse que você poderia me ajudar com um certo encosto.” Falei gaguejando umas duas ou três palavras.

“Forasteiro, venha até mim.”, numa frieza que arrastava cada sílaba e sussurrava as vogais, sem qualquer sotaque.

Caminhei devagar, chutando pequenas rochas enquanto sentia o tênis velho esmagar coisas outrora vivas. Com as mãos à frente, temendo sentir um corpo gelado e fino a qualquer momento, fui ajudado por um novo trovão: havia uma portinhola ao fundo, além de um vulto fino sentado ao lado da entrada. Possivelmente Patrick.

“Olá....alguém aí?”. É claro que havia alguém. E é claro que a pergunta era a mais idiota que eu poderia ter feito. O problema é que eu comecei a perceber que poderia haver “alguéns”.

Atravessei a passagem abaixado, quase engatinhando, para alcançar um cubículo, sendo recepcionado por uma camada fria. O eco de algo se arrastando em minha direção fez com que eu chutasse mais sólidos a cada passo para trás. Sons de uma pesada corrente e um gemido grave se misturavam numa cadeia de loucura, horror e pesadelo.

O grito da tempestade sobre uma fenda no canto superior permitiu que eu visse um pouco do meu cenário. Crânios despedaçados numa piscina de ossos, tecidos velhos, ratos e insetos que lutavam por espaço. Vultos negros me observando por todos os lados numa assembleia dos mortos. E aquela coisa, que se arrastava na minha direção...

Entre murmúrios vorazes e expressões de dor, ouvi um ser consciente se manifestar para a minha extrema unção. A voz era conhecida:

“Bem-aventurados os que adentram a Boca do Inferno. Sejam bem-vindos seres inomináveis, desalmados e repugnantes!”. Era aquele que havia se apresentado como Evair, o que me conduzira até o meu último suspiro. “Prometi a você, Sérgio, que o afastaria de seu encosto, que o deixaria livre dessa corrente sobrenatural, a qual você foi marcado naquela noite assombrosa. E que encontraria o holandês amaldiçoado!”

Era apenas mais uma sombra disforme, na reunião de cadáveres. O espírito que me guiou para este mausoléu para que eu servisse de companhia para Herzgell, preso ao inferno da degeneração solitária e eterna. E eu ficaria lá pelo tempo suficiente da destruição do meu corpo físico e o despontar de uma alma errante, que um dia também buscaria um dono.

Ao ouvir minha sentença, vertendo as lágrimas que saciariam a sede do morto, fiquei imaginando se eu finalmente seria notado e, enfim, poderia testemunhar pela fresta no alto o mais belo nascer no sol.

Foi no verão de 1997 que encontrei pela primeira o fantasma. Num outono longínquo, eu me tornaria um.