"Feliz 1998!!"

Apesar da mensagem rabiscada de modo grosseiro no quadro negro, definitivamente não era um dia feliz. Sentado ao lado de uma das janelas da sala de aula, Klaus, com seus olhos escuros e rosto de 12 anos, observa os olhos igualmente escuros dos urubus gigantes enfileirados no parapeito da escola.

A fileira fúnebre de pássaros pretos e truculentos se estende não só por toda a extensão do telhado, como também pelo teto do pequeno ginásio em frente e dos muros. Pelo playground, por cima dos poucos carros no estacionamento, nas poucas árvores ali. O céu cinzento do entardecer piora a visão. A voz anasalada da professora, Patrícia, preenche a sala.

— E não, gente, esses Urubus-de-cabeça-preta não são agressivos. Geralmente, né. E essa é só uma das espécies, a gente vê muitas outras pelo mundo todo, que são bem diferentes entre si.

Klaus suspira, irritado. Ele não tem tanta certeza que aqueles urubus não eram agressivos. Aquela porcaria era uma aula de "dependência", uma espécie de apoio (e com certeza punição) para alunos com desempenho abaixo do esperado - algo que, nele, aconteceu por pura falta de interesse. Ao todo, havia 16 alunos espalhados pelas classes, de turmas diferentes.

Os animais, silenciosos, pareciam estar à espera. Rondando e assolando todos os espaços vazios da fachada da escola, os urubus haviam chegado no início da aula, que agora já estava chegando ao fim. Mas conseguiriam os alunos sair dali ilesos? Certamente algum teste teria que ser feito. 

E Klaus vê que isso de fato estava ocorrendo. Lá fora, Jacinto - professor de História, baixo, roliço e de cabelos esvoaçantes - tenta afastar os bichos, primeiro usando seus braços, depois tentando jogar coisas no telhado. "Eu morro antes de parecer tão ridículo assim", pensa o menino.

Nas classes ao seu redor, metade da turma presta atenção na aula de biologia, metade se distrai. Os poucos alunos perto das janelas observam o homem lá embaixo, pequeno em contraste com os longos animais empoleirados. Longos, altos e grandes até demais, percebe Klaus. Os que sobrevoam em círculos, como se seguindo o cheiro de alguma carcaça, possuem uma envergadura quase impossivelmente gigantesca. "O que esses bichos andam comendo?" Provavelmente, tinha algo a ver com água poluída.

Luci, a menina loira ao seu lado, masca um chiclete enquanto mexe no brinco, distraidamente lendo uma revista adolescente. Klaus nunca suportou Luci. Voz de gralha, assuntos totalmente fora do universo dele, comportamento fanático e sempre fazendo referências idiotas a boybands. Era gótica mas usava caneta de glitter no caderno. "Luci com certeza é diminutivo pra Lúcifer", pensava ele.

Na classe em frente a Klaus, as largas costas de Alexandre - constante vítima de bullying por causa de interesses muito nichados, como certos jogos, gibis, essas coisas. Para Klaus, uma maciça perda de espaço. 

Lá fora, Jacinto parece não estar mais perseguindo os urubus. Ele agora foge de uns 3 ou 4 pássaros, que aplainam com suas grandes asas e garras cada vez mais perto da cabeça do homem. Jacinto sai correndo, fora do campo de visão de Klaus, seguido pelos pássaros aparentemente ferozes. 

Klaus se distrai com um espirro da professora. A voz nasal de Patrícia, ainda explicando sobre os urubus, retorna a sua atenção para o quadro-negro, agora já rabiscado com mais informações.

— ... e os predadores deles são, por exemplo, jiboias e sucuris.

Ronaldo, um dos alunos mais velhos da turma de dependência, dá uma risada sardônica e cheia de dentes branquíssimos. Num gesto típico de filhinho de papai debochado, ele vira-se para Helena - a popular que todo mundo odeia mas ninguém tem coragem de falar - e sussurra:

— Ó Helena, já pode ir lá fora comer os urubus, hein.

Enquanto Helena levanta um dedo do meio perfeitamente manicurado para Ronaldo, alguns alunos ao redor dão risadinhas. Klaus só ignora - "comportamento besta de gente besta", pensa. Patrícia continua falando.

— ...e assim a gente vê que, na verdade, pessoal, nós que invadimos o lugarzinho deles, na natureza. É por isso que eles vêm, ficam em lugar que não deveri-

BLAM. A porta escancara - é Jacinto, com o rosto sangrando muito, camiseta rasgada. Patrícia e os alunos reagem com espanto, alguns emitem sons horrorizados, outros ficam paralisados. Jacinto fala meio baixo, voz trêmula.

— Atacaram… eu não consegui…

Com outro estrondo, Jacinto cai no chão de madeira da sala. Patrícia, olhos arregalados e cabelo crespo voando atrás de si, logo vai de encontro ao homem desfalecido, tentando acordá-lo. Vários alunos levantam de suas classes, olhando assustados para Jacinto e também pelas janelas.

Klaus vê que os urubus parecem maiores - ou talvez era só a luz do dia se esvaindo. As aves, pacientes e ameaçadoras, continuam observando os alunos. Mais urubus voam lentamente em espiral acima do estacionamento da escola, logo em frente à entrada. E, consequentemente, em frente à saída também.

✽ • ✽

Jacinto já não está mais na pequena sala de aula. Patrícia havia reanimado o homem, dando água e limpando os ferimentos, logo antes de acompanhá-lo até a sala dos professores. É quando ela volta à sala, com o rosto pálido e cardigan meio sujo do sangue de Jacinto, que as luzes começam a falhar.

A turma agora já estava a observar os temíveis urubus pela janela. Os animais não se movem, encarando a turma de volta. Klaus, que tinha ficado verdadeiramente fascinado pelo tenso e estranho fenômeno, incomodava-se com a proximidade de Luci quando um relâmpago gigante rasga o céu, provocando um murmúrio de medo e admiração nas crianças.

— Pessoal, vamos sentando, vamos sentando. Os bichos já vão sair daí, vocês vão ver. O professor Jacinto tá bem, vai pro hospital assim que der, vamos continuar a aula aqui enquanto tem luz. Já vi que pra piorar, até luz vai faltar. 

O esforço organizacional de Patrícia é em vão. Lá fora, Klaus vê que uma fina chuva começa a cair, escurecendo ainda mais o pátio cinza. Os urubus não se comovem - pareceriam estátuas de mármore se não fosse pela sua cor obscura e pelo ocasional farfalhar de asas. É quando Luci, com uma voz pequena e tremida, diz:

Peraí, eu acho que… vendo eles bicarem algo lá no telhado…

As luzes se apagam. A turma reage com gritos, exclamações e cabeças voltando-se para cima, examinando as falecidas lâmpadas fluorescentes. O frio na barriga de Klaus confirma: os urubus estavam bicando os cabos. Se antes já estava difícil, agora mesmo que não dava para pedir ajuda pelo telefone. Patrícia, visivelmente nervosa, bate palmas, observando o corredor completamente escuro. Já eram 18h20.

, gente, senta! Vamos esperar mais um pouco, agora mesmo que não dá pra sair. Daqui a pouco a coordenadora vem aqui na sala nos orientar.

Klaus continua observando os animais, iluminados por relâmpagos, à espera das próximas vítimas.

✽ • ✽

Pelas 19h30, já não tinha mais aula, mas o pânico perdurava.

Patrícia, dois professores e uma coordenadora conversam no corredor perto da porta da sala. Em meio ao burburinho dos alunos, que já se aglomeravam em grupos, Klaus tenta driblar a penumbra e observar as expressões preocupadas dos adultos. 

O grupo docente entra na sala de aula e Patrícia bate palmas, chamando atenção da turma. 

— Gente, gente! Nós estamos tentando encontrar soluções pra afastar os urubus e vamos precisar da ajuda de vocês. A gente sabe que tarde, todo mundo com fome e com medo, por isso vamos precisar que vocês se reúnam em grupos. Vamos sair dessa.

Os outros professores, com rostos assombrados, mantêm-se de braços cruzados e ocasionalmente cochicham entre si. Klaus, odiando cada segundo da tarefa de se reunir em grupos, observa Patrícia. Ela continua:

— Um grupo vai fazer balões de olhos maus, com careta mesmo, que é algo que ajuda a espantar os bichos.

Ronaldo, Helena e vários outros alunos dão risadas sarcásticas. Klaus também não pode evitar um sorriso de canto, pois a ideia realmente parecia ridícula. Patrícia, aos olhos dele, era uma pessoa fracassada que acabou presa num trabalho quase inútil de professora substituta. 

— Outro grupo vai lá na sala da coordenação pegar as arminhas de laser que foram confiscadas semana passada. Tem estudos dos Estados Unidos que dizem que isso ajuda também.

Três alunos seguem com a coordenadora para fora da sala. 

— Outro grupo vai fazer estilingues. É pra usar com moderação em última instância, pra não machucar os urubus. Que nem brincadeira de criança, mas dessa vez é sério.

Patrícia passa por Klaus, exalando um perfume adocicado demais, que irrita seu nariz. Ele com certeza não queria passar tempo fazendo artesanato enquanto os urubus malignos estavam à espreita lá fora. Alguma coisa séria deveria ser feita.

— Eu e os dois profes vamos pegar as mangueiras pra ligar neles e espantar sem machucar. Vamos, gente, vamos sair daqui logo.

— Eu lembrei de uma coisa que pode resolver.

A voz é a de Klaus, autoritária e arrogante. Todos olham para ele - um trovão corta o silêncio.

— Meu vô é taxidermista e ele tinha problemas com urubu na fazenda dele. Além de atirar neles com espingarda, ele também usava um pássaro empalhado pra espantar. Disse que é o que mais resolve. Depois dos tiros, claro.

Ao fundo, Ronaldo faz um comentário idiota e alguns alunos riem, mas Klaus não presta atenção. Eles estão com o olhar fixo nos três professores, que se entreolham e conversam baixo.

— É sério. E eu sei onde tem um pássaro empalhado. Na sala da diretora.

Patrícia observa o menino - morde o lábio, apreensiva. 

— Mas mesmo tendo esse pássaro… quem vai sair pra colocar ele lá fora?

Mais um relâmpago de trovão faz os alunos estremecerem. Klaus vê que já acumulam mais urubus que nunca. Toda a extensão de superfície está coberta com os bichos macabros, agora mais inquietos. "Fome".

Os três professores discutem entre si - Patrícia, Orlando, o professor de matemática, e Dafne, de química. Para Klaus, pouco importava quem fosse, desde que colocassem o seu plano em ação. Enquanto isso, os alunos realizam as tarefas propostas. Os três alunos e a coordenadora retornam com duas caixas contendo os lasers. A coordenadora logo sai de volta pela porta - provavelmente indo cuidar de Jacinto.

Dafne funga com seu nariz fino e empinado, abraçando o corpo.

— Eu não posso ir. Tenho asma e alergia a bicho.

Orlando suspira e coloca as mãos no bolso.

— Eu também não queria ir, não. Tenho fobia de urubu.

— Poxa, que conveniente, Orlando.

Patrícia respira fundo, irritada. Orlando olha para o chão. Klaus julga: "Que babaquice".

Patrícia fecha o fino cardigan, ajusta as polainas grossas e prende o cabelo crespo num coque.

— Se ninguém vai, vou eu. Turma, é hora de se acalmar e fazer as tarefas que passei pra vocês, tá? Vou lá fora iniciar o trabalho de tirar os urubus daqui, pra gente ir embora. Fiquem calmos, que tudo vai se resolver, tá? 

O pálido e pequeno nariz de Klaus se contorce com a mensagem otimista da professora. De algum jeito, ele tinha certeza que essa era a última vez que a veria com vida. 

✽ • ✽

Todos os alunos e professores da sala do terceiro andar assistem, pela janela, Patrícia sair pela larga porta da frente, lá embaixo. O cabelo oleoso de Luci roça na bochecha de Klaus, que se afasta rapidamente. Ele enxerga a professora lá no pátio empunhar o pássaro empalhado em frente a si, gritando para chamar a atenção. Alexandre, com o bafo embaçando a janela, profetiza:

— Ih… Acho que isso não vai dar muito cert-

Num instante, seis urubus simplesmente mergulham agressivamente na direção de Patrícia. A mulher larga o pássaro empalhado e tenta correr de volta para a escola, mas os urubus a cercam e a atacam. São tantos os animais que as luzes externas da escola ficam obscurecidas. Mesmo fugindo e evitando o animal empalhado, os urubus atacam Patrícia com vício, cólera, ódio.

Klaus sente um frio no estômago - mas ele não consegue definir se é de medo ou de entusiasmo. Pânico se instaura em meio aos alunos e professores quando a carcaça da professora é vista no chão, ensanguentada. Orlando, com o rosto vermelho de susto, tenta acalmar as crianças.

— Tá bom, pessoal, saiam de perto da janela… Saiam daí.

Dafne contorce as pálidas mãos de nervosismo, rosto transformado em uma carranca apreensiva. Cheia de sombras e mesmo na penumbra, Klaus nunca havia visto uma pessoa tão feia na vida. Ele provoca:

— Vocês vão ter que ir lá, né? Ou quer que a gente resolva isso?

Todos os alunos - alguns chorando, alguns quietos em pânico - se voltam para Klaus e os professores, esperando. Finalmente, Orlando afirma que sim com a cabeça.

— A gente vai… puta que pariu… a gente vai buscar a coordenadora e o Jacinto e vai resolver isso sim. Nos dêem algumas das coisas que vocês fizeram aí. Os balões, estilingues. Fiquem com os lasers e tentem ir tirando os urubus de lá.

Helena, com os olhos marejados, senta no canto da sala, ao lado de outra menina. Ronaldo, com os olhos arregalados, começa a se mexer, solícito. Já Dafne começa a chorar como um bebê, desesperada e com o nariz escorrendo. 

— Eu não queria morrer aqui… Tenho tanto coisa que queria fazer...

Orlando começa a organizar as coisas e lança olhares reprovadores em direção a ela.

O choro de Dafne ecoa pelos corredores da escola. Enquanto os dois adultos saem pela porta cheios de bugigangas, Klaus observa os urubus atacando a carcaça de Patrícia. Acima do estacionamento, vários urubus rodeiam o céu, sentindo o cheiro da morte lá embaixo.

✽ • ✽

Enquanto vários alunos tentam afastar os urubus com as arminhas de laser, Klaus está sentado à classe, desenhando a tenebrosa visão que enxerga da janela da sala. O parapeito vivo lá fora, os muros palpitantes, os animais deixando rastros de sangue pelo chão cinza.

"Um bando de criança com luzinha acha que vai afastar esses monstros daí", pensa. É quando ele vê Dafne e Orlando, nervosos e pequeninos, saindo com objetos na mão. Dafne segura os ridículos balões, tremendo e gritando. Já Orlando vem atirando pedrinhas com um estilingue, arrastando também uma grande mangueira no ombro.

Os urubus reagem às pedras e aos balões de modo misto: enquanto alguns se afastam, outros tentam estourar os balões e bicar os professores. Pela fresta de uma das janelas, Klaus consegue ouvir o choro desesperado de Dafne enquanto ela luta com os animais e se aproxima do corpo de Patrícia, irreconhecível no chão. "Será que alguém daqui se daria melhor?" reflete Klaus. Ele não se considerava manipulador, mas sim socialmente econômico e estratégico. Agora, numa situação de sobrevivência, essas características pareciam ser de ouro.

Orlando desiste do estilingue e sai correndo em direção ao muro, onde fica o portão de saída. Com a mangueira ligada e tentando afastar os urubus, ele é perseguido até quase conseguir sair. Os alunos soltam sons de esperança, mas Klaus nem respira. Ele assiste enquanto quatro urubus gigantes cravam as garras no corpo de Orlando, que solta a mangueira gritando. Enquanto isso, Dafne surge no chão do estacionamento. Seus olhos foram arrancados e Klaus percebe que sua carranca agora está mais feia do que nunca.

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Ronaldo esbraveja lá da frente da sala - seu cabelo está desgrenhado, camisa torta de tanto andar pela sala.

— A gente consegue sim! É a única saída e eu não aguento mais!

Klaus apoia o rosto no queixo enquanto vê os carros lá no portão, esperando os alunos já horas atrasados. A coordenadora (que se chamava Aline ou Alice, Klaus não lembrava e não se importava com isso) já tinha encontrado seu fim também, ao tentar sair correndo até o portão de saída. Vários urubus rondam os céus acima dos cadáveres.

Talvez fosse uma questão de tempo até virem ajudá-los… mas Klaus tinha outros planos.

— Só acho que vocês estão sendo covardes. 

— Prefiro ser covarde e continuar vivo — responde Ronaldo, exasperado. 

Klaus suspira e levanta. Anda até a frente da classe. Vários alunos choram, outros se abraçam. 

— Vocês viram que eles fugiram do pássaro empalhado, deu certo. Os lasers não deram certo, mas o bicho empalhado e a mangueira surtiram efeito. Eles são muitos, mas nós também.

doido, cara? Vai todo mundo morrer!

Alguns alunos fungam e prestam atenção em Klaus. Ele tem os olhos cintilantes e fala com vigor.

— Vocês vão deixar os urubus vencerem? Logo no início do ano, logo nessa aula besta de dependência? Um bando de coitadinhos sem recursos? A gente consegue, se formos juntos.

Alexandre, Luci e os demais se entreolham, meio concordando, meio refletindo. Alguns levantam das classes, incertos. Finalmente, Helena se pronuncia lá de trás da sala.

— Eu também acho. Eu que não quero ficar aqui sem fazer nada. 

Klaus sorri: "e ela vai trazer a turminha burra dela junto". Ele fala para a turma enquanto Ronaldo deixa os ombros caírem, derrotado e incrédulo.

— Vamos lá, pessoal. Se organizem do jeito que eu falar.

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Klaus ouve o barulho da respiração coletiva enquanto a turma desce pelas escadas escuras da escola. Ele lidera o pequeno grupo de alunos - vários com "armas" improvisadas, outros com armaduras e capacetes caseiros. Os passos das crianças ecoam pelo chão de azulejo, cortados pelos trovões tenebrosos lá fora. 

Klaus passa pela porta entreaberta da curadoria - Jacinto está caído na cadeira em meio a uma poça de sangue. Luci chora alto e Klaus manda ela calar a boca. "Logo vai ser essa chata caída no meio do próprio sangue". 

— Ok gente. Primeiro grupo, boa sorte.

O primeiro grupo de alunos se prepara do jeito que dá e sai correndo. Os poucos alunos que restam esperam à porta de vidro da escola. Os gritos e gestos de desespero do grupo se misturam com os ataques dos urubus, mais ferozes do que nunca. Klaus sorri e, vendo os pais lá longe no portão gritando inutilmente para voltarem para dentro, manda sair o segundo grupo.

— Vai segundo grupo! Vamos!

Vários alunos chorando e tremendo saem pela porta, jogando-se na batalha contra os grandes urubus negros. Uma confusão de penas, bicos, pernas e gritos ocupa o estacionamento em frente à escola. Os gritos dos pais ao fundo são abafados pela luta das crianças. Os urubus mergulham do telhado em direção aos olhos, braços, barrigas.

Klaus não esconde mais a gargalhada ao ver Luci, Helena, Alexandre e os outros sendo atacados, chorando e lutando contra os animais gigantes. Com algum sucesso, vários conseguem golpear os urubus, que soltam gritos horrendos e saem voando.

— Vai grupo três! Vai, vai, vai!

O último grupo sai correndo em direção à cena horrenda. 

Lá fora, corpos desfigurados de alunos enfeitam o chão, bem como penas, sangue e os professores já defuntos. Os poucos que conseguiram correr até perto do portão estavam sendo atacados com mais violência do que nunca - por seis, sete urubus ao mesmo tempo, que soltam uma baba marrom e pestilenta no rosto das crianças. Uma aberração da natureza que virou pesadelo.

Klaus é o único que fica dentro da escola, sorriso cheio de dentes e nenhum arranhão no corpo. 

Ele sabe que é só uma questão de tempo até os bombeiros chegarem, ou até ele ter que sair e enfrentar sua morte. Mas ele seria o último a arriscar a própria vida. Se ele conseguiu a proeza de manipular todos dali a se sacrificarem, ele merecia viver mais algum tempo. 

Então, ele só observa o ataque dos urubus, sorrindo e esperando.