Sonhava em um dia poder experimentar as coisas boas que a vida pode proporcionar. O cheiro das árvores, o suave toque do vento, a brisa da manhã, a textura da areia a beleza das praias... Coisas simples que não podia ter, por mais de 17 anos.

Quando criança, fui diagnosticada com uma doença muito rara que, ao toque do ar, poderia acarretar em uma série de problemas que me levaria a óbito em segundos, então, vivo trancada em meu quarto sendo visto apenas pela minha mãe que é médica e uma enfermeira de confiança dela.

Passo os meus dias não fazendo muita coisa. Estudo, acesso às redes sociais, assisto filme... Coisas de jovens. Mas tem um lado bom nisso, tenho meu próprio mundo aqui sem problemas ou preocupações.

Todos os dias tenho que passar por uma bateria de exames e tomar vários remédios. Isso já virou rotina para mim e já me acostumei, faço isso desde que nasci então, não é problema.

Meu pai morreu em um acidente de carro a dois anos e nem ao menos pude ir em seu enterro, isso me entristece mas, é uma condição que preciso viver.

Estava tudo indo bem por assim dizer, até que ele chegou. Jhon era um garoto diferente. Com olhos azuis, pele clara, cabelo um pouco grande, ruivo, alto... Alguém que poderia sonhar para ter como esposo um dia, mas sabia que isso não seria possível.

A janela do meu quarto ficava de frente a sua janela, mas apenas poderia olha-lo pelo vidro que me separava do mundo lá fora.

Ficava nos imaginando juntos, o tocando e o beijando como uma pessoa normal, sem ter nenhum problema. Seria um sonho distante. Ele sempre aparecia na janela do seu quarto, depois que compartilhamos os números de telefone, teclavamos todos os dias.

Falávamos de nossos sonhos, vontades, desejos... Tudo que jovens de nossa idade almeja em fazer e ter. Mas uma coisa achava estranho em Jhon, ele não sorria, tinha sempre uma expressão séria em seu rosto, mas não me incomodava pois era o único amigo que tinha.

Seu olhar era sereno e sempre fitava o meu, como se conseguisse ver minha alma, as vezes isso me incomodava um pouco, mas tentava não ligar.

Nossas conversas ficavam cada vez mais intensas, até chegar a um ponto que passasse do normal para o assustador. Jhon começou a falar sobre coisas bizarras como mortes e enforcamentos. Dizia que as vezes tinha vontade de tirar sua própria vida, e que isso aliviaria qualquer dor e sofrimento.

Comecei a achar estranho de mais tudo isso. Ele dizia que seu pai não gostava dele e por canta disso, o batia. Sofria bullying na escola e já não aguentava mais tudo isso. Eu sempre tentando aconselha-lo a prosseguir com sua vida, dava exemplos da minha pra ele, mas parecia que o rancor e o ódio pelas pessoas tomava o consumia ainda mais.

Dois dias se passaram e Jhon não respondia minhas mensagens, não aparecia na janela de seu quarto. Pressentia que algo estava acontecendo. As 12:34h da tarde meu celular vibra com a notificação de uma mensagem, era Jhon... A mensagem dizia: "O fim é o novo começo.". Consegui entender o que ele queria dizer, então, resolvi ligar, mas ele não atendeu, nem as centenas mensagens que mandei ele respondeu.

As 14:28h se ouviu no jornal que um garoto havia entrado na escola onde estudava e havia matado professores e alunos, mais de 20 pessoas haviam morrido no massacre. Dizia que o atirador ainda não havia sido encontrado pois após os tiros ele fugiu.

Fiquei assustada pois, era a escola onde Jhon estudava, queria saber se ele estava bem. Liguei e nada se atender, nem as mensagens respondia. Então, ouvi tiros vindo da casa dele... Corri para o meu quarto para ver se o via, mas ali havia. Policiais aos montes chegaram logo depois e encontram o corpo do pai de Jhon na cozinha da casa.

Reviraram a casa inteira e não encontraram mais ninguém. Ninguém sabia onde Jhon estava, simplesmente ele havia evaporado.

No outro dia esse era o assunto do país. Um jovem de 23 anos matou a sangue frio mais de 20 pessoas incluindo professores e alunos, após foi em sua casa e matou seu pai com 4 tiros e que ainda não havia sido encontrado. Seu nome era Jhon Kyle Smith e estava foragido.

Meu coração congelou quando ouvi o nome. Não queria acreditar que Jhon teria sido o autor de algo tão macabro assim. Mandei várias mensagens para ele e, quando não achava mais que ele iria aparecer, uma mensagem sua chegou. "Vá a janela". Fui e lá estava ele, em pé com aquele olhar sereno e profundo, mas dessa vez ele sorriu. Abaixou a cabeça e digitou alto no celular... A notificação de mensagem chegou e dizia: "Diga a eles que o meu corpo está em um quarto secreto próximo a porta. Obrigado por ser minha amiga.".

Levantei a cabeça com lágrimas nos olhos, olhei para a janela mais ele já não se encontrava lá. Um dos tiros do dia anterior havia sido em sua cabeça. Jhon só queria alguém para conversar antes de fazer o que fez, então, ele confiou a mim essa tarefa.

Uma última mensagem chegou em meu celular, ao olhar, estava escrito: "Desejo tudo e todas as coisas de bom em sua vida... Seja feliz... Jhon Kyle Smith."