No sábado sempre temos o costume de assistir um filme antes de ir dormir, algo que fazemos em família já algum tempo. Esperamos meu pai chegar do trabalho para iniciarmos nossa sessão de cinema em casa. Quando ouvi o carro sendo estacionado na garagem, logo fiquei bastante entusiasmado, era o dia da semana que mais esperava, pois tinha meus pais só para mim a noite inteira e poderia ganhar uma atenção a mais do que o resto da semana.

No domingo, minha mãe faz plantão no hospital durante 24h, por conta disso só temos o sábado para nos reunirmos como família, afinal, a semana eles trabalham. Minha mãe foi preparar uma pipoca enquanto meu pai ia tomar um banho para podermos assistir o filme. Enquanto ela fazia nosso lanche noturno, fui pegar um cobertor, havia chovido bastante o dia inteiro e estava com bastante frio.

– Adivinhou o que estávamos planejando Vitor? (Minha mãe me interrogou com um sorriso quando passava por ela com o cobertor)

– Como assim mãe? O que estavam planejando? (Perguntei sem entender o que ela disse)

– Vamos colocar o colchão na sala para dormirmos lá essa noite. O que acha?

Pulei e a abracei com o maior entusiasmo, seria uma noite épica com meus pais. Poderíamos assistir ao filme e ainda dormiríamos todos juntos na sala com todo esse frio que estava, um clima perfeito.

Meu pai saiu do banho enquanto minha mãe fazia um suco e esquentava alguns salgados no micro-ondas. Assim que ele se arrumou, foi pra sala, minha mãe foi logo em seguida e já colocou o filme para iniciar. Estava um clima tão bom de família que logo meus olhos começaram a ficar pesados. Já haviam se passado uma hora e meia de filme e já estava perto do final, então resolvi ir ao banheiro para passar uma água no rosto e fazer xixi, ainda teria mais um filme para assistirmos e não queria dormir antes do final.

Cheguei ao banheiro e passei uma água no rosto, quando abri os olhos, vi que a energia havia acabado, mas antes que saísse ouvi dois barulhos altos que ecoou por toda a casa. Voltei para o banheiro e tranquei a porta apavorado. Comecei a ouvir vários objetos pesados sendo arrastados pelo o corredor, o que me deixou mais apavorado ainda e sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo lá fora.

Quando ouvi o barulho um pouco mais longe, destranquei a porta do banheiro lentamente e, abrindo a porta, corri depressa para meu quarto e fechei a porta me escondendo debaixo das cobertas e fingindo estar dormindo, pensei que talvez o que estivesse dentro de casa ignorasse um garoto que não apresentasse mal algum.

Assim que fui fechando os olhos e tentando acreditar que fosse tudo fruto da minha imaginação ou meus pais me pregando uma peça bastante idiota, ouvi a porta do quarto abrir lentamente. Vi quando um homem alto arrastou os corpos dos meus pais para dentro e os colocou escorados na parede sentados com a cabeça virada diretamente para mim. Olhava tudo aquilo com as lágrimas escorrendo pelos meus olhos, mas não podia demonstrar nem sequer qualquer expressão de medo ou pavor, nem que estivesse acordado. De alguma forma, aquele homem queria que eu visse meus pais mortos ou que essa fosse minha última visão deles.

Ele então começou a escrever algo na parede e se abaixou entrando para debaixo da minha cama. Fiquei ali parado, imóvel sem mexer um músculo sequer, pois sabia que acabaria como meus pais se caso me mexesse, então continuei ali, fingindo estar dormindo, quem sabe esse cara não fosse embora depois de um tempo.

Já haviam se passado algumas horas e eu continuava ali sem me mexer, olhando meus pais com os olhos abertos, garganta cortada e a expressão de morte em suas faces e eu sem poder fazer nada. Fiquei pensando comigo se ele ainda estava ali debaixo da cama, afinal já haviam se passado horas, talvez ele não estivesse mais lá, então busquei coragem e me levantei lentamente da cama e fui em direção à porta para fugir dali, mas vi a frase que ele havia escrito e parei para lê-la.

Ela dizia: “Eu sei que você está ACORDADO!”.