Sempre gostei de tirar fotografias quando era criança. Meu pai tinha uma câmera da Nikon, até sofisticada para o ano de 95. Ele havia ganhado uma promoção no trabalho e isso melhorou um pouco mais nossa renda, dando a possibilidade de comprá-la, afinal, essas câmeras na época não tinham um preço tão acessível assim.

Tiramos várias fotos assim que ele comprou. Levou um tempo para revelá-las, mas o resultado foi o que me encantou, mas comecei a notar que ele ficava um pouco diferente a medida que tirava uma fotografia.

Ele ia ficando mais agressivo, isolado, não parecia nem um pouco com o pai amoroso e um marido exemplar que era de tempos atrás.

Após alguns anos, ele largou tudo, trabalho, amigos e, consequentemente, a família. Minha mãe colocava a culpa em mulheres, mas sempre tive uma pulga atrás da orelha nisso. Fiquei com a câmera que ele havia comprado e guardei. Certo dia, eu já com meus 12 anos, ele foi até nossa casa para nos ver e pediu a câmera para que tirasse uma foto de mim e da minha mãe. Assim que tirou, ele surtou e atacou minha mãe matando ela estrangulada. Fiquei aterrorizado e corri para fugir dele.

Ele então pegou uma faca na cozinha e cortou seus pulsos morrendo de tanto sangrar. A investigação não apontou uma causa justa para o que levou ele a isso. Nenhuma substância foi encontrada em seu corpo, então eles encerraram o caso dando meu pai como louco.

Cresci com essa dúvida martelando minha mente. Me tornei, obviamente, fotógrafo profissional e isso me fazia bem, fazer aquilo que amamos sempre nos faz bem. Mas, assim como meu pai, fui mudando a cada foto tirada, enxergando o mundo de uma forma diferente, como se nada fizesse sentido algum.

As vezes, quando chegava em casa, olhava para minha esposa e minha filha e não sentia mais amor, atenção ou algum sentimento bom por elas, era como se eu estivesse perdendo minha humanidade aos poucos.

Fui pesquisar então sobre algo do tipo, se algo conseguiria ser a causa disso em minha vida. Encontrei um site onde falava sobre as fotografias e o que elas nos causam. Li que a casa foto tirada, uma parte de nossa alma se perde completamente. Quando já não há mais alma, a pessoa se torna imune a qualquer tipo de bom sentimento restando apenas uma casca fazia sem nada a oferecer.

Entendi então o que havia acontecido com meu pai naquele dia fatídico. Talvez já restasse apenas um pedaço pequeno de sua alma, assim que tirou aquela última foto, sua alma foi totalmente consumida transformando ele em um assassino sanguinário.

Talvez isso esteja acontecendo comigo, se cada fotografia rouba um pouco da alma, não será possível que eu desista um pouco da minha cada vez que eu tiro uma foto?

Já não sei mais se ainda tenho uma alma, pois a única coisa que sinto é um vazio dentro de mim. Meu medo agora é chegar em casa, olhar para minha família e ser o carrasco que irá dá um ponto final em suas vidas medíocres. Talvez faça isso, só preciso tirar uma última foto.