Com a pandemia ainda percorrendo o mundo inteiro, nossas vidas já estavam se encaminhando para uma monotonia só. Procurava me entreter indo à casa de algumas amigas que moravam próximo a minha casa, e assim passávamos a maioria das tardes, conversando, fazendo alguns jogos e tentando preencher nossas mentes com algo que não fosse somente TV ou redes sociais.

Morava com minha mãe e, desde que cresci e comecei a entender as coisas, perguntava-a sobre meu pai, mas ela nunca quis falar sobre, então chegou um tempo da minha vida que deixei isso tudo pra lá e não quis mais questioná-la. Talvez ele tenha nos trocado por outra mulher e isso a machucava ainda, então preferi não incomodá-la mais com isso.

Tínhamos uma ótima relação de mãe e filha, e isso me deixava bem e fazia-me sentir que não precisaríamos de uma figura masculina conosco. Ela sempre batalhou e lutou para conseguir as coisas e sempre me dar o que precisava, então, o que podia fazer era sempre apoiá-la em tudo.

Hoje resolvi ir para a casa de Samarah, uma das minhas melhores amigas, e ficar lá com ela até o final da tarde. Gostava de ir pra a casa dos Bentes, lá tinha piscina e sempre que podíamos, estávamos juntas tomando um banho de sol e relaxando. Assim que cheguei, eles haviam acabado de almoçar, mas mesmo assim já foram logo me oferecendo algo para comer.

Sr. Bentes – Olá Mellyssa! Está com fome? Ainda tem um pouco do churrasco que fizemos.

Mellyssa – Obrigado Sr. Bentes, já almocei antes de vir. Agradeço o convite. A Samarah está?

Sra. Bentes – Está sim Mellyssa, lá no quarto dela. Pode subir, creio que esteja te esperando.

Mellyssa – Obrigado Sra. Bentes. Está linda hoje.

Sra. Bentes – (Risos) Obrigado meu anjo, você também está cada vez mais bela.

Eles sempre eram bem simpáticos e me tratavam como uma filha, então procurava sempre retribuir da melhor maneira possível. Samarah era a única filha deles e, após a perda prematura do segundo filho, eles não quiseram mais ter nenhum filho. Também era filha única, por isso me dava tão bem com a Sam.

Foi uma tarde ótima com ela. Nos divertimos bastante e já estava dando a hora de ir para casa quando um número estranho começou a me ligar, incessantemente. Pensei ser aqueles números estranhos de São Paulo, por isso nem sequer atendia, mas o mesmo número insistia em continuar ligando cada vez mais.

Cheguei em casa e falei pra minha mãe que havia um número estranho me ligando a horas, mas que não havia atendido, ela então me olhei com um ar de questionamento e disse que talvez fosse alguém que tivesse digitado o número errado, que era apenas para ignorar, então foi o que fiz. Fui então para meu quarto e peguei o computador para ver algumas postagens dos meus amigos nas redes sociais, foi quando as ligações voltaram.

Cada toque me deixava curiosa de quem poderia ser a ponto de está tão desesperado ou desesperada assim para falar com quem estava do outro lado, então respirei fundo e fiz o que minha mãe disse para não fazer, atendi a ligação.

Assim que disse “Alô!” a voz de um homem disse: “Finalmente te achei. Não se preocupe minha coelhinha.”.

Desliguei no mesmo instante e fiquei sem entender o que seria aquilo. Algo me deixou bastante assustado no tom daquela voz, então corri para a sala onde minha mãe estava e contei o que havia acontecido. Quando disse para ela do que o homem havia me chamado, ela ficou branca com a expressão de medo e pavor.

“Como ele te chamou?” – Ela perguntou.

“De coelhinha” – Respondi com a voz já embargada. “O que está acontecendo mãe? Quem estava no telefone?” – Questionei sem ter o retorno de uma resposta.

“Pegue suas coisas e vamos sair daqui, rápido.” – Ela disse me puxando pelo braço.

Aquela reação me deixou com pavor e medo do que já estava antes. Não conseguia entender ou raciocinar o que estava acontecendo, mas preferi confiar nela e sair dali o mais rápido possível. Peguei algumas coisas que precisaria, coloquei em uma mochila e fomos rapidamente para o carro vermelho que tínhamos.

Ela saiu bastante rápido, coisa que não era costume dela fazer, ela sempre dirigiu com cuidado e não passava dos 40km. Isso me deixou com muito mais medo. Perguntava dela o que estava acontecendo e só tinha o silêncio como resposta. Ela então ligou o rádio para ouvir as notícias, uma voz saiu de lá dizendo: "Notícia Urgente! Uma criança chamada Mellyssa que havia sido sequestrada a 13 anos atrás no hospital Cristóvão Vasconcelos, acaba de ser localizada e as autoridades estão à procura de um carro vermelho...”.

Fiquei em choque com aquilo. Eu não conseguia parar de tremer e chorar com tudo que estava acontecendo à minha volta e com o que havia acabado de ouvir. Olhei lentamente para a mulher que estava dirigindo o carro.

Mellyssa – Quem é você?

Mulher – Você pode me chamar de, Mamãe.