As coisas estavam normais até então para mim no último ano letivo da faculdade de gastronomia. Amava cozinhar e sempre procurei aprender essa arte desde pequeno. Quando completei meus seis anos de idade, meus pais não gostaram muito do meu pedido de aniversário a eles, talvez por ainda carregarem aquele estereótipo de que coisa de menina é de menina e coisa de menino é de menino, a sociedade ainda nadava nessa ignorância tola naquela época.

Quando falei que queria uma cozinha de brinquedo, vi o semblante deles mudarem de alegria para preocupação, sei que eles não queriam me privar de nada, apenas de um Bullying no futuro. Disse a eles que queria uma cozinha porque queria ser chef quando crescesse. Eles então juntaram um dinheirinho e compraram para mim a tão sonhada cozinha, toda azul com fogão, prateleiras, frigideira, facas, talheres, via meu sonho ali se iniciando daquele dia em diante.

Minha trajetória foi somente isso, estudos, estágios, alguns bicos em restaurantes, tudo andando no seu tempo certo, sem muita pressa, até chegar aqui onde estou, no meu último ano. Foram lutas, decepções, perdas, mas tudo se resumia a esse momento, e sabia que logo estaria com meu diploma e dando à minha mãe um futuro melhor.

Sim, meus pais se separaram durante esses anos da minha vida. Ele preferiu nos trocar por algo que ele achava melhor, hoje não sei por onde ele anda. Há 10 anos somos apenas eu e minha mãe, e com a ajuda dela consegui chegar até aqui.

Bom, a história agora pode tomar um rumo um pouco diferente do esperado, mas continue ouvindo, pois essa parte da minha vida é onde tudo começou a mudar. Aí mesmo onde você está, preste atenção em uma coisa, olhe para a tomada mais próxima de você, para um conjunto de janelas, ou então para a traseira de um carro, dependendo de onde esteja nesse exato momento. Se você vê figuras parecidas com rostos nesses e outros objetos, saiba que não é o único: trata-se de um fenômeno bem conhecido pela ciência, chamado pareidolia. Basta posicionar duas formas que lembrem olhos acima de outra que pareça uma boca para as pessoas começarem a enxergar rostos.

A pareidolia já foi vista como um sinal de psicose no passado, mas hoje se sabe que ela é uma tendência completamente normal entre humanos. No livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, Carl Sagan escreve que a tendência está provavelmente associada à necessidade evolutiva de reconhecer rostos rapidamente. Isso se torna até algo comum quando você para pra pensar que faz sentido.

Você passa sua vida inteira olhando pessoas, conhecendo novos rostos a cada dia, pessoas que você nunca viu na vida, pessoas que talvez só veja apenas uma vez e nunca mais torna a vê-las novamente, e são esses traços de feições que ficam guardadas em nossa memória, tanto de longo quanto de curto prazo, não importa, mas ficam registradas, e são elas que associamos aos rostos que vemos nas tomadas, janelas ou mesmo árvores.

Isso deveria ser algo realmente normal e comum na vida de qualquer ser humano, mas não para mim, e talvez nem para você.

Em qualquer tomada da minha casa ou na cozinha do restaurante onde estou trabalhando, via a forma de rostos felizes, sorridente, até tirava sarro disso, fazia memes e postava nas redes sociais, mas isso começou a mudar depois de um tempo. Os rostos que outrora eram felizes, passaram a ter um semblante triste como se estivessem sofrendo. Idiotice, eu sei, mas se você parar para analisar bem, algumas das formas dos rostos que vemos, não expressam felicidade, algumas parecem tristes, outras assustadas, e foi onde tudo começou, quando as formas dos rostos começaram a mudar.

Não via mais, nas tomadas ou janelas, expressões felizes, apenas aquele semblante triste. Não me importei muito com isso e continuei minha vida normalmente. Tinha algumas provas para fazer e precisava estudar, não tinha tempo para dar atenção a essas paranóias, mas deveria ter olhado as mudanças.

Para você ainda pode está tudo normal, formas de rostos nos fogões, tomadas, na frente de carros ou motos, formas essas que ainda sorriem, mas não se engane.

Comecei a ver rapidamente quando passava por alguma tomada, expressões não felizes e nem tristes, mas expressões assustadoras. Eu deveria está ficando louco ou algo do tipo, o estresse do trabalho, das provas, da faculdade e o último ano letivo talvez estivessem consumindo muito da minha mente e estivesse apenas cansado, isso foi o que minha mãe disse depois que contei a ela sobre o que estava vendo, claro, com vergonha.

Tentei acreditar nela, mas as coisas só se agravaram. Não via apenas de relance ou pela minha visão periférica, comecei a ver essas expressões bizarras em todos os lugares e isso estava me deixando apavorado. Os objetos inanimados não apenas tinham expressões aterrorizantes com olhos vermelhos e dentes pontiagudos, eles também começaram a sorrir e gargalhar para mim.

Para onde eu fosse, onde eu olhasse, via algo com um rosto sorrindo para mim com uma expressão demoníaca sorrindo e gargalhando. Fui a médicos e psicólogos, mas ninguém podia resolver meu problema, e eu continuava atormentado com esses rostos e todos os lugares.

Isolei-me de tudo e todos. Parei de ir para o trabalho e para a faculdade, as tomadas e alguns objetos viviam tampados ou cobertos com panos, pois não podia olhar para eles. Ficava apenas no quarto deitado com as lâmpadas apagadas, esse era o meu refúgio.

– Ei! Não vai adiantar. Nós estamos aqui e vamos levar você. (Uma voz sussurrou na escuridão do quarto.).

Dei um salto da cama totalmente aterrorizado perguntado quem estava ali. “– Shiiiiiihh, apenas acenda a luz!” sussurrou novamente a voz seguida de várias gargalhadas sombrias. Corri para o interruptor e liguei a lâmpada revelando vários rostos demoníacos espalhados pela parede e nos objetos no quarto. Todos olhavam para mim gargalhando e falando que iriam me matar, que iriam devorar minha carne e levar minha alma para o inferno.

Em um surto, peguei o taco de baseball no armário e comecei a acertar todos os rostos, os objetos e as tomadas que havia no quarto quebrando e destruindo tudo, só queria que tudo aquilo parasse, tudo sumisse, só queria minha vida de volta.

Quando parei com o surto e as gargalhadas e vozes pararam, abri os olhos e vi sangue em minhas mãos e no taco de baseball, sangue nas paredes e nas minhas roupas. Olhei e vi os corpos dos meus avós, meus tios e da minha mãe caídos no chão com suas cabeças totalmente esmagadas. Eu não podia acreditar que havia feito aquilo, não havia ninguém no quarto a não ser eu.

O barulho das sirenes juntamente com o abrir da porta me fizeram sair do transe em que ainda estava. Alguém havia ligado para a polícia por ter ouvido os barulhos. Fui diagnosticado com alguns transtornos mentais e me internaram em um sanatório, mas isso não resolveu, eu continuo os vendo, continuo os ouvindo, na tomadas, nos carros, nas motos, nas janelas e portas, em todos os lugares eles estão, sorrindo e sussurrando “Mate todos... Mate todos... Mate todos...”. Chegará um momento em que não poderei mais controlá-los.

Quando você começar a vê-los, tente não ouvi-los, tente não se entregar a insanidade, ou você poderá parar onde eu estou.