Frases como: “isso não existe” ou “tenho certeza que nunca vou pegar essa doença”, eram coisas que costumeiramente eu falava, afinal, não acreditava nessa coisa de vírus, pandemia e tudo mais. Quando começou em meu país em meados de fevereiro de 2020, assim como muitos brasileiros, acreditava que isso passaria logo, que isso tudo não passava de um tipo de jogo político para os poderosos que estavam no poder ganhar mais dinheiro.

Isso realmente aconteceu, muitos políticos, prefeitos e governadores usaram dessa situação para lucrar, enterrando caixões vazios, outros com pedra dentro, tudo para que o número de mortos por conta do vírus fosse muito maior e o dinheiro que vinha para ajudar fosse muito maior. Por conta de tudo isso que via nos jornais ou reportagens na internet, minhas dúvidas sobre essa pandemia crescia ainda mais.

Via muitos próximos a minha casa sentir os sintomas, alguns seres hospitalizados, até mesmo membros da minha família foram infectados, mas eu ainda duvidava, para mim era apenas um tipo de virose que logo passaria com alguns remédios farmacêuticos ou mesmo caseiros, mas foi quando meu irmão morreu por conta do vírus que meu olhar sobre o covid-19 começou a mudar.

Claro, continuava cético, mas com um pouco mais de receio e preocupação. Passei a usar máscara mais regularmente, mas ainda dentro de mim sentia uma incerteza, uma incógnita se realmente isso tudo era verdade. Os números de mortos no país só aumentavam, juntamente com o de infectados e o caos já começava a se alastrar por todo o lugar. Minha família aderiu à quarentena e ninguém saiu de casa, estávamos isolados e reclusos, mas eu ainda procurava sair para continuar com minha vida, não era isso que ia me fazer parar.

Foi então que aconteceu. Cheguei em casa certo dia com uma moleza no corpo, me sentindo um pouco tonto, obviamente achei que fosse simplesmente estresse do trabalho e de tudo que estava acontecendo. Havia perdido meu irmão recentemente e talvez tudo isso estava me afetando de alguma forma. Tomei um banho, jantei algo e fui me deitar, não procurei falar para ninguém, afinal estavam todos apreensivos e não queria preocupá-los.

Acordei no dia seguinte sem conseguir falar direito com minha garganta doendo. Tomei um antiinflamatório e saí para o trabalho mesmo assim, quando chegou o intervalo para o almoço já estava me sentindo febril e com muita dor no corpo, meu nariz escorrendo e comecei a espirrar bastante. Decidi vir embora para casa antes que meus colegas na empresa fizessem um escândalo por eu estar assim, o único que ainda não acreditava fielmente nisso era eu.

Quando cheguei tomei um banho e me deitei, mas as coisas começaram a piorar. Falei para minha irmã, que era enfermeira, o que estava sentindo, rapidamente ela já começou a me dar os remédios de covid em casa mesmo. Me recusei a ir para o hospital pois sabia que fosse, não retornaria vivo de lá.

Nos dias que se seguiram, as coisas só pioraram para mim. Meu pulmão já estava 30% comprometido e se agravava a cada hora. Comecei a ter súbitas falta de ar e dores intensas no peito. Minha mãe e minha irmã já esperavam o pior, pois foi assim com meu irmão. Eu tentava lutar pela vida e a cada dia essa luta se mostrava perdida para mim.

Foi quando certa noite, no auge da doença e de tudo que estava sentindo, eu apaguei. Não sei ao certo se eu morri ou simplesmente desmaiei, mas o que eu vi me fez lutar com todas as minhas forças pela vida. Estava deitado quando olhei para a porta do meu quarto e vi um homem velho, com roupas todas rasgadas e um fedor horrível emanando dele. Veio se aproximando de mim lentamente, parecia que tinha um problema na perna, pois ele a arrastava no chão.

Chegou perto de mim e esticou a mão para pegar em meu braço. Sua pele estava podre com vários buracos nela deixando amostra um pouco dos ossos de seu braço. Puxei meu braço que estava caído para fora da cama e o coloquei em cima do meu peito com a intenção de não deixá-lo tocar em mim. Ele então puxou novamente o seu braço para si e sorriu, andou vagarosamente para a porta do quarto e parou de costas para mim, olhei para trás e fez um gesto com a mão me chamando para ir com ele.

Me levantei da cama, foi quando percebi que estava realmente fora do meu corpo. Olhei para trás e me vi deitado na cama, minha irmã estava sentada ao meu lado chorando e segurando minha mão, talvez tivesse partido naquele momento, talvez estivesse sonhando, não sei ao certo, mas andei em direção a ele para saber o que aconteceria a seguir.

Ele andou e passou pela porta, assim que passei pela porta atrás dele, me vi em um cemitério com várias lápides. Era um cemitério bastante grande e com vários mortos ao redor. Ele então seguiu andando lentamente enquanto eu o seguia me perguntando para onde ele iria me levar. Foi quando chegamos a uma cova rasa, ele parou e colocou um dos pés dentro da cova e o outro fora, olhou para a lápide que estava lá e apontou para o nome, olhei e lá estava escrito Luccas Pietro Santos, meu nome.

Ele então apontou para mim e soltou uma gargalhada diabólica e infernal que ecoou por todo o lugar onde estávamos. De alguma forma naquele momento, me enchi de coragem e gritei alto “Deus é o dono da minha vida e tem poder sobre você. Volte para o inferno espirito da morte”. Nesse instante ele se transformou em uma fumaça densa e escura e passou pelo meu corpo me fazendo acordar com falta de ar em minha cama.

Meu coração acelerado quase saltando fora do peito. Tentei respirar devagar para controlar meu corpo, minha saturação e meu coração. Foram 15 minutos de agonia, mas consegui me acalmar, tomei os remédios e procurei lutar para sobreviver, não iria deixá-lo me levar tão fácil assim. Após 23 dias consegui me recuperar e ficar livre de tudo que estava sentindo, terminei de tomar os remédios e finalizei o tratamento três dias depois.

Não acreditava no vírus e nem em nada disso, muitos menos no sobrenatural e seus derivados, mas após essa experiência quase morte, passei a enxergar esse mundo de uma forma diferente. Ainda o escuto gargalhar, vê-lo nos lugares escuros da minha casa, somente a espreita para levar minha alma. Sei que um dia ele fará isso, mas não será agora.

Talvez você não acredita no sobrenatural, no vírus que está assolando o mundo, em toda a escuridão a sua volta e as coisas que existe nela, tudo bem, eu entendo você, eu também era assim, mas em algum momento o véu entre o mundo dos vivos e mundo dos mortos irá se romper, então você terá a oportunidade de vê-los em sua mais magnífica forma, só tome cuidado para que nenhum deles toque em você, ou seu destino não será dos mais agradáveis, lhe garanto.