A lenda do Pirarucu teve sua origem nas águas amazônicas e ela vem sendo contada de geração a geração, deixando a história e a lenda viva nos rios da Amazônia. O Pirarucu é um dos maiores peixes de escama do Brasil, e para explicar melhor sua origem, quero lhes contar a lenda deste jovem guerreiro que com sua maldade fez inimigos e recebeu o mais inusitado castigo. Acredite, há algo muito mais real do que uma mera lenda contada a crianças.

O Pirarucu era um índio guerreiro da nação dos Nalas. Este jovem índio era muito valente, orgulhoso, vaidoso, injusto e gostava de praticar a maldade. Ele não era do tipo de guerreiro que procurava salvar donzelas ou cidades de algo ruim que pudessem assola-las, pelo contrário, era ele que incitava a violência e a maldade por todos os lugares que passava.

Ele saia de sua aldeia em busca de um pouco de diversão e algum atrativo para alimentar mais sua sede de violência e prazer. Chegava às aldeias vizinhas como um pacifico aliado para ajudar na caça e na construção das casas, mas ninguém tinha ideia de suas reais intenções. Ao fim de quatro ou cinco dias, ele ficava instalado na aldeia sempre prestativo e ajudando como podia, mas sempre observando como tudo ali funcionava. Assim que ele já estava bem familiarizado com tudo e todos, ele saia a noite para praticar toda a maldade que havia em seu tenebroso coração.

Entrava nas casas à noite e, sem pestanejar, matava os homens e crianças que ali estavam e estuprava as mulheres matando-as logo em seguida. Pirarucu era um guerreiro formidável e perfeito, não deixando sequer o tocarem, isso dificultava ainda mais sua captura e morte. Ele fazia isso simplesmente por prazer e satisfação, não se importava com nada. Os guerreiros mais fortes, ele decapitava e tirava o coração para comer ali mesmo. Ele acreditava que isso dava a força do guerreiro deixando-o mais forte. As mulheres que ele achava mais formosa, continuava-as a estuprar mesmo elas estando mortas, isso chegava a acontecer dias após dias, até o corpo começar a exalar cheiro ruim, só depois ele abandonava o local e ia para outro lugar.

Todos que ouviam falar de sua fama, tentavam caça-lo, mas sem sucesso algum, e todos que tentavam matá-lo, recebia uma morte brutal e sem dor. Ninguém poderia ir à nação dos Nalas, pois todos que não eram um Nala, eram mortos muito antes de chegarem à cidade. O rei Nauzuruê, de Nala, não se importava com o que alguém da sua tribo pudesse fazer longe dos olhos dele, pois para eles quem sai e se afasta da nação dos Nalas, precisa enfrentar a vida sozinho, mas se retornar com vida e tendo sangue de outros guerreiros em suas mãos, ele era bem vindo de volta. Os Nalas acreditavam que isso traria prosperidade e saúde para a nação. Muitos saiam para tentar se tornar um guerreiro melhor, mas poucos retornavam, e se não tivessem sangue de algum guerreiro em suas mãos, eram mortos antes mesmo de entrar na cidade, mesmo sendo um nativo Nala.

Bizarro, eu sei, mas cada nação tinha suas crenças, e Pirarucu sabia disso. Ele fora criado com os melhores guerreiros da nação Nala, e possuía uma habilidade incrível com arco e flecha, lutava como um verdadeiro guerreiro e muitos o confundiam com um filho de algum deus, por conta disso, muitos o temiam e até entregavam suas filhas e esposas em troca de terem suas vidas poupadas.

Sua fama se espalhou por todo o lugar fazendo com que a nação Nala fosse reconhecida por todos. Isso alegrava o rei Nauzuruê pedindo para que o guerreiro Pirarucu retornasse três vezes ao mês à nação Nala pra eles poderem ter mais prosperidade e saúde durante o ano todo, e assim ele fazia.

Mas sua fama chegou aos ouvidos do deus Tupã, juntamente com as súplicas de muitos que pediam pela morte de Pirarucu, pois sabiam que nenhum guerreiro mortal poderia matá-lo. Foi então que o deus Tupã ouviu as súplicas e resolveu intervir nas maldades do guerreiro e decidiu castigá-lo por todas as suas maldades. Deus Tupã observou bem tudo que Pirarucu havia feito e se encheu de ódio pelo guerreiro. Pediu à Deusa Luruauaçu que fizesse cair uma grande tempestade, e assim aconteceu. Uma forte chuva caiu do céu sobre a floresta de Xandoré, local onde a nação de Nala vivia. Obviamente, o deus Tupã não iria só castigar o guerreiro Pirarucu por sua maldade, mas também toda a nação dele por compactuar com seus feitos.

O demônio que odeia os homens começou a mandar raios e trovões, tornando a floresta toda eletrizada pelos fortes relâmpagos. Todo o lugar estremeceu fazendo com o desespero tomasse conta de todos que ali estavam. O rei Nauzuruê chamou todos os seus curandeiros e feiticeiros para rogar a seus deuses para os pouparem daquela grande e forte tempestade, mas nada adiantou.

O forte guerreiro chamado de Pirarucu encontrava-se na hora da chuva caçando na floresta e tentou fugir, mas não conseguiu. Vencido pela força do vento, caiu ao chão e um raio partiu uma árvore muito grande, que caiu sobre sua cabeça, achatando-lhe totalmente. A dor que ele sentiu não se comparava a das famílias que ele devastou por muitos lugares que passou.

O jovem guerreiro teve seu corpo desfalecido, carregado facilmente pela enxurrada para as profundezas do rio Tocantins, mas na floresta Xandoré o Deus Tupã ainda não estava satisfeito com apenas matá-lo por uma tempestade e resolveu transformá-lo aplicando-lhe um castigo severo, transformando o jovem guerreiro em um peixe avermelhado, de grandes escamas e cabeça chata. É este peixe Pirarucu que habita os rios da Amazônia.

Toda a nação Nala foi castigada sendo extinta de toda a terra, e a única prova de que um dia eles realmente existiram é o guerreiro Pirarucu, que agora habita as águas dos rios da Amazônia como um peixe gigantesco e cheio de escamas e ainda, com a maldade estampada em seu olhos.

Baseado na lenda local.