Trecho retirado do diário de Frei Antônio.

Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.

(Mateus 5:29-30)

Estas palavras entraram em meus ouvidos e perfuraram meu coração, enchendo-o de angústia. Mas quem sou eu para questionar? Sou um mero servo de Deus e pequei.

Existem dores piores, penso comigo. A dor física, lacerante e pungente passará e a da alma, que Deus me ajude, será compensada.

Ainda não tenho certeza se fiz o que acho que fiz. Olho para o coto cauterizado em meu pulso direito. Foi um corte desajeitado, mas foi o melhor que pude, em meio ao medo que sentia. Tremi muito (perdão) e fui punido.

Por que ainda não me sinto purificado? Jesus me olha com desaprovação do alto de sua cruz.

Sinto-me fraco. Em choque.

Desejos carnais há tempos me invadem a mente, os sonhos. Levam-me daqui, do ano de 1208 do ano de Nosso Senhor, aos tempos das bestiais orgias promovidas em nome do deus Baco, trazendo à tona o cheiro de vinho e coito, os quais me enchem a boca de saliva.

Culpo a castidade, afinal, qual foi o fim dos irmãos Bento e Francisco, senão sofrer as mutilações que deceparam mais do que membros do corpo, mas também fragmentaram suas pobres almas.

Sinto o ímpeto de olhar uma última vez mais para minha mão separada de mim. Ela está imóvel como deveria, porém parece me chamar para junto de si, com uma voz diabólica que advém do próprio inferno que habita cada um de nós.

Amaldiçoo-te membro falho.

A pira para purificação será acesa hoje a noite. Todos os membros decepados da semana transformar-se-ão em cinzas.

Não era mais do que nove horas quando a fogueira ardeu diante de nossos olhos. Rezamos enquanto as partes eram descartadas nas chamas e lá estava, mão maldita, abrindo a carne, exibindo os músculos e, por fim, os pequenos ossos das falanges dos dedos. Agora sinto a benção descer sobre mim.

A semana que se iniciará será árdua, afinal, olhei com pecado para a chama crepitante e agora me pego pensando qual dos olhos arrancarei para a próxima purificação.

Que Deus me ajude.