Os Olhos de Beatriz - Parte 3

comment1visibility38
Há 1 mês

As visões ficaram cada vez mais fortes no decorrer que o tempo passava. Via meus amigos e parentes morrerem antes de acontecer. Cenas horríveis de acidentes e assassinatos... Percebi que tudo isso começou a acontecer depois da minha cirurgia. Então, fui atrás de respostas.

Pedi ao médico para me informar o nome da minha doadora. Ele me falou e fui pesquisar. O nome dela era Beatriz Regina Gonzalez, morava em um subúrbio no interior do México. Então, descobri o contato de sua mãe. Fiquei apreensiva no início, mas resolvi ligar para saber o que havia acontecido com Beatriz.

A chamada tocou 4 vezes, então, ouvi a voz de uma senhora do outro lado da linha. Me apresentei e disse que eu era a paciente que tinha herdado os olhos de sua filha. Um silêncio de alguns segundos tomou conta da ligação. Então, a senhora disse:

-"Beatriz não deveria ter morrido. Ela era boa, nunca fez mal a ninguém..."

Perguntei o que havia acontecido e ela me falou...

-"Beatriz tinha visões da morte das pessoas, mas não era porque queria, simplesmente acontecia. Então, a acusaram de bruxaria... Começaram a nos perseguir dizendo que tínhamos que ir embora pois havia uma bruxa entre nós. Ela não suportou a dor de ser acusada e, as vezes, agredida na escola. Então, em um dia, ela resolveu dar um fim em tudo isso, tirando sua própria vida. Decidimos doar seus órgão pois, assim, ela ainda viveria. Mas, cuidado."

Fiquei em choque após isso. Agora tudo fazia sentido, o porque das visões. Tudo era Beatriz, seus olhos me faziam ver o fim das pessoas. Eu carregaria esse fardo para sempre. Mas não queria isso, podia aceitar. Não falei com meus pais sobre isso, eles não iram acreditar.

As visões com Beatriz também ficaram mais intensas. Via ela em quase todos os lugares, sempre com aquela expressão de morte. Acordava gritando quase todas as noites, tinha pesadelos com ela sendo enforcada, pegando fogo, sendo espancada. Mas, em todos os sonhos, eu era ela. Não estava mais aguentando. Já havia passado por uma bateria de exames e nada constava. Fisicamente eu estava bem, mas sentia que estava ficando louca.

Estava em meu quarto quando tive a visão da minha mãe sendo atacada por uma mulher na cozinha. Via a mulher pegar uma faca e esfaquear minha mãe deixando-a morta no chão. Quando retornei, sai correndo descendo as escadas e gritando pela minha mãe. Quando cheguei na cozinha tudo escureceu em minha vista. Quando consegui enxergar novamente, minha mãe estava no chão, e eu segurava uma faca suja de sangue.

Não podia acreditar no que havia acontecido. Eu tinha matado minha mãe. Mas como? Não conseguia entender. Me desesperei e comecei a gritar e chorar em cima do corpo dela. Meu pai chegou em casa nesse exato momento e viu toda a cena. Após isso, me levaram para uma clínica psiquiátrica. Fizeram todos os exames possíveis para alegar minha sanidade, e todos deram negativo para louca. Fui absolvida da morte de minha mãe.

Todos me olhavam estranho, como se eu fosse louca ou algo assim. As pessoas pararam de querer falar comigo e começaram a se afastar. As visões ainda estão acontecendo e não sei o que fazer. Frequentemente vejo pessoas morrendo das piores formas possíveis. Isso precisa ter um fim. Vejo pessoas falando mal de mim, me julgando, me chamando de louca ou assassina.

Vi até meus familiares se afastarem de mim. Seria o fim para mim. Decidi, então, em meu quarto, tirar minha própria vida. Amarrei uma corda, subi em uma cadeira e dei fim a toda minha agonia e desespero. Não teria mais visões, nem me sentiria mais culpada pela morte da minha mãe. Minutos antes de perder os sentidos, vi Beatriz olhando para mim em pé na minha frente. Ela simplesmente virou de costas e sumiu próximo a mim.

Minha família então, após minha morte, decidiu doar meus órgãos pois era um desejo meu e de minha mãe depois que ganhei os olhos de Beatriz. Eles foram doados e uma jovem cega por conta de um acidente, recebeu os olhos que eram de Beatriz. Ela olhou para mim dentro da sala do hospital depois que tiraram a venda de seus olhos. Ouvi quando ela perguntou de sua mãe quem era eu, mas sua mãe não me viu...

Comentários

Anônimo
Que belo final
16/12/2020