"Cara, tentar encontrar uma solução para algo que obviamente não tem saída é procurar agulha no palheiro, você não vai encontrar; então é melhor deixar pra lá e seguir em frente.” Era o que ele me dizia todas as vezes que tentava sair da minha zona de confusão para, fracassadamente, tentar acertar uma única vez.

Era um dilema que vivia todos os dias, algo que de alguma forma me levava ainda mais para dentro de um poço onde a única saída seria subindo, mas nem mesmo isso eu conseguia sentir ânimo para fazer.

“É difícil estar nessa sozinho, e eu percebo que a cada dia você se torna mais fraco e sem forças para continuar, mas eu estou aqui para ajudar no que você precisar.” Era o que ele me falava todas as vezes que me via chorando no meu quarto, e, pra falar a verdade, ele tinha um pouco de razão nisso. Era difícil conseguir entender tudo isso, afinal, tinha uma família linda, uma esposa fiel e que me amava, não tínhamos problemas nenhum, uma filha que era minha maior alegria e diversão.

Infelizmente, perdi meu emprego no começo do ano passado por conta da pandemia e isso foi um baque forte para mim. Conseguimos sobreviver com o seguro e a rescisão que foi paga tudo direitinho. O auxílio emergencial também ajudou bastante e fomos gastando somente com o necessário, mas já se passou um ano e ainda não consegui algo, o dinheiro já está chegando a sua fase final e algo dentro de mim está cada vez mais apertado.

“Você sabe que pode contar comigo para o que você precisar, não se esqueça disso. Mas, cara, temos que ser realistas, nada está dando certo e você sabe o que tem que fazer.” Por mais que eu discordasse dele, começava a cogitar na ideia de que ele está certo. Mas o que ele optava era radical demais para mim, por mais que parecesse uma boa solução.

As noites começaram a parecer um inferno, com toda a falta de sono e pensamentos negativos de que nada daria certo e só pioraram ainda mais. Fiquei alguns meses sem conseguir dormir direito, e agora parece que está piorando gradativamente. Gritos agudos ecoavam em minha mente nos momentos em que estava só, gritos que vinham diretamente dos pensamentos que norteavam para uma direção sombria e tenebrosa.

Minha esposa fazia alguns bicos para ajudar no orçamento, mas era algo que não estava suprimindo o bastante. Procurei emprego por meses e a única coisa que encontrava era somente promessas de que uma hora iriam me ligar, mas nada acontecia, eram apenas promessas. “Tudo vai melhorar”, “Tudo vai ficar bem”, “Tenha fé”, era o que minha esposa falava com frequência para mim, mas já estava cansado disso, dessas promessas que não se cumpriam.

Enquanto me afundava em um poço de escuridão e medo cada vez mais, ele vinha para me acalentar e confortar nas noites de trevas e insônia. “Cara, é sério, deixa de sofrer, deixa de está passando por essa loucura toda, deixa de está se martirizando, tenta entender que a partir desse momento as coisas só irão desalinhar.” Ele dizia. "Belo jeito esse de me ajudar não acha?", eu retrucava. “Só estou sendo realista", ele dizia.

Talvez ele tivesse razão. Em uma noite, vendo que nada mais daria certo, escrevi uma carta para minha esposa ler ao amanhecer, abri a porta e fui para a ponte da cidade e, segurando a mão dele, pulamos juntos para o abraço gélido da morte. Ali eu acabei minhas angústias, minhas dores, meu sofrimento e finalmente senti a paz que costumeiramente sentia antes de tudo isso acontecer comigo. A depressão apareceu para mim como um amigo, e era isso que eu precisava realmente, pois os verdadeiros amigos sumiram assim que perdi meu trabalho. Ela me aconselhou a seguir em frente, mas quando ela mesmo viu que não dava mais, me aconselhou a acabar com toda a dor, pois é somente isso que uma pessoa com depressão procura, um fim para a sua dor; e ela vem, com uma túnica negra e foice na mão.

Assim que segurei a mão da depressão e pulamos, ela me abraçou e disse: “Eu disse que estaria com você até o fim.”