Tic tac.

Quando o relógio bate às 6:00, o despertador toca anunciando o início de mais uma segunda-feira. Giulia abre os olhos, mas lembra-se de que, enfim, está de férias e pode dormir o quanto quiser. Mas Gabriel, seu namorado, não está e parece não se preocupar, pois ainda dorme um sono pesado. Então, Giulia gira e joga o peso de seu corpo afim de acordá-lo. Decide dormir novamente apenas depois que ele sair para o trabalho.

Enquanto Gabriel se levanta e se arruma para o trabalho, Giulia decide preparar o café da manhã. Dirige-se para a cozinha, coloca a cafeteira para funcionar, pega umas fatias de pão de forma e coloca na torradeira. Logo em seguida, surge na bancada da cozinha um Gabriel perfeitamente arrumado e já pegando sua caneca de café. Trocam meias palavras, já que ela não costuma falar quando acorda. Ele já aprendeu a respeitar esse momento. Preparar o café da manhã foi um ato de amor, mas não precisa ser seguido de uma longa conversa, não a essa hora. Ao término da refeição, ele dá um beijo em Giulia e sai para o trabalho fechando a porta às suas costas.

Na sala, o celular de Giulia apita indicando que chegou uma nova mensagem. Ela sabe que é de Gabriel. Esse é um costume entre eles, todos os dias, quem sai primeiro manda uma mensagem para quem ficou. E, se saem juntos, avisam quando chegam ao seu destino. Pega o celular e checa a mensagem do dia. Lhe soa estranho:

Bom dia, amor! Aproveite o primeiro dia de férias.

Mais tarde estou de volta.

Só me faça um favor: não saia de casa e não abra a porta!

Estou com um pressentimento ruim.

Te amo!

Giulia achou estranha essa história de pressentimento ruim, mas como não tinha planos e o tempo estava chuvoso, ficaria em casa mesmo. Decidiu que ao invés de voltar para a cama, ligaria a televisão em qualquer coisa que não exigisse muita atenção e ali mesmo pegaria no sono. Trouxe o cobertor, colocou o celular e o carregador ao lado, pegou uma das almofadas e se aconchegou no sofá.

A campainha tocou. Ela não estava esperando por visitas e não poderia ser Gabriel. Pela hora já deveria estar longe, mas ainda que fosse, ele tem as chaves de casa e não havia esquecido no aparador como já acontecera algumas repetidas vezes. Levantou e arrastou os pés até a porta. De pronto, a mensagem do namorado lhe veio à cabeça. Decidiu checar o olho mágico primeiro. Não havia ninguém. Não era possível que as crianças estavam realmente fazendo isso na porta dela.

Retornou para o sofá e o toque da campainha ainda se repetiu por umas três vezes mais, até que Giulia resolveu não levantar mais. Continuou vendo televisão e acabou caindo em um sono profundo. Sonhou que estava em casa, em um dia qualquer e que recebeu visitas que bateram à sua porta. Toc. Toc. Toc.

Num sobressalto, a mulher despertou do sofá e deu-se conta que, de fato, tinha alguém batendo em sua porta. Não quis acreditar que novamente seriam as crianças testando sua paciência. Levantou-se e foi até à porta minimizando qualquer barulho que pudesse espantá-los. Checou pelo olho mágico e viu apenas o topo de uma cabeça.

Sem abrir a porta, perguntou quem era e não obteve resposta. Mas o topo da cabeça continuava visível aos seus olhos. Perguntou novamente. Silêncio. Resmungou meia dúzia de palavrões e esbravejou para que não fosse novamente incomodada. Retornou ao sofá. Como já havia despertado, preferiu escolher uma das séries que acompanha para assistir. Passava um pouco das onze da manhã e logo levantaria para fazer alguma coisa para comer.

Toc. Toc.

Toc. Toc Toc Toc.

Se fossem novamente aquelas crianças, Giulia procuraria por seus pais e teria uma conversa séria. Novamente, espiou através do olho magico e apenas o topo da cabecinha de cabelos loiros daquele pequeno ser estava visível. Giulia perguntou o nome. Nada. Giulia perguntou o que queria. Nada. Nenhuma resposta.

Uma sucessão de “nadas” com uma cabeça aparecendo claramente sob o local que seus olhos podiam alcançar. Não é possível que aquela criança tenha conseguido permanecer imóvel por todo esse tempo.

A todo instante, Giulia apenas lembrava da recomendação de Gabriel para que não abrisse a porta, mas isso estava indo contra seu instinto de tomar satisfação com aquele pequeno pestinha que estava testando, incansavelmente, sua paciência. Colocou a mão na maçaneta e virou a chave. Entorpecida pelas palavras de seu namorado, tornou a trancar. Não iria ceder, pelo menos não hoje.

Foi à cozinha tentar preparar alguma coisa para almoçar e, mais uma vez, foi interrompida pelas batidas na sua porta. Revirou os olhos, cerrou os punhos e bateu sobre a bancada da cozinha. Estava decidida a não deixar passar. Os cabelos loiros continuavam lá. Não podia ser.

Desta vez, destrancou a porta, confirmou que a criança não havia corrido e abriu pronta para dar uma bronca. Não havia criança nenhuma. O corredor estava vazio. Ao olhar para baixo, Giulia perdeu o ar e não conseguiu proferir o grito preso na garganta. A cabeça de Gabriel, com seus cabelos loiros, estava dentro de uma caixa de presente aberta e endereçada à ela.

O celular apitou na sala e Giulia correu para pedir ajuda. Havia uma mensagem nova. De Gabriel.

Eu pedi para que não abrisse a porta.

Não queria que visse isto.

Desculpe, amor.

Gabriel