Decerto, não; mas era a Morte, a Morte implacável e onipotente, de que ela também se sentia escrava, e que não deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemitério.” (A Nova Califórnia, Lima Barreto)

Escutei todo o relato com uma certa desconfiança. Já havia ouvido outras baboseiras parecidas, de amigos mais próximos, e aquele homem simples estava longe de ser uma alma sóbria. Trabalhava como porteiro há vinte e três anos, sempre no mesmo edifício, sobrevivendo a síndicos e moradores, e continha a aparência que lhe cabia na profissão. Entre os tradicionais “bom dia” e “boa noite”, que eu constantemente depositava em minha conta de morador educado, já havia arriscado comentar sobre futebol. Depois que descobri que aquele sujeito engravatado, com uma barba rala, sabia toda a tabela do Campeonato Brasileiro, passei a perguntar sobre futuros jogos e assim estabeleci uma amizade tênue.

Desde que mudei para a Rua da Represa, em São Bernardo do Campo, ele se tornou meu único confidente. Foi com essa perspectiva amigável que resolvi mudar o tema da conversa cotidiana:

— Duarte, posso lhe fazer uma pergunta estranha? — arrisquei, já sabendo que ele responderia a ela sem desviar os olhos do monitor de segurança.

— Pode, amigo. Mas se apresse que meu estômago está começando a reclamar. — a resposta veio com o linguajar docemente caipira de todos os dias, de um homem que não havia completado a quarta série.

— Olha...sei que você vive nesse condomínio há séculos. — fiz uma pequena pausa para que ele abrisse o portão para uma adolescente e seu Chihuahua. O cão me cumprimentou com um rosnar que julguei simpático, embora soubesse que a intenção era outra. — Você conhece alguma história esquisita sobre esse edifício?

— Aqui acontece de tudo, rapaz. Brigas, tiroteio, faca no pescoço...e até pedofilia.

— Imagino que sim. O que eu quero saber é se houve algo assustador mesmo, envolvendo alguém que tenha visto uma assombração no elevador por exemplo.

Duarte desviou o olhar para mim. Só havia feito isso uma única vez antes, quando eu fiz uma brincadeira sobre porteiros serem facilmente traídos porque vivem abrindo as portas para os amantes que abrem as pernas de suas donas.

— Não conheço nada. Quer dizer...não exatamente aqui no prédio.

— No bairro? Vim da Vila Carioca, uma espécie de universo paralelo para forças ocultas. Não sabia que o Rudge Ramos também escondia monstros.

— Posso contar uma história que tirará seu sono. Mas, você terá que vir depois do expediente, à meia-noite. Pode ser?

Pensei um pouco antes de responder. Usei o tempo de saída de um casal de idosos pela porta metálica para me lembrar dos meus compromissos noturnos. Sem nada de especial, fiz uma contraoferta, sugerindo uma reunião na sexta-feira. Ele topou desde que eu aceitasse pagar uma “breja” em um barzinho na Estrada das Lágrimas.

Concordei com a perspectiva de arrecadar mais histórias para meu livro de terror. Já tenho doze contos escritos para a antologia que planejo há seis meses, restando apenas um para completar a quantidade sugerida pelo editor. O último, “O Homem de Cócoras”, havia nascido de um caso relatado pela amiga de uma amiga minha, que narrou um episódio trágico ocorrido no antigo Edifício Joelma, envolvendo o suicídio de um rapaz.

Esperei pacientemente pela hora combinada, quando a noite cobriu o céu alaranjado de São Paulo. Por volta das 23h50, desci até a portaria na espera por Duarte. Houve um longo atraso. Ele só aparecera quando eu já estava voltando para o elevador, levemente irritado pela desfeita.

— Desculpa, amigo. A moradora do sétimo, a tal Das Dores, pediu que eu a visitasse para trocar o chuveiro. Ela me ofereceu 50 pratas.

— Tudo bem! Se a sua história realmente valer a pena, o tempo de espera não terá sido em vão.

Caminhamos lentamente pela Estrada das Lágrimas, quando o santo do ABC já era outro, notando a redução dos veículos que vinham nas duas direções. Assim que encontramos um espaço na mesa externa do Bar do Tinhoso — sim, esse era o nome do lugar maldito —, ele começou a expor seu relato lentamente, entre idas e vindas do copo até a boca que exibia uma dentição amarelada.

— Não sei se você sabe, mas aqui, diante de nós, há dois cemitérios. Um ao lado do outro, como se fossem irmãos, embora os donos sejam distintos.

— Sim, já notei. Deve ser uma concorrência agressiva na disputa por corpos.

— Com certeza. Dizem por aí que cada pedaço de terra pertenceu a uma família diferente e que elas realmente brigavam todos os dias. Houve até assassinato, traição e mentiras como na obra daquele ator famoso.

— William Shakespeare! Ele era mais do que isso, mas pode continuar.

— Devia ser. No prédio onde você mora, havia um jovem que vivia com sua motocicleta para cima e para baixo. Ele corria muito. Eu sabia que ele se aproximava do prédio mesmo estando bem distante na Dr. Rudge Ramos. Edson era o nome dele. Rapaz bonito, com boa dentição.

— Você era apaixonado por ele? — não resisti em brincar, mesmo sabendo como Duarte reagia a brincadeiras.

— Eu não. Mas aqui em São Caetano, tinha uma menina que era. Fabíola. Parece que se conheceram em um barzinho como este onde estamos. Logo se apaixonaram. Logo já estavam fazendo promessas de viagens e casamento. Era bonito de se ver. Andavam grudados na moto, atravessando o ABC em busca de lugares românticos para ficarem juntos.

— Estou quase indo às lágrimas.

— Você talvez não. Os pais dela, sim. Eles não aceitavam o relacionamento de Fabíola e sempre brigavam com ela, ameaçando até se mudarem daqui para o interior. Edson disse uma vez para mim que se isso estivesse em vias de acontecer, ambos iriam se matar juntos.

— Não pensaram em simplesmente fugir?

— Fizeram isso uma vez. Chegaram até o litoral norte, onde se esconderam por vinte dias. Quando o dinheiro acabou, não houve alternativa e tiveram que retornar “com o rabo entre as pernas”, como disse o pai dela, Seu Vicente. Cara ruim.

— E então se mataram?

— Não. Eles sofreram um acidente naquela mureta ali, da entrada do Cemitério das Lágrimas. – Duarte apontou para um grande portão de aço preso a dois muros grossos.

— Nossa! Alguém viu como aconteceu?

— Daqui desse barzinho é possível ver qualquer movimento. Eram três horas da manhã em ponto. Sabe? A conhecida “Hora do Diabo”. — concordei com a cabeça, sentindo um leve arrepio na nuca — Ele vinha muito rápido, quando perdeu o controle do veículo.

— Morreram na hora?

— Ele, sim. Arrebentou a cabeça no portão, ficando completamente desfigurado com pequenos tremores pelo corpo já sem vida. Seu crânio estava aberto como uma panela sem a tampa, com o cérebro despejado pelo asfalto. Ela teve fraturas expostas nas duas pernas, e ainda o rosto todo rasgado. Sangrava muito, mas se arrastou lentamente pela calçada em direção ao amado para o abraço da morte.

— Esses detalhes...você descobriu como?

— O acidente foi noticiado no Diário do Grande ABC e teve bastante repercussão. Até mesmo é possível ler um depoimento meu, um dos poucos presentes no dia da tragédia. A foto não está muito boa...

— Você estava aqui? — falei enquanto ele me entregava um exemplar mal dobrado do jornal.

— Que horas são, amigo?

— Duas e quarenta. Nem vi a hora passar.

— Depois que houve toda aquela briga entre os familiares, com acusações em busca de culpados, os jovens foram enterrados aqui em São Caetano mesmo, mas cada um ocupou um cemitério diferente. Era a maneira que o Seu Vicente encontrou de mantê-los separados. No entanto, almas gêmeas não podem ser separadas, mesmo depois da morte. Assim, nasceu uma Lenda Urbana que poucas pessoas tentaram testá-la, com medo que realmente fosse verdade.

— Qual é a Lenda?

Duarte engoliu o último gole da cerveja, passando a língua sobre o lábio superior, e continuou:

— Qualquer pessoa que passar por aqui exatamente às três da manhã irá ouvir o som da moto do Edson se aproximando. Porém, não verá motocicleta alguma, apenas o som do espírito errante do rapaz na procura eterna por Fabíola. E se você passar de moto sozinho...você sente uma pessoa te abraçando por trás no trajeto como um passageiro invisível. É a Fabíola que também procura o seu amado com seu abraço mortal. Em todos os casos, você não deve olhar para trás ou terá um destino pior do que a morte.

— Bom, adorei o relato, Duarte. Vou ao banheiro e já volto para irmos embora. – Boa história, mas não a colocaria no livro. Muito romântica, com pouco sustos.

Assim que deixei a portinhola de acesso ao pequeno toalete, procurei Duarte e não o encontrei. Perguntei ao barman e ele disse que nem havia reparado na minha companhia, como se eu tivesse chegado ao local sozinho.

Devem ter combinado tudo. Ele deve estar escondido no balcão, rindo da minha inocência.

 Voltei a pé pela Estrada das Lágrimas, sentindo um frio cortante sobre a minha face. A noite parecia mais fria do que antes, principalmente quando eu olhei para trás e o barzinho já estava com as portas fechadas, luzes apagadas. Nem um bêbado sequer para me acompanhar até São Bernardo, tornando tudo ainda mais complicado.

Ouvi um som agudo de uma moto se aproximando por trás. Olhei no relógio do celular, com a indicação da hora maldita. Deve ser parte da brincadeira. O dono do bar deve ter emprestado a moto para encerrar a noite com os meus arrepios.

O som, agressivo como um lobo uivando, aumentava, dando indícios que o veículo parecia cada vez mais perto. Olhei para trás para mostrar aos engraçadinhos que não temia o relato que inventaram. Não havia nada, apenas o barulho irritante. Quando voltei o rosto para frente, vi um espectro branco, se arrastando na minha direção com as pernas destruídas, com os braços esticados e a expressão de dor fria. Gritei alto, com a minha voz se confundindo com as lamúrias da moto fantasma, e corri para o meio da rua, não notando um velho caminhão que viera como um demônio para me abraçar e partir meu corpo ao meio, deixando partes de mim em cada um dos cemitérios.