Desde criança, sentia arrepios ao olhar para aquele quadro bizarro que meu avô exibia na parede da sala. A paisagem soturna que ele criara se destacava de seus demais quadros devido a um aspecto, no mínimo, sinistro: uma floresta com várias crianças enforcadas em árvores e uma entidade maligna com olhos vermelhos e pele cinza que encarava o espectador. As crianças tinham suas cabeças tombadas para a frente, de modo que não era possível ver seus rostos, mas a entidade era bem visível e pavorosa. Segundo ele, o motivo que o levara a pintar tamanha aberração era o fato de ter contínuos pesadelos com essa paisagem macabra. E a verdade é que o incômodo que a visão daquele quadro me causava acompanhou-me durante muito tempo.

Meu avô era um artista completo: pintava, esculpia, escrevia, além de gostar de tocar piano. Não era famoso, mas seus talentos proporcionaram que comprasse a propriedade onde ainda vivia, no campo. Ficara viúvo há mais de 10 anos, quando minha querida avó – que Deus a tenha – morreu de pneumonia. Meu pai não era de frequentar muito a propriedade, e talvez eu fosse o mais assíduo em vê-lo.

Lembro das lendas que ele me contava de cemitérios indígenas, de cultos pagãos com sacrifício de crianças, dentre outros artifícios que ele usava para me deixar assustado.

E conseguia, até porque eram detalhes confirmados por muitas pessoas que conheciam aquela região isolada. Chegaram até me dizer que aquela antiga propriedade, em outros tempos, pertencera a uma família que fazia parte de uma seita sinistra que realizava tais rituais citados pelo meu avô. Se era realmente verdade, não sabia. Mas aquilo me deixava com calafrios.

Não vou dizer que já havia me deparado com coisas sobrenaturais na casa.

Realmente não havia. Nada de vultos, vozes ou coisas do tipo. Na verdade, a única coisa intrigante até então, é que costumava ter alguns pesadelos por lá. Mas até aí tudo bem, é normal crianças terem pesadelos às vezes. O curioso é que não lembro de ter pesadelos na casa de meus pais ou quando dormia em algum amigo. Sempre no meu avô.

Durante muitos anos o visitei durante minhas férias escolares, e depois de atingir a fase adulta, passei a visitá-lo cada vez menos. Trocávamos algumas cartas, é verdade, mas o contato físico era praticamente nulo. Nas últimas cartas que recebi, ele era enfático em relatar o retorno de pesadelos estranhos que o incomodava cada vez mais, além de acontecimentos estranhos que observava em sua casa no campo, como vozes, arranhões nas paredes, dentre outros tipos de coisas insólitas. Para falar a verdade, eu atribuía tudo isso a dois fatos: a idade avançada (ele estava agora com 75 anos) e o fato de morar sozinho em um lugar tão isolado. Com certeza, esses dois fatos juntos contribuiriam para uma perturbação mental sutil. Mesmo assim, aqueles relatos estranhos começaram a me preocupar.

Certo dia, resolvi fazer uma visita surpresa ao meu avô. Era uma manhã fria de junho, e eu me levantara cedo para o referido encontro.

Segui pela estrada, admirando a paisagem ao redor, enquanto dirigia. Pinheiros e ciprestes por todos os lados. Já fazia um certo tempo que não fazia aquele trajeto. Como era bom estar conectado à natureza (apesar de que para morar isolado, haveria muitas dificuldades que talvez tirassem um pouco do brilho).

E então, aos poucos fui avistando a casa de meu avô.

Chegando à propriedade, estacionei meu carro. Olhei ao redor. Tudo calmo e tranquilo.

Fui até a porta da frente e bati.

Nenhuma resposta.

Levantei a voz, chamando-o.

Nada. Tudo estava absolutamente quieto. Achando aquilo muito estranho, resolvi dar a volta pela propriedade, para ter acesso à porta dos fundos da casa. Toda aquela quietude estava começando a dar nos nervos.

E então, o choque. Tive um espanto terrível ao encontrar meu avô pendurado pelo pescoço em uma árvore sinuosa que ficava em seu quintal...

A porta da cozinha estava aberta, e com o horror daquela cena, inexplicavelmente, apenas corri para dentro da casa. Estava completamente chocado e assustado. Quando menos percebi, já estava sentado na velha poltrona da sala, com as mãos no rosto, abismado.

Lembrando daquela visão horrenda do meu avô pendurado, foi automático me lembrar daquele quadro horrível de sua sala, e levantei os olhos para vislumbrá-lo mais uma vez.

Prendi a respiração.

Um novo detalhe, que com certeza não havia lá nas muitas vezes que o observei, me causou terror: os cadáveres enforcados no quadro, que antes tinham as cabeças tombadas pra frente, agora estavam todos sorrindo de olhos abertos para mim... E a funesta entidade de olhos vermelhos, antes de semblante fechado, agora sorria.

Antes de perder a consciência e desmaiar, pude sentir algo próximo de mim, uma respiração perto da minha nuca... Ao me virar, tudo o que vi foi um rosto cinza e olhos cor de fogo, com uma bocarra que gritava:

– Minha casa!

Não lembro de mais nada depois disso.