Havia um ser em terras europeias cujo somente o nome já causava tremores abismais; um ser de pele gélida e estranhamente pálida, de idade quase incalculável até mesmo para os doutores mais dotados de intelecto. Em toda sua história secular, poucos olhos teriam o avistado, ainda menos teriam sobrevivido para relatar. Certos boatos afirmam que um dos primeiros pares de olhos privilegiados a testemunhar tal existência pertenceriam ao excelentíssimo Rei D. Pedro II, o Pacífico.

O soberano e sua família haviam mergulhado no mais profundo luto desde a morte do pequeno João, infante que já carregava não somente a nobreza em seu nome como as expectativas exageradas desde o berço. As noites que se seguiram após o passamento de seu filho consumiram-no pouco a pouco, o peso da morte traduzia-se em fracasso, assombrava sua mente; vez ou outra, ouvia o choro incontrolável de um bebê ecoando entre as paredes, chegavam a seus ouvidos na potência de um ruído quase inteligível, mas ele o ouvia e o sentia transpassar por seu corpo.

Era a loucura batendo-lhe a porta, ele sentia isso.

Passaram-se poucas semanas até que os boatos do suposto demônio chegaram a seu conhecimento; não fosse um amigo da guarda, por quem mantinha uma curiosa afeição, talvez jamais tivesse cruzado com a suposta besta, mas a história da menina renascida após sucumbir à uma doença desconhecida ganhou-lhe a atenção.

A pequena Maria não resistira às convulsões, a febre lhe tomava e as poucas palavras que sabia não conseguia pronunciar. A menina não resistiu e morrera nos auge de seus sete anos. Enquanto os pais rezavam, hesitavam, faziam os preparativos e rezavam mais um pouco, o demônio adentrava à janela em curtos passos; o corpo magro e esguio parecia mergulhar entre o cintilar das velas, a sombra erguia-se sobre o corpo frágil misturando-se a noite que espiava entre as tábuas. Os pais encontraram-na horas depois, acordando a vizinhança inteira em pleno começo de madrugada com um grito desesperado; os olhos da mãe vidrados sobre a cama tingida de vermelho, o pescoço aberto pulsava, tremendo em harmonia com o resto do corpo, mas, apesar da visão aterradora, a menina respirava — puxava o ar com dificuldade, mas o pulso estava lá, para espanto de todos que contavam a história.

Não demorou muito para as opiniões se dividirem e a família precisar ir embora por acusações ilícitas de feitiçaria. Quase ninguém tinha coragem de olhá-los diretamente, mas para o Rei aquilo soou como uma esperança. Convocou o maior número de homens que conseguiu, passou a incitar o povo a encontrar o tal demônio, dando início as caçadas que se perduraram por meses.

Semanas passaram até que aquela madrugada esperada enfim chegou. As paisagens encobertas pela névoa castigavam a visão dos homens que se embreavam àquelas horas entre os matos; nem todos mantinham-se fiéis às ordens do rei; uns pensavam na recompensa prometida, outros nas honrarias e haviam aqueles que apenas reclamavam por estar ali pressionados pelas esposas e amigos mais insistentes, mas apesar de tudo mantinham-se firmes na caçada.

Mesmo munidos de tochas, eles sequer conseguiam impedir a friagem de congela-los lentamente, tampouco a luz branda do fogo conseguia iluminar o caminho diante da vastidão da noite; o silêncio era marcado por passos hesitantes, quando de súbito todos se estremeceram em um sobressalto repentino causado pelos relinchos abafados que varavam o bosque. Aproximaram-se com cuidado, dessa vez congelados não somente pelo frio, mas também por uma intuição assustadora que percorria suas veias. Percorreram os olhos sob o terreno, atentando-se à um pequeno estábulo de onde pareciam sair os ruídos, os relinchos já haviam cessado, mas haviam uns estalos esquisitos ecoando sob as madeiras, instigando a curiosidade de três dos bravos homens. A imagem grotesca com a qual se depararam arrebatou-lhes a alma: um homem esquelético grudado ao corpo de um cavalo, arrancando-lhe a carne dos ossos, o sangue escorria pelos cantos de sua boca desfigurada; os dentes afiados cravavam-se a barriga do animal, partindo-lhe sem piedade.

Dois tiros não o detiveram. Ainda que a figura decrépita lembrasse um esqueleto regurgitado de seu sepulcro, a rapidez do monstro se mostrou superior; encolhera-se rápido, escondendo-se contra as paredes. Quando o homem à frente do grupo adentrou o local, tomado por uma curiosidade mórbida, um voo repentino em sua garganta alarmou os companheiros; o demônio grudara-se em seu pescoço, inebriando-se de um sangue diferente, mais humano. Observando em choque os movimentos violentos daquele ser, o grupo conteve-se; em desespero, um dos homens que se mantinha atrás do grupo não hesitou, jogando sua tocha em direção ao corpo pútrido que se alimentava. O monstro recuou novamente, desta vez exibindo sob a luz das chamas seus olhos avermelhados, cujas íris ostentavam um vazio incolor, inumano. O fogo se espalhara pela madeira, consumindo as paredes.

Um dos sujeitos, até então petrificados ainda engolindo a perda do conhecido, pressentiu a agitação da criatura, retirando da bolsa um crucifixo e alçando ao seu rosto assim que se aproximou; ela petrificou-se, os olhos pareciam presos ao objeto, permanecia ofegante... a coluna estalava... até que a voz rouca se manifestou:

O príncipe não regressará... — proferiu, como se arrancasse a voz do fundo de um baú empoeirado, enterrado sobre os corpos de uma vida inteira.

Caiu, ajoelhando-se. Os homens, confusos, apressaram-se, atirando-se ao local empunhando suas cordas, laçando-o pelo pescoço tal qual um animal; os restos do cavalo, aberto aos vermes, assistia ao sucesso da caçada.

O incidente daquela noite passou a ser contado e recontado, narrado de diversos jeitos e com riquezas de detalhes muitas vezes inventados, mas o que nunca mudava era o pavor que a história do demônio de Lisboa era capaz de incitar.

Enquanto a caçada se estendia, o Rei mandara cavar uma pequena masmorra isolada nos bosques, o mais distante possível da cidade. Construída no improviso, com pedras enormes advindas de outras construções, o ambiente foi pensado exclusivamente para um único prisioneiro; o ser responsável tanto pelo milagre do renascimento quanto pelas mortes assombrosas de milhares de animais.

A criatura fora posta atrás enormes grades, contida por pesadas correntes que mantinham unidas não somente suas mãos como os pés – cada qual acorrentado também à uma de suas mãos; uma única corrente, mais curta, o mantinha preso à parede pelo pescoço. A comida lhe era arremessada por uma abertura minúscula cavada no chão. Durante o dia, dois guardas se mantinham presente, observando-o dormir, sem contar os quatro no lado de fora que nem desejavam entrar.

Já havia caído a noite quando o Rei chegara à masmorra, acompanhado pela ilustre presença de um padre local, um tal Antônio José de Queiróz que o procurou no dia anterior assim que soube da captura. “O demônio não se estabelecerá!”, pregava visceralmente às paredes da casa real, numa energia impressionante.

Assim que adentraram o corredor, um arrepio lhes invadiu a alma.

Até aquele momento, a pequena Maria permanecia dormindo. Os pais eram camponeses, mas as energias para o trabalho já não mais existiam desde que a menina entrara em sono profundo. Todos os dias tentavam apaziguar a febre, a doença ainda habitava seu corpo, ainda que respirasse normalmente; o rosto angelical já havia ganhado certa cor, mesmo não alimentando-se; vez ou outra a mãe levava-lhe alguma sopa e tentava fazê-la comer, sem sucesso.

Naquela noite ela esquentava os restos para mais uma tentativa, quanto ouvira a filha tossindo no quarto. Ela correu desesperada, chegando à porta e deparou-se com uma poça de sangue ao lado da cama, bem em frente a porta, onde pousava um pequeno pássaro morto; a filha agachada diante da janela (um alívio! pensou). Aproximou-se afobada, imaginando o pior, mas não aquele pior: a menina virou-se, a boca ensanguentada se desfigurou a tal ponto que os dentes pareciam saltar das gengivas; num sobressalto, ela fitou-lhe os olhos... avermelhados e vazios.

Seu grito se espalhou na noite, mas logo só o silêncio dominou.

Quando os olhos se abriram, a claridade não era muita. Seus olhos não estavam mais vermelhos, ele não sentia mais a fúria da sede lhe castigando, mas, apesar da inutilidade dos mesmos, ele conseguia sentir o lugar; o ambiente estranhamente úmido, a escuridão moldada à luz das tochas que ornavam a masmorra e, não menos importante, a ilustre presença que o observava.

O Rei manteve-se de pé durante um longo tempo, mesmo com as intervenções do padre em tentar acordá-lo. Quando enfim acordou, um susto repentino: a batida aguda de um caneco arremessado contra a grade quase lhe tira o ar.

— Tu mataste um homem hoje... — iniciou o Rei, com cuidado, num tom razoavelmente agressivo, o padre arregalou os olhos e passou a rezar silenciosamente; em nada lembrava o homem enérgico da pegação. — Acredito que um de muitos outros, estou errado?

Alguns grunhidos apenas. O Rei mantivera-se firme, mas a ansiedade e impaciência o dominaram; puxou uma das tochas próximas à um dos guardas e aproximou-se, iluminando o interior da cela; os olhos o chocaram. Uma hesitação foi brevemente percebida em sua voz, quase gaguejando por um instante.

— Responda ao Rei! — praguejou o padre, resgatando a energia divina.

— O que fez com a menina? Foi bruxaria? — o Rei insistia.

— Foi sacrifício! O demônio o ordenou!

A criatura agitou-se; balançou as correntes a as tochas apagaram-se.

O Rei sentiu-se gelar, tal como o padre que agora rezava desesperadamente.

— Vocês falam muito sobre o demônio — a rouquidão prevaleceu no ambiente, atravessava as grades num arrastar sonoro que pesava aos ouvidos do Rei. Havia um sotaque diferente em suas palavras. — De onde eu venho, o seu demônio não chega.

— E de onde seria? — perguntou o padre, imóvel.

— Sou de um vilarejo destruído há sete décadas... — começou, a voz oscilava conforme as palavras tentavam escapar. — Devorado pela ganancia de um monstro perverso que acreditava ser iluminado. Um homem a quem todos confiavam e idolatravam, tornando-se divindade aos seus olhos... um oráculo. Ele desafiou a natureza, dera as costas aos deuses ansiando por algo maior, algo ruim.

— Produzir a vida? — perguntou o Rei, interessado. O padre observava a situação com estranheza, continha seus receios. D. Pedro aproximou-se das grades, ajoelhando-se, para fascínio de Antônio. A criatura prosseguiu:

— Ele não sabia... — quase engasgou, a voz embargava-se à medida que as lembranças lhe voltavam. — Ele não sabia que tudo o que arrancava da natureza, teria de faltar em outro lugar. Coloquei-me no limiar da vida, entre a matéria e o espírito, na tentativa de evocar a divindade da criação; entreguei-me a eles.

O Rei perdera-se em devaneios, lembrara-se do filho, do fracasso, das tentativas que se acumulavam sem sucesso, da falta de um primogênito. Um sucessor.

— Mas é possível? — perguntou, agitado. — Invocar a vida?

Para espanto do Rei, o padre puxa-lhe pra longe, o repreendendo; o olhar de D. Pedro mantinha-se entre as grades, mais precisamente no olhar da criatura que agora arranhava as próprias mãos; a sede começava a voltar.

— Tu conheces o preço de uma vida? — provocou a criatura.

O Rei deu de ombros, ignorando as advertências de Padre Antônio.

— Não vale a pena... — prosseguiu, a rouquidão aumentava conforme a sede se manifestava. — Cada vida traz consigo um banho de sangue, uma sede insaciável capaz de destroçar até a alma dos mais puros; uma conta que nunca será paga.

— Diga-me como? — suplicou D. Pedro, numa última tentativa.

— Ofereça-te aos mortos — disse secamente.

O olhar de D. Pedro petrificou-se.

Guiado pelos mais íntimos desejos, o Rei estendera o braço para dentro da cela, aproximando-o do monstro que, numa mordida certeira, cravou-lhe os dentes.

As lágrimas caíam e tudo mais se esvaia.

Poucos meses depois, nascera o pequeno magnânimo.

Tais eventos nunca puderam ser confirmados, apesar dos boatos se perpetuarem mais e mais durante os anos seguintes. Alguns afirmam que em seus últimos anos, D. Pedro passara por crises violentas de sonolência, embora ninguém nunca soubesse exatamente o que fazia durante a noite.