Não sei ao certo como tudo começou, como devo iniciar essa narrativa, ou mesmo se o leitor acreditará em mim ou não. Entretanto, preciso registrar minhas versões dos fatos por mais inverossímeis que possam parecer.

A solidão dessa cela em que me encontro, preso injustamente (por mais que não acreditem na minha inocência), me faz ansiar por atenção para que entendam os eventos surreais que ocorreram e que me levaram à minha ruína atual. O único crime que cometi, vocês perceberão, foi subestimar o lado mais vil de forças misteriosas que a razão humana ainda tem dificuldades de compreender. O resto foi consequência de minhas decisões, mas reitero aqui minha inocência quanto ao crime sórdido do qual fui acusado.

Depois de muitas súplicas, permitiram que eu tivesse papel e caneta para escrever essa carta, a fim de entregá-la aos meus parentes e solicitar que publicassem-na nos jornais para que minha versão fosse conhecida por todos. E eu aqui a exponho.

Acho que tudo se iniciou com aquele livro que encontramos no sótão. Tínhamos acabado de nos mudar, minha esposa Wendy e eu, para a nossa nova casa, a qual fora comprada com alguns itens de mobília inclusos. Como todo novo morador de uma casa enorme e antiga, fomos bisbilhotar mais a fundo os mistérios que continham naqueles espaços, os quais foram vistos de forma superficial na época da visita para sondagem da compra. Como disse anteriormente, em meio a vários objetos antigos e empoeirados encontramos um livro curioso. Era uma edição muito antiga, parecendo ser do século passado, com gravuras mostrando coisas bizarras semelhantes a rituais ocultos, os quais podem causar repulsa ao menor detalhe sobre eles. O livro tinha uma capa de acabamento de couro, e, além das letras e gravuras impressas, algumas anotações haviam sido feitas pelo antigo dono. Pelo teor de algumas palavras que li rapidamente, vi que se tratava de invocações satânicas. Em sua capa, em letras graúdas, jazia o título:

NYKTERINUS – LIVRO DOS PESADELOS.

Mostrei minha descoberta a Wendy, que logo demonstrou total repulsa quanto ao objeto em questão. Pediu que eu me livrasse daquilo, mas como um bom apreciador de livros antigos, fiquei instigado a investigar um pouco mais aquele exemplar.

Passava horas a fio lendo e relendo os detalhes sombrios de rituais, bem como as descrições de entidades malignas, dentre as quais uma ganhava o maior destaque: um ser conhecido em certas línguas por Yeḥilimi Ganēni, uma espécie de demônio dos sonhos.

Cheguei até a recitar certas invocações, atendendo às condições de como e onde invocá-lo e tudo o mais, para ficar bem fidedigno. Não sei o que me motivou a fazer essas coisas, mas sentia um ímpeto de curiosidade que me fez ficar cada vez mais obcecado pelo tal livro. Me envergonho da afirmação que farei, mas a verdade é que aquele misterioso livro exercia uma forte influência sobre mim.

E então vieram os pesadelos. Eram fortes e vívidos, e eu sempre acordava encharcado de suor, algumas vezes fora de minha cama. Sim, tinha me tornado sonâmbulo! Lembro-me de certas vezes acordar na sala, na biblioteca e até mesmo no quintal de minha casa. Em uma dessas situações, recordo-me também de acordar com marcas de arranhões em meu braço, para os quais não encontrava nenhuma explicação plausível.

Algo muito estranho e tenebroso estava acontecendo, disso eu tinha certeza.

Percebia que Wendy estava também muito assustada, visto que ela também testemunhara coisas estranhas nos últimos dias. Diante disso, livrou-se do livro, ocultando de mim qual destino o dera.

Mas já era tarde demais. As forças ocultas presentes naquele livro já haviam sido despertadas e me assombravam noite após noite. E dentre esses muitos pesadelos que me acompanharam, trago em detalhes um em específico, o da noite da grande tragédia.

Eu caminhava de maneira confusa por entre a neblina. Ao meu redor, tudo estava frio e silencioso. Não me lembrava ao certo como tinha ido parar ali. Minha mente, por um instante, parecia delirar.

Aos poucos, a neblina foi se dissipando, permitindo que eu observasse melhor o lugar onde estava. Queria não ter visualizado! Descobrira, enfim, que me encontrava em um cemitério! Lápides e mais lápides se mostravam diante de meus olhos, e começara a ouvir barulhos estranhos de misteriosas criaturas da noite. O medo, então, me assaltou.

Toda aquela cena me parecia surreal.

Os meus passos, até então lentos, foram se tornando mais e mais velozes, ao ponto de me perceber correndo por entre as lápides do cemitério.

Olhara para o lado e tive a impressão de ver vários pares de olhos me fitando na escuridão. Olhos sedentos de sangue.

A paisagem em que me encontrava era sombria e nefasta. Eu estava cercado por árvores sinuosas com galhos retorcidos, parecendo garras prontas para me puxar. Nada ao redor era convidativo. Pelo contrário, tudo parecia me espreitar no intuito de me devorar por completo.

De repente, ouvi passos vindo em minha direção. Virei-me e tudo o que vi foi o vazio, mas aquela sensação de algo a me espreitar e me seguir continuava.

Retomei minha caminhada, dessa vez de forma mais lenta, como que calculando cada movimento, sem saber se aquilo era um sonho ou se era realidade. O medo me parecia tão vívido e mordaz...

Sons de uivos vindos de algum lugar naquela estranha paisagem se iniciaram, e me pus mais uma vez a parar e procurar com o olhar onde se encontrava o perigo.

Em um instante, eis que uma respiração ofegante me sobressalta e me viro para fitar uma cena grotesca: um ser monstruoso, corcunda, de rosto pálido e enrugado, de olhar sádico e esbugalhado, segurava uma mulher pelos cabelos com uma das mãos e em outra trazia um machado. Antes mesmo da cena ter seu desfecho, já pressentia o que estava por vir, pois a criatura transmitia muito bem, através do seu olhar, suas intenções torpes e macabras.

A mulher que se encontrava ajoelhada próximo da criatura demoníaca ergueu a cabeça e pude ver seu rosto: era Wendy, minha esposa! Antes que eu pudesse gritar seu nome, o ser hediondo ergueu o seu machado e desferiu um golpe rápido.

De repente, acordei sobressaltado em minha cama, ensopado de suor. Tudo havia sido apenas um pesadelo. Só mais um pesadelo dentre os vários que vinha tendo nas últimas semanas. Sempre com aquele ser macabro que parecia me perseguir a fim de causar minha insanidade e o qual não fazia ideia de quem fosse.

Por alguns segundos, apesar do susto, tive um sentimento de alívio. Mas foram só por alguns segundos, realmente, pois o que se passou a seguir me fez congelar por inteiro.

Enquanto me sentava na cama, tentando me recuperar do susto, notei uma respiração ofegante próximo dali. Tateei o lado direito da cama, onde minha mulher sempre dormia, e percebi que ela não se encontrava lá. Ao erguer os olhos para perto da porta do quarto, pude fitar algo horrendo que me observava. Aquela funesta criatura com a qual sonhei minutos antes, se encontrava bem ali na minha frente, segurando a cabeça decapitada de Wendy!

Levantei-me o mais rápido que pude para me lançar contra aquele ser asqueroso, mas, antes de conseguir agarrá-lo, ele simplesmente evaporou no ar como num passe de mágica.

Não há muito o que se falar sobre o que aconteceu depois desses eventos. Fui preso, acusado pelo assassinato de Wendy. E a minha versão sobre o velho corcunda que eu vira segurando a cabeça dela foi ridicularizada pelo júri, o qual me condenou a mofar nessa cela.

Ainda tenho alucinações com aquela imagem perturbadora. Sei que tudo isso parece insanidade, mas aconteceu. E digo e repito em letras garrafais: NÃO A MATEI!

Tendo exposto tudo isso, volto agora para minha solidão, onde conviverei com essas imagens surreais que me assolam.

Desesperadamente,
Owen Miller.
08/08/1976.

FRAGMENTO DO RELATÓRIO DO TENENTE LOUIS BENNER, DIRETOR DO PRESÍDIO ST. LOUIS EM 10/08/1976:

O presidiário Owen Miller foi encontrado morto em sua cela na manhã de hoje. Os prisioneiros das celas vizinhas disseram ter escutado gritos por parte de Owen durante a noite, como se delirasse. Às 6:25 da manhã, o carcereiro Jerry encontrou o presidiário morto, caído no chão, com o pescoço retorcido.