É, eu sei, eu não deveria ter raptado minha própria esposa daquele hospital, mas... eu precisava me redimir.

Eu sentia em meus pensamentos que ela me chamava, os ecos da voz dela em minha cabeça eram incontroláveis, ou talvez fosse apenas a culpa gritando em minha consciência. Droga! Eu fazia de tudo por ela, sempre fiz, todos sabem... ou pelo menos deveriam saber.

Agi tão inconsequentemente, mas não suportei a ideia de perdê-la e foi por isto, unicamente por causa disto que eu perdi o controle... eu sinto tanto.

Suponho que a essa altura todos já devem saber que sou herdeiro de uma fortuna deixada de meu avô para meu pai e de meu pai para mim. Eu não tenho irmãos e nem tios, nunca conheci minha avó e minha mãe suicidou-se no próprio quarto quando eu ainda era criança. Meu avô morreu de velhice e meu pai infelizmente sofreu até a morte, vítima de um câncer nos brônquios.

Eu não tinha mais ninguém além de minha esposa e por mais que eu a amasse, me sentia muito incompleto por querer uma família maior e não ter. Decidimos então que era hora de termos nossos filhos e deixar que o amor entre nós, reescrevesse o legado de nossos nomes. O problema é que por mais que tentássemos ter filhos, ela não engravidava de forma alguma. Cheguei a sugerir que tentássemos a fertilização in vitro ou quem sabe recorrer à inseminação artificial, mas relutantemente ela insistia que seria melhor o modo natural e tradicional.

Isso nunca fez nenhum sentido para mim, no entanto, eu aceitei. Então o único meio possível e lógico era fazermos sexo com frequência.

Nos primeiros dias isso até que funcionou bem e, inegavelmente, era bastante satisfatório. Porém, conforme os resultados negativos foram sendo evidenciados mês após mês, minha esposa passou a ficar um pouco distante de mim. Eu não podia desistir, mesmo que ela estivesse desanimando, mas ela me evitava muito e cada vez mais. Minha esposa que nunca foi de sair muito, principalmente sem mim... passou a sair algumas vezes por semana. Eu sempre compreensivo a esperava todas as vezes para termos nosso momento... eu ainda estava muito focado.

Conforme os dias foram passando, a situação começou a ficar chata, as expressões dela durante o sexo pareciam de alguém desconfortável, nem mesmo uma prostituta se mostraria tão desinteressada mesmo após atender inúmeros clientes em uma noite. Sempre quando terminávamos, ou melhor... quando eu terminava... ela não dizia sequer uma palavra, apenas se levantava e ia direto para o chuveiro, depois do banho ficava na sala deitada no sofá usando apenas um roupão. Geralmente eu ia até lá no meio da madrugada e a encontrava dormindo com a televisão ligada, então eu a acordava e pedia-lhe que fosse para a cama comigo. Em uma dessas noites, fui até lá com o intuito de conversarmos, já era hora de tentar entender o que estava acontecendo, afinal o havia algo errado e provavelmente isso iria acabar com nosso relacionamento. Chegando na sala, sentei-me ao lado dela e com a mão em seus ombros a chamei pelo nome... quando ela acordou, eu perguntei por que estava tão distante de mim daquela forma, perguntei se eu havia feito algo. Bem... ela me olhou nos olhos e com uma expressão de tristeza e repulsa, apenas disse que não aguentava mais e que estava cansada... disse que eu não era mais a mesma pessoa de antes e que eu vivia unicamente por um propósito e não mais por nós.

Eu tentei me explicar e disse que ela havia entendido tudo errado, que aquela era só uma fase e que logo passaríamos por ela, mas... ela não disse mais nada... apenas se deitou novamente e começou a chorar baixinho. Eu me inclinei para deitar-me ao lado dela, porém ela não deixou, me pediu que eu a deixasse sozinha... então assim o fiz.

Na manhã seguinte, acordei e ela ainda não estava na cama, então fui até a sala, mas também não a encontrei no sofá. Chamei pelo nome, mas não tive resposta. Senti um frio na barriga, como se algo ruim tivesse acontecido e a primeira memória que me veio, foi dos olhos sem vida de minha mãe no quarto após ingerir toda uma cartela de antidepressivos. Tentei o celular, liguei e mandei mensagens, mas o telefone parecia estar desligado.

Eu esperei... esperei o dia inteiro e ela não me dava notícias. Passou-se o período da manhã, e nada de notícias ou retornos, passou-se o período da tarde e minha agonia foi aumentando. A noite chegou e eu queria pegar o carro e ir atrás dela, mas eu não fazia ideia de onde começar. Então se foi a noite e adentrou a madrugada, eu decidi então ir diretamente na polícia e peguei as chaves do meu carro. Quando abri a porta de casa, vi o carro de minha esposa, parado em frente ao portão com os faróis ligados, porém não parecia ter chegado agora, parecia estar ali há alguns minutos ou talvez mais. Obviamente o pior passou pela minha cabeça, então eu corri até o carro dela e lá estava ela, com os olhos fechados, boca aberta e cabeça inclinada para trás no encosto do banco. Tentei abrir a porta, mas estava trancada, então comecei a socar o vidro e gritar o nome dela repetidas vezes, apesar da vontade de chorar, meu estado de alerta impedia que eu tivesse qualquer reação sentimental além do desespero. Após alguns segundos socando o vidro, ela esboçou uma reação e finalmente acordou. Ela tirou o cinto devagar e, visivelmente atordoada, destrancou a porta. Seus movimentos estavam lentos e sem coordenação, então eu abri a porta do carro e entendi tudo... ela estava completamente bêbada.

Eu fiquei furioso, todo o meu desespero foi convertido em indignação, então eu questionei sem parar onde ela estava, mas ela mal conseguia ficar de pé, que dirá responder, então a levei para dentro direto para o nosso quarto, ainda furioso e fui tirando as roupas dela para colocá-la no chuveiro. Conforme a água caía no rosto dela, ela ia melhorando um pouco e eu voltei a questionar onde ela estava todo esse tempo e, porque não me respondia, mas tudo o que ela fazia era repetir diversas vezes que eu não a amava de verdade, que ela queria ir embora, que deveríamos nos separar porque nossa vida juntos já havia acabado. Eu não queria respondê-la, considerei que ela estava bêbada demais para dizer qualquer coisa racional, então apenas a ajudei a sair do banho e a coloquei na cama para eu poder guardar o carro dela que ainda estava na rua.

Ao chegar no carro, notei o celular dela no banco do carona, estava desligado sem bateria, então coloquei o celular no bolso e entrei com o carro. Coloquei o celular para carregar e fui checar se ela estava bem. Foi apenas alguns minutos que a deixei na cama e ela havia vomitado por todo o quarto. Eu poderia tê-la deixado lá mesmo, suja, as consequências eram somente dela, mas meu senso não deixou e novamente a coloquei sob o chuveiro. Nesta hora ela parecia ter mais forças, provavelmente já havia melhorado um pouco mais, então a deixei no banho sozinha e fui novamente até o celular dela que estava carregando e liguei... no mesmo instante em que o celular iniciou, "pop-ups" de mensagens chegaram... era o contato de um homem... não resisti e abri a mensagem.

Eram 2 mensagens que diziam o seguinte:

— “Pense na melhor forma de contar ao seu marido, ou se preferir, podemos contar juntos.”

— “Você está bem? Já faz algumas horas que você saiu daqui e ainda não tive resposta. Contou ao seu marido?”

Com toda a sinceridade, você entenderia o mesmo que eu entendi... eu sei que sim. Pelas mensagens, nitidamente minha esposa estava me traindo. Aquilo me enfureceu de tal forma, que não pude conter os ânimos e nem mesmo esperar que ela melhorasse para conversarmos e fui direto até ela que ainda estava no banho.

Só de me lembrar em como fiquei me sinto mal, me causa um aperto no peito.

Eu abri o box com tanta violência que ele se estilhaçou completamente fazendo com que diversos cacos atingissem minha esposa, causando muitos cortes em seu corpo.

Em seguida eu a peguei pelos cabelos e puxei para fora... ela sem entender nada, apenas começou a gritar e dizer que eu a estava machucando.

Larguei ela no chão do quarto toda molhada e com sangue saindo pelos cortes do corpo e da sola dos pés. Ela me olhou assustada, ainda bêbada e desnorteada, e perguntou o porquê eu estava fazendo aquilo. Eu enfático e direto perguntei cheio de fúria onde ela esteve todo esse tempo em que sumiu, mas ela hesitou e disse ser melhor falarmos pela manhã, já que ambos não estavam em condições de raciocinar naquele momento.

Eu queria respostas, não me contive, subi por cima dela no chão, a peguei com força pelo rosto e repeti a pergunta, mas ela começou a chorar, me fazendo subentender que de fato ela estava nos braços de outro homem.

Desferi um soco muito forte na boca de minha esposa, com muita raiva e quando a cabeça dela bateu contra o chão, apertei muito forte o pescoço dela, eu queria matá-la, mas fui tomado por tamanha tristeza que perdi as forças e caí em prantos ao lado dela. Ela tentou dizer algo, mas provavelmente estava com muita dor e com a garganta machucada, por isso não conseguia. Eu me levantei e fui até a cama, me sentei e olhando para ela no chão, nua, molhada, toda cortada e com sangue escorrendo de sua boca, me senti um monstro. Ainda em prantos eu disse-lhe que vi as mensagens e perguntei o que eu havia feito de errado, ela tinha uma casa, os bens que queria, tudo à disposição, lembrei-lhe que eu sempre fui muito solícito e parceiro e não merecia que ela fosse ruim comigo. Ela com os olhos em lágrimas tentava dizer algo, então me ajoelhei próximo a ela e ela sussurrou o seguinte:

— Eu... eu ia te contar... apenas não sabia como dizer... porque tinha medo da sua reação, mas... —

Antes que ela dissesse mais e destruísse ainda mais o meu coração, me levantei e enfurecido novamente, pensei apenas que uma traição deste tamanho não merecia um perdão. Então chutei com força as costelas de minha esposa, repetidas e repetidas vezes enquanto ela tentava gritar com a voz rouca e chorando... e por fim chutei a cabeça dela, fazendo-a apagar no mesmo instante.

Em seguida saí do quarto, peguei as chaves do meu carro e o celular da minha esposa e saí sem rumo a deixando no chão do quarto. Parei no estacionamento de uma farmácia por alguns minutos tentando refletir, entender e digerir tudo o que havia acontecido. Desci do carro, entrei na farmácia e comprei alguns ansiolíticos... voltei para o carro e tomei. Após alguns minutos, me acalmei um pouco e passei a raciocinar melhor, foi quando decidi voltar para casa e ver como estava minha esposa.

Quando cheguei na rua de minha casa, havia algumas viaturas e uma ambulância. Provavelmente os vizinhos acionaram socorro quando ouviram os barulhos vindo da minha casa logo após uma gritaria na rua quando a tirei bêbada do carro.

Quando vi os paramédicos colocando minha esposa na ambulância, decidi ir atrás para ver para qual hospital ela seria levada e assim fiz.

Passei pelas viaturas como um carro normal passando na rua e me mantive atrás da ambulância.

Pela direção e localização, logo descobri qual seria o hospital e parei de seguir a ambulância para não ser notado. Me dirigi ao hospital somente algumas horas depois, estacionei do lado de fora, próximo à porta, peguei um revólver que eu tinha no porta-luvas e entrei.

Fui até a recepção, informei o nome completo de minha esposa e quando perguntado sobre o que eu sou dela, eu disse ser o irmão e fui para o hospital quando me contataram. Pediram meus documentos, mas eu disse que no momento da pressa e desespero, eu os esqueci em casa, mas pedi que averiguassem depois para eu poder vê-la.

Então uma enfermeira me levou até o quarto, me pediu que aguardasse que ela voltaria logo.

Quando vi minha esposa desacordada, com acesso venoso nos braços, curativos e um colar cervical, chorei novamente. Eu estava dividido sem saber se eu a amparava ou se ela merecia tudo aquilo, mas apesar disso, estava decidido que ela precisava voltar comigo para casa, eu ainda queria um filho nem que fosse a última coisa que ela faria por mim.

A enfermeira retornou me dizendo haver verificado com a equipe do hospital e ninguém havia sido contatado para avisar sobre a entrada da paciente no hospital, então questionou como eu soube que ela estava no lá. No momento em que ela acabou de falar eu saquei o meu revólver e apontei para ela, eu disse que aquela paciente era minha esposa e disse também que eu queria a ajuda dela para levá-la de volta para casa ou então eu atiraria na cabeça dela. Claro, ela tentou me alertar sobre a grave concussão, mas eu não quis saber, pedi que a colocasse em uma cadeira de rodas e me ajudasse a sair sem ser notado. Sem escolha a enfermeira me ajudou e saímos do hospital. Enquanto eu colocava minha esposa no banco do carona ainda desacordada, a enfermeira correu para dentro do hospital e eu sabia que ela chamaria a polícia, então me apressei para entrar no carro e saí cantando pneu.

Eu não sou idiota, não fui para a minha casa, segui para uma casa de veraneio que tínhamos no interior onde não há nada além de árvores e um lago.

Se a polícia de fato foi acionada, ela não me alcançou e chegamos sem encontrar problemas pelo caminho. Desci do carro, peguei minha esposa no colo e entramos na casa. Eu fui direto para o quarto e a coloquei sobre a cama. Sem mais o que fazer, me sentei ao lado dela e esperei pacientemente que ela tivesse alguma reação e acordasse. Conforme os efeitos dos remédios foram passando, ela foi retomando a consciência, mas parecia sentir ainda muita dor. Claro, devia estar com pelo menos alguma costela quebrada, além da boca estourada e a concussão, mas antes de expressar qualquer sentimento sobre isso, tentei falar com ela, perguntei como ela estava, se ela se lembrava de algo, mas... apenas resmungos soavam de sua boca.

Ainda assim, ela parecia tão linda, me fez recordar de todas as melhores partes de nossa vida juntos... me fez lembrar quando eu ainda sentia todo o amor que ela tinha para mim, e... digamos que isso me deixou animado. Ela é minha esposa ainda, não é mesmo? Então... que mal poderia haver?

Retirei dela a roupa hospitalar e fingi que não vi os edemas, hematomas e cortes, e... bem... fiz amor com a minha esposa. Vi quando ela abriu os olhos, com lagrimas e expressões de dor, mas apenas sussurros e resmungos podiam ser ouvidos por mim.

A intensidade foi aumentando e aquela poderia ser uma oportunidade para que minha esposa finalmente engravidasse... eu poderia cuidar dela até ela se recuperar e passar a ter uma gestação saudável, isto é... se ela de fato engravidasse. Depois voltaríamos a ser felizes de novo... se ela puder me perdoar por tudo o que fez, com certeza posso perdoar a traição dela.

Entrei em êxtase, tenho certeza de que foi um orgasmo genuíno, eu nunca senti um prazer tão intenso e incrível antes. Olhei para minha esposa e ela estava desacordada novamente, então eu saí de cima dela e decidi ir tomar um banho, mas quando tirei minha jaqueta, o celular de minha esposa caiu do meu bolso, eu havia me esquecido que estava comigo. No mesmo instante peguei do chão e resolvi mandar uma mensagem para o homem que esteve com minha esposa e dizer que eu já sabia de tudo, mas que nós tínhamos nos acertado e se ele tentasse procurá-la novamente, eu o mataria.

Foi nesse momento... nesse aterrador momento que desisti de viver.

Quando abri a conversa, vi que minha esposa conversou com ele poucas vezes e nessas poucas vezes, apenas dizia como se sentia em relação a não poder ter filhos e o quanto tinha medo de me contar. O homem em questão, era médico e as saídas de minha esposa, eram para ir em consultas e exames nos quais ele acompanhava e avaliava. Minha esposa foi diagnosticada com uma falência ovariana, causando ausência de óvulos e quando descobriu ficou tão abalada que bebeu até não aguentar mais.

Eu sou o pior tipo de ser humano e não mereço viver.

Eu chorava sem parar, inconsolável e... o desespero foi tão grande que corri e me ajoelhei chorando sobre o rosto de minha esposa. Pedi perdão dezenas e dezenas de vezes sem parar, até que... finalmente me dei conta que... ela não estava desacordada, o rosto dela estava frio e ela não estava mais respirando... sim... eu matei minha esposa tirando dela a última energia que restava para tentar sobreviver, o último fôlego ela usou lutando contra o meu desprezível desejo.

Eu não sabia o que fazer para me acalmar, então lembrei do ansiolítico que comprei antes na farmácia. Peguei o frasco e pensando melhor em tudo... tomei todas as cápsulas de uma só vez.

Agora estou aguardando minha morte, calmamente, enquanto sinto minha pressão arterial reduzir e minha respiração ficar cada vez mais densa e lenta.

Deitei-me ao lado de minha esposa, e... onde quer que ela esteja... tenho certeza de que eu não a encontrarei do outro lado. Espero sinceramente que ela ao menos possa me perdoar, mas não a culpo caso ela não possa, afinal... eu mesmo não me perdoarei.