Em meio à densa floresta que fica nos arredores de Ligonier, na Pensilvânia, Condado de Westmoreland, distingue-se, em meio ao verde exuberante, uma velha cabana isolada. À primeira vista parece abandonada, porém, logo pode-se ver a fumaça saindo por uma chaminé no teto, indicando a presença de vida em seu interior. Trata-se da morada rústica de Ernest, um velho caçador que, há muito tempo, decidiu fazer daquele lugar inóspito o seu lar, levando a fundo o conceito romantizado de “vida na natureza”.

Velho, barba branca e rugas espalhadas pelo rosto rude – típico do americano desbravador e bem adaptado às provações do meio ambiente – Ernest nasceu na pequena Ligonier e viveu boa parte de sua vida lá. Aprendeu a caçar com o pai, logo demonstrando ter talento para manejar armas e instintos próprios de um caçador nato. Durante sua juventude, participou de muitas caçadas, cujos troféus – as cabeças empalhadas de diferentes animais tais como veados, alces, búfalos, dentre outros – ainda podem ser vistas penduradas na parede da sua cabana. Vaidoso, orgulhava-se de ser o melhor caçador da região.

Mas, um certo dia, para espanto de seus amigos e conhecidos, Ernest simplesmente decidiu sair da cidade e ir viver isolado no meio da floresta. Ninguém pareceu entender o porquê de sua escolha radical: alguns boatos diziam que o motivo foi uma decepção amorosa; já outros achavam que ele descobriu estar com uma misteriosa doença terminal; e há quem diga que ele apenas decidiu por vontade própria viver na floresta, ambiente em que já passava muito tempo e no qual sentia-se em casa. Seja lá qual for a verdade, Ernest já vive sozinho em sua cabana há mais de vinte anos, tendo recebido o apelido de “eremita” do restante da população de Ligonier. Bem, não tão sozinho assim, pois tem a companhia de seu cão de caça, um grande Labrador de cor marrom-escuro, que atende por Sansão. Quase que diariamente Ernest sai para caçar acompanhado de seu fiel rastreador, retornando para casa ao entardecer e, como bom predador, sempre trazendo consigo alguma presa recém-abatida.

* * *

A noite estava tranquila e um tanto quanto monótona. Ernest, sentado em sua velha cadeira de balanço do lado de fora da cabana, saboreava um espetinho de búfalo. No chão, uma pequena fogueira crepitava, espalhando o cheiro de carne fresca pelo ar. De vez em quando, observava a lua crescente e o céu totalmente estrelado ao redor – que seria impossível contemplar caso ainda morasse no meio urbano. Ao longe, as luzes de Ligonier resplandeciam como pontinhos luminosos bruxuleantes no horizonte. A floresta estava silenciosa, com exceção da sinfonia dos grilos, cigarras e outros insetos noturnos. Ao seu lado, Sansão dormia em cima de um tapete.

Ao terminar sua refeição, ele pôs-se a fumar um cachimbo. Soltou uma baforada e ficou a observar a fumaça desvanecer-se no ar, quando Sansão acordou de forma repentina. O cachorro levantou-se e ficou a observar atentamente a mata à sua frente, rosnando baixinho e, logo depois, pondo-se a latir ferozmente na direção das árvores:

— O que foi, meu velho? Está vendo alguma coisa ali? – perguntou o velho caçador ao seu melhor amigo, forçando a vista cansada para ver se enxergava alguma coisa em meio à escuridão.

Enquanto isso, Sansão continuava a latir, agora mais alto e com mais intensidade. Ernest levantou-se, caminhou até perto da porta e pegou um farol. Levantando-o um pouco acima do rosto, tentou iluminar o espaço em frente de sua casa, porém a fraca chama não foi suficiente. Precavido como de costume, entrou em casa para buscar seu “velho de guerra” – apelido dado à sua arma favorita, um rifle de caça Winchester modelo 70. Já armado, voltou a olhar na direção para onde Sansão latia insistentemente e, novamente, nada viu. Desistindo de procurar, disse à seu melhor amigo:

— Vamos, rapaz, vamos entrar que já está ficando tarde. Não se preocupe, deve ter sido só um coelho ou outro bicho qualquer.

Deu meia-volta mas não foi seguido pelo cachorro, que continuava a ladrar sem parar:

— Sansão! Anda, passa! – falou com firmeza, ao que o cachorro obedeceu e ambos entraram na casa.

Antes de fechar a porta, Ernest pensou ter ouvido um discreto farfalhar de folhas e galhos partindo-se na floresta atrás de si. Pelo canto do olho, teve a impressão de ver uma sombra esgueirando-se entre as árvores:

— Quem vem lá? – Perguntou em voz alta, empunhando o rifle. Mas obteve como resposta apenas o silêncio.

Por fim, entrou em casa e trancou a porta.

Tudo estava às escuras. A cabana possuía um velho gerador elétrico nos fundos do terreno, porém estava com defeito já há alguns dias, de modo que o eremita tinha de se virar com o que tinha, ou seja, o farol e algumas velas. Colocou a arma e o farol em cima da mesa e, feito isto, deixou cair o corpo cansado e dolorido de 65 anos no velho sofá onde acabou adormecendo.

* * *

Acordou algum tempo depois com os latidos de Sansão, que arranhava a porta freneticamente num comportamento estranho, como se quisesse sair a todo custo:

— Mas que diabos está acontecendo com você, Sansão? – Resmungou ainda sonolento, levantando-se e indo em direção ao companheiro de quatro patas.

Olhou por uma pequena janela a floresta lá fora, na esperança de descobrir o que tanto perturbava o cachorro. Como não via nada demais, apenas escuridão e árvores, decidiu abrir a porta. Ao fazê-lo, Sansão saiu a toda velocidade e embrenhou-se mata adentro, desaparecendo. Ernest ficou parado na porta a escutar, ao longe, os latidos cada vez mais raivosos de seu cachorro, como se estivesse no rastro de alguma presa grande. Mas a densa mata e a escuridão da noite não lhe permitiam saber o que poderia ser.

Foi então que, subitamente, Ernest ouviu os latidos altos e ferozes pouco a pouco minguarem para um som lamurioso e penoso, como um choro. E daí, em seguida, ganidos de desespero vindos do meio das árvores denunciavam que Sansão, agora, estava em perigo:

— Sansão! Venha aqui, rapaz! Volte! – Ordenou o caçador.

Mas suas ordens foram em vão e o cachorro ainda continuava na floresta, emitindo sons desesperados como se estivesse sendo atacado violentamente por alguma coisa. Até que, sem mais nem menos, tudo voltou a ficar em silêncio e os latidos de Sansão calaram-se para sempre. Ernest, assustado, voltou a entrar em casa e logo tratou de pegar seu rifle pois, como caçador experiente, sabia que tinha de estar preparado para o que pudesse acontecer. O que quer que estivesse lá fora havia matado seu companheiro e ele poderia ser a próxima presa. Sabia que a Mãe-Natureza, em muitas ocasiões, pode ser bem cruel.

Enquanto recarregava a arma, Ernest pensou ter ouvido novamente um ruído entre as árvores. Porém, dessa vez, foi seguido de outro som o qual o velho caçador, a princípio, não soube identificar, assemelhando-se a um rosnado estridente, mas muito diferente de animais típicos daquela região, como alces ou búfalos. Devido à experiência adquirida, Ernest conhecia quase todos os sons dos animais da floresta, mas aquele era diferente: não parecia um predador comum, era alguma outra coisa. Novamente, o bizarro rosnado vindo do fundo da mata rasga o silêncio da noite:

— Minha mãe do céu! O que é isso? ­– sussurrou, enquanto seus dedos tremiam ao segurar o rifle, sentindo arrepiarem-se os pelos do corpo.

Então, para seu temor, aquele estranho som fez-se ouvir pela terceira vez. Mas, diferente das outras, estava mais perto de sua cabana: a coisa, ou o que quer que fosse, estava aproximando-se. Após terminar de recarregar a arma, Ernest dirigiu-se sorrateiramente para a janela e conseguiu ver uma grande silhueta de cor parda-esbranquiçada saindo do meio das árvores e correndo em direção à lateral da casa. Devido à rapidez e agilidade da criatura, Ernest não conseguiu identifica-la logo de cara. Voltando para o centro da sala, ficou em silêncio a escutar os passos do animal ora do lado esquerdo, ora aos fundos, ora do lado direito, percebendo assim que o estranho ser estava rondando a cabana, possivelmente a procurar alguma porta ou janela aberta pela qual pudesse invadi-la. Foi então que algo lhe veio à mente: teria realmente trancado tudo? A porta dos fundos estava fechada? Caso contrário, sua distração poderia lhe custar a vida.

Os minutos passavam-se e a criatura continuava a rodear a cabana de Ernest, urrando cada vez mais alto. De tempos em tempos, ele podia ver a grande sombra passando rapidamente em frente à janela, mas a fraca luminosidade não permitia enxergá-lo com precisão. No entanto, os urros, a respiração ofegante e o jeito de se movimentar ­– em alguns momentos, parecia que andava em apenas duas patas, dando a entender que poderia ser algum bípede ­– foram o bastante para convencer Ernest que estava lidando com algo realmente fora do comum: um animal desconhecido que nunca tinha visto, nem em seus melhores dias de caça.

Cada vez mais nervoso e sem saber direito o que estava enfrentando, o eremita arriscou um tiro bem no momento em que o predador passou mais uma vez em frente à janela, porém não conseguiu acertá-lo, espalhando cacos de vidro pelo chão. Logo após, escutou uma forte batida na porta, seguida de muitas outras: a besta descobriu ser aquela a entrada da casa e tentava pô-la a baixo. Imediatamente, Ernest arrastou com dificuldade a mesa de forma a reforçar a frágil porta que ameaçava ceder ante as investidas cada vez mais intensas da criatura. Feito isso, enquanto ela estava ocupada, o caçador correu em direção aos fundos, para se certificar se tudo estava trancado. Para sua sorte, estava. Então, teve um sobressalto ao ouvir um grande estrondo vindo da sala: parecia o som de algo caindo.

Ao retornar, percebeu que as batidas na porta haviam cessado. Cautelosamente, chegou ao pequeno corredor que dava para a sala e, ao olhar em direção a porta, a cena que viu o deixou em choque, pois a mesa estava afastada e a porta derrubada. O pior havia acontecido: a criatura havia invadido sua casa! Ernest olhou rapidamente de um lado para o outro, mas não o encontrou. Segurando firmemente o “velho de guerra” em uma das mãos e o farol na outra, ele pôde observar a bagunça na qual se encontrava sua sala, com os móveis revirados e espalhados pelo lugar. Virando-se em direção à cozinha, ouviu barulhos estranhos. Seguindo o som, ao chegar próximo do local, esgueirou-se lentamente para a porta aberta e finalmente seus olhos contemplaram com horror o predador misterioso: iluminado pelo fraco luar que penetrava pela janela e pelo farol, Ernest viu uma forma grande, de cor acinzentada, apoiada sobre um parapeito. A criatura era magra, de um semblante quase esquelético e doentio. Parecia não ter pelos, porém exibia grandes garras em suas patas e dentes afiados num focinho alongado. Pareceu não notar a presença do caçador atrás de si e continuava a bagunçar a cozinha, derrubando as panelas penduradas na parede e outros utensílios.

Ernest, por alguns instantes, ficou sem reação. Nunca tinha visto algo como aquilo em todos seus anos na floresta. Lentamente, seu controle muscular foi voltando e ele apontou o rifle em direção à criatura, mirando em suas costas onde podia-se discernir algumas costelas aparecendo sob a pele.

— Isto é pelo Sansão! – Disse e então atirou.

Ao ser atingido em cheio, o ser emitiu um grito agudo de dor e veio a cair ao chão. Ernest tentou mirar um segundo disparo, porém a criatura foi mais rápida e avançou contra o idoso caçador, derrubando-o e cravando as presas em sua perna direita. Ernest viu-se sendo chacoalhado violentamente de um lado para o outro. Com a queda, soltou o rifle e o farol, que caíram a uma curta distância. Tentou pegar sua arma novamente, mas o animal não o largava. A dor era excruciante e parecia que sua perna iria ser arrancada a qualquer momento, tamanha era a força da mordida.

Em certa hora, a criatura largou a perna de Ernest e tentou avançar contra seu rosto. Este, com um dos braços, deteve o avanço do predador. Enquanto lutava desesperadamente para se livrar das mandíbulas sedentas à sua frente, sua mão alcançou um dos bolsos e acabou por encontrar uma pequena faca, a qual trazia consigo há tanto tempo que até já tinha esquecido de que estava ali. Por sorte, estava bem afiada. Então, num único golpe, cravou a faca no pescoço da criatura, perfurando sua jugular e fazendo jorrar um jato de sangue. A criatura então, aos poucos, foi perdendo suas forças, vindo finalmente a cair de lado, agonizando até morrer. Ernest tentou levantar-se, mas sem sucesso. Com o pouco das forças que lhe restava, arrastou-se saindo da cozinha e tentando chegar até a sala, mas não conseguiu ir muito mais longe. Exausto e cada vez mais fraco pelo sangue que se esvaía da perna estraçalhada – deixando um rastro vermelho pelo chão – o velho caçador perdeu os sentidos.

* * *

Alguns dias se passaram até que um grupo de caçadores que embrenharam-se na floresta encontrassem a velha cabana do eremita. Curiosos com aquela casa isolada no meio do mato, resolveram aproximar-se e notaram logo a porta derrubada. Ao entrarem, encontraram um cenário desolador com móveis revirados e sinais de luta violenta, além de um odor nauseante que a tudo empestava. O corpo de Ernest foi encontrado perto da entrada da sala, e o da criatura abatida na cozinha, ambos já em estado de decomposição:

— Meu Deus! Esse pobre coitado devia ser o dono daquele cachorro morto que encontramos perto daqui. – Comentou um dos homens.

— Ei, rapazes, olhem aqui: parece que enfim encontramos o que procurávamos esse tempo todo. – Chamou o líder do grupo para verem a fera morta na cozinha – O velho ainda conseguiu matá-lo. Tem marca de tiro nas costas e um corte profundo na garganta. Pelo jeito, ele era um caçador assim como a gente. Que triste acabar desse jeito, morto por um maldito urso fugido do circo! Que descanse em paz. – disse, enquanto fazia o sinal da cruz.

— Quer dizer que isso aí... é um urso?! – Perguntou outro, aproximando-se do corpo para ver melhor.

— Sim, um urso que estava bem doente. Vejam como estava magro e sem pelos... Eu já vi alguns animais com essa doença, parece ser um tipo de sarna bem avançada. Esses donos de circo filhos da puta tratam os animais desse jeito: aprisionados, sem cuidados adequados ou comida. Pelo jeito, esse daqui não aguentou mais e resolveu escapar da prisão.

— Parece que não vamos mais ganhar a recompensa pela captura do urso... E agora, o que faremos?

— Vamos dizer a verdade para o dono do circo lá em Blairsville: que o seu urso pelado e doente invadiu uma cabana, certamente à procura de comida e acabou matando e sendo morto pelo dono da casa, um velho solitário. Eu sou caçador há mais tempo que vocês, rapazes, e animais como esse devem viver livres na natureza e não aprisionados em jaulas minúsculas, servindo de entretenimento barato para as pessoas. Andem, vamos logo com isso que esse cheiro ainda vai me fazer vomitar. – Ordenou o líder.

Com cerimônia, o grupo enterrou Ernest no terreno aos fundos de sua cabana, colocando uma cruz improvisada com pedaços de galhos para marcar o local de descanso final do eremita e, ao lado, enterraram também o urso. Após uma breve oração, deixaram o local.

Agora, caça e caçador jazem lado a lado. E a velha cabana, com o passar do tempo, foi-se deteriorando pouco a pouco, pela força dos elementos. Mas, quem ainda hoje passa por aquela floresta à noite, quase sempre, afirma ver uma certa luminosidade fraca vindo do interior da cabana e o ranger da cadeira de balanço na varanda, que parece balançar-se sozinha, mesmo nas noites calmas e sem vento.