Existe uma história que conta que, certa vez, um padre conseguiu capturar o Diabo.

Após muitos anos, atrás do maligno, esse padre armou uma armadilha e o aprisionou nas catacumbas de uma igreja, em uma cela com grades bentas.

- Agora, seus milênios de maldades, acabaram. Aqui, você vai ficar para toda a eternidade. Cumpri a minha missão!

O Diabo apenas olhou para ele, acocorado no meio da cela e disse:

- Não sabe a besteira que fez.... Mas vou deixá-lo descobrir sozinho. Fique tranquilo. Poderia sair daqui facilmente, mas quero que você abra a cela para mim.

Abaixou a cabeça assobiando um hino sacro.

O padre nada respondeu e saiu apagando a luz, deixando-o no escuro.

E assim, com o tempo, viam-se as mudanças no mundo com o diabo aprisionado.

As guerras acabaram, os assassinatos pararam, os estupros cessaram, nada de doenças.

De tempos em tempos, o padre descia à cela de Satanás, para certificar-se se ele cumpria o prometido de ali permanecer. E lá estava ele, acocorado no meio da cela, assobiando cantos sacros em notória blasfêmia.

Um dia, em uma dessas visitas, o padre comentou:

- Ainda acha que vou abrir esse portão de livre e espontânea vontade, libertando-o? Viu como o mundo está melhor? Sei que consegue enxergar isso, mesmo estando aqui!

Satã fica de pé e anda até a beira de sua cela, ficando a menos de um metro do padre, que dá um passo para trás.

- Falta pouco tempo, padre....você vai entender.

E assim, voltou a sua posição inicial, no meio da cela.

O mundo gozava dos benefícios da prisão do maligno. A notícia da prisão do Diabo pelo padre se espalhara e ele foi aclamado pelo mundo como o maior herói de todos os tempos. O próprio Papa ajoelhou -se para ele.

Todos queriam sua benção e isso foi inflando o seu ego. A sua igreja estava sempre lotada, ganhava inúmeros presentes e doações.

Mas um dia veio a notícia. As pessoas estavam se tornando melancólicas, depressivas e muitas cometiam o suicídio.

O padre não compreendia. Não havia mais maldade no mundo. As pessoas estavam se amando se respeitando era tudo completamente positivo.

E conforme o tempo ia passando a situação se agravava. Os índices de suicídios estavam alarmantes e os casos de depressão profunda se alastravam, como um vírus, pelo mundo.

Já não adoravam o padre. Muitos pediam a ele que soltasse o Demônio. Esses muitos viraram milhares e depois milhões.

O próprio papa o ameaçou excomungá-lo, caso não libertasse Satã.

Vendo-se acuado com manifestações na porta da igreja, o padre foi ter uma conversa com o Maligno.

Este permanecia na mesma posição de quando foi posto lá, há mais de 5 anos.

- Ora, ora, uma visita fora de hora. Já estava indo dormir.... - Disse o Diabo.

- Deixe de zombaria, anjo caído! O que está acontecendo?

Lúcifer se levanta e anda até as grades.

- Trouxe a chave do cadeado?

- O que está acontecendo? Você não pode agir, estando aí dentro!

- Eu nunca precisei agir, padre…Porém você quebrou o equilíbrio! Eu sou apenas a parte essencial do equilíbrio! O negativo, o opressor, o difamador, o mentiroso, o ambicioso, o acusador. Mas os homens já nascem com tudo isso dentro deles, sem que eu interfira. Na verdade, eu apenas regulo tudo isso.... Quando me aprisionou, você quebrou o equilíbrio e a tendência é que este volte, nem que seja por vontade divina. Não entende? Eu sou necessário! Deus precisa de mim! Você se tornou um grande discípulo e arrecadador de almas para minha casa.... Afinal, você sabe que suicídio é pecado mortal. Todos os suicidas vão ter comigo uma estadia eterna.... Tenho que lhe agradecer! Tenho um lugar para você perto de mim, quando você morrer. Já está garantido, afinal você é um genocida em massa, um funcionário exemplar!

O Padre mais que depressa tira a chave do bolso e abre a porta da cela. Porém o demônio volta para a sua posição no meio da cela e se acocora.

- Acha que vai ser assim? Vou levantar-me e consertar a sua cagada? Acha que o seu arrependimento pode salvar-te? Na verdade, pode sim. Porém, vamos firmar um pacto.

O padre sabia que não tinha alternativa e em prantos perguntou:

- O que você quer?

- Sua alma... O de sempre. Eu sou um estuprador de almas!

E gargalhou.

Com esse pacto, o seu arrependimento não te salvará, mas o equilíbrio voltará. Traga papel virgem, uma pena virgem e um pires lavado com a tua urina. Pode deixar a cela aberta. Vai ver que continuarei aqui.

E o padre foi providenciar o que o Diabo pediu.

Ao voltar viu que ele continuava na mesma posição e a cela escancarada.

- Sente aqui do meu lado padre. Eu não mordo! Trouxe tudo e fez o que mandei?

- Sim...

Lúcifer colocou a folha de papel em frente ao padre. O pires em frente a folha e a pena ao lado do pires.

Com a mão esquerda, começou a esfregar a ponta dos três dedos, que na mão direita, significam a santa Trindade. Um ato de heresia. Nisso começou a pingar sangue dos dedos. Um sangue vermelho bem escuro, quase coagulado e com um cheiro horrível. Deixou pingar dentro do pires, até a metade.

- Dê-me a sua mão direita, Padre.

Segurou a mão do padre e com a unha do seu dedo mínimo fez um corte no seu pulso.

O sangue que caiu se misturou no pires com o sangue do Diabo.

- Pegue a pena, molhe no sangue e escreva o que vou lhe dizer. Ao final, molhe a palma da sua mão no sangue e ponha em cima do papel. Essa será a sua assinatura!

Não foi muito o que o Diabo mandou ele escrever. Basicamente que ele abriria mão do arrependimento dos seus atos cometidos e dava a sua alma ao diabo de livre e espontânea vontade.

No final ele hesitou em marcar o papel com a sua mão. Lúcifer simplesmente olhou de lado e começou a assobiar um hino sacro. Vendo que teria de fazer, carimbou a folha de papel com a sua mão direita.

O demônio pegou a folha de papel a dobrou, levantou-se e saiu andado da cela. Ao sair ainda exclamou:

- Vamos consertar as cagadas desse filho de Deus! Te espero na minha humilde residência! Não demore!

Nisso, dois cães aparecem para escoltá-lo. Dois cães de olhos vermelhos que surgiram do nada e do nada todos eles também sumiram.

O padre ainda ficou alguns minutos, ali, perplexo.

O tempo foi passando e como o Diabo prometera, as coisas estavam voltando ao normal.

E não saia da cabeça do padre o que o diabo disse: “Os homens já nascem com tudo isso dentro deles. Eu sou apenas o regulador”.

Vendo que Lúcifer havia cumprido a sua promessa, o padre, que passou todo esse tempo em depressão, se matou pulando do alto da torre da igreja.

Ao chegar ao inferno, foi recebido pelos cães que haviam ido buscar o Diabo na terra. O acompanharam até a presença de Lúcifer que estava em cima de uma montanha e observava o fogo queimar os milhares de almas agonizantes que ali chegaram e clamavam por piedade.

- Veja! -Disse Lúcifer.

- Contemple o fruto do seu trabalho! Venha comigo. Tenho uma surpresa para você.

Levou o padre até o topo da montanha e lá, havia uma cela de fogo.

O padre em silêncio entrou.

- Ajoelhe-se perante mim e estique as suas mãos que me aprisionaram!

O demônio puxou da terra ensanguentada uma espada e num só golpe decepou as duas mãos do padre.

- Alma também sangra, padre! E você vai sangrar para mim, por toda a eternidade! Sangre, filho de Deus! Sangre!

A cela foi trancada e Lúcifer levantou voo, onde, do alto, apreciava o seu reino de fogo e dor.

O equilíbrio estava instituído novamente.