O CLÃ: Capítulo VII - A calma em meio a tempestade

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Há 3 dias

Eu pareço estar sempre gritando silenciosamente na tempestade que me habita, grito ensurdecedor que sinto me preencher. Não consigo mais assimilar as gotas de chuva que caiam ao meu redor que não a água da piscina que batia em meu pescoço enquanto eu estava pronta para devolver o que me foi concedido. Torcia para que a qualquer momento um relâmpago me acertasse e me matasse rapidamente mesmo que indolor, pois a chuva disfarçava as lagrimas que caiam forte em meus pilares desmoronados que balançavam a soda caustica em minhas mãos.

O início da tragédia, minha boca aberta pronta para o destino em que eu não estaria viva para o segundo ato. O telefone apitava, abaixei as pequenas bolinhas ácidas enquanto decidia se atendia ou não. - "Atenda" – disse a minha personalidade mais sensata entre as misturas de vozes que gritavam no meu amago.

Deixei o carrasco escondido em minha toalha no banco de mármore branco em baixo da mesa enquanto lia as mensagens do Clã. Repentinamente os meus olhos tem uma pequena faísca de fascínio pois JC houvera acabado de mandar passagens para outro estado, pequenas frestas iluminavam a minha escuridão fazendo cortes na penumbra e eu podia ouvir o timbre de minha própria voz enquanto as outras iam baixando o tom gradualmente. "Para quem está perdido qualquer caminho serve" - Disse a personalidade que carregava a felicidade. Joguei o carrasco para o mato e mantive o momento sentada a beira da piscina na chuva. Raios ainda eram uma opção pois eu peguei o primeiro voo para lugar nenhum...

Positividade e piadas eram as máscaras dissimuladas que eu usava para tornar a minha vida menos patética, encenando a confiança que eu não tinha, pouco importava tudo isso agora, nada me restara enquanto caminhava pelo corredor pois a minha vida não seria tomada por mim, mas por qualquer coisa que estava naquele castelo, e eu preciso demais de me despedir dos meus amigos e meus pais, porém, mais do que tudo, salvar eles também.

- “Eu vou para o porão, eu tenho os meus motivos, mas se lá tiver uma chance de sairmos daqui então eu tenho que tentar o que for para sairmos daqui. Sintam-se livres para me acompanhar ou não.”

- “Você é irresponsável e impulsiva, tenho os meus receios quanto a como essa parte da sua personalidade funciona, mas eu vou com você” – Disse Dean.

Tio Lu mantinha-se distante e cauteloso, mas o grupo sabia da resposta precavida que o mesmo daria:

- “Neka e eu ficaremos na porta caso algo dê errado e precisemos correr.”

O grupo assentiu e continuamos a caminhada em silencio pelo corredor mal iluminado pela lanterna, cada um preso em seu próprio pensamento e devaneios.

- “Parte da escada está quebrada, se algo de ruim acontecer vocês voltam correndo, tá? Neka e eu manteremos a porta aberta qualquer coisa.”

Dean e eu acenamos em concordância com uma expressão séria no rosto, era tudo ou nada agora. Neka deu um leve toque no ombro de Dean e sussurrou – cuidado! – enquanto passava o cutelo para as mãos do mesmo.

Escuridão a dentro, era um cenário caótico de energia pesada, bonecos sem expressão alguma estavam espalhados pelos cantos em seu cárcere privado.

– “Vamos procurar entre os manequins, toma cuidado” – sussurrou Dean. Tateávamos as paredes em busca de pedras soltas, mensagens escritas ou qualquer coisa que parecesse com uma chave.

O silencio sepulcral da sala é quebrado pelo som de choro atrás de uma porta que não tinham percebido até o barulho invadir aos poucos a grande sala escura. Olharam um para o outro com entendimento em seu olhar sobre o que deveria ser feito. Dean se posicionou atrás da porta com o cutelo em mãos e Moon encostava cautelosamente na maçaneta. Ela abriu a porta rapidamente e em um pulo algo avança sobre ela, ela tenta conter os socos e as mordidas de alguém que tinha sua imagem. Dean não sabia o que fazer, haviam duas Moon. Uma delas consegue chutar a outra e agarra a mão de Dean até uma porta que dava para chambre de bonne.

Ambos se apoiavam contra porta enquanto a mesma era fortemente surrada pela coisa à imagem semelhante de Moon. Tudo que viveram até ali, tudo que fizeram para sobreviver, o desespero e a falta de força que já dava sinais enquanto a porta era surrada.

– “Moon eu tenho um plano, eu abro a porta e deixamos que a coisa avance e a pegamos desprevenida.”

- “Você tá doido? Não temos mais força.”

- “Nós conseguiremos, eu quero sair daqui.”

Nada mais foi dito, como um entendimento mudo entre ambos eles liberaram a porta e a coisa avançara no pequeno quarto, Moon avançou pelas costas, jogou-a sobre a cama, ficou por cima de seu corpo começou a enforcar a coisa que tinha sua aparência com um certo prazer nos olhos enquanto a via se debatendo e arranhando seus braços para que parasse o aperto. O momento foi vertiginoso e sagaz, Dean passou naturalmente o cutelo na mão de Moon e ela golpeou a coisa simultaneamente, com certa vontade, com raiva, com um fervor em seus olhos até que a cabeça daquilo fora arrancando e o corpo se transformara em um manequim.

O sangue manchava seu corpo e suas roupas, a respiração descompassada começava a se acalmar e o olhar substituía gradualmente o prazer para um gélido e distante, Dean tentara encostar nela, mas a mesma reagiu como um animal que poderia mata-lo vorazmente ali mesmo.

– “Ei, sou eu, o Dean, você está bem agora, ninguém vai te machucar, me dá as mãos vamos sair daqui.”

Seu olhar se acalmara e sua respiração se normalizou, apenas deixou que Dean segurasse sua mão e a guiasse para fora daquela bagunça.

Estavam a deixar o cômodo quando um barulho atrás deles lhes chamou atenção, ambos viraram assustados e apostos; o que estava em sua fronte os surpreenderam pois parecia impossível que ele estivesse ali. Repousando na cama estava o corpo pálido e sem cor de JC, os dois se aproximavam vagamente sendo cautelosos. Dean checou o pulso do líder, ele olhou de forma seria para Moon e balançou a cabeça em negativo. A mulher perdeu-se no silencio por um momento até que as suas sobrancelhas levantaram com uma memória repentina, a única resposta.

- “Uma vida por uma vida.”

- “O que?”

- “Dean eu estou com medo”

- “Medo de que?”

- “Medo de morrer”

- “Do que você tá falando?”

- “Eu sei o que tenho que fazer, entregue isso aos meus pais” – disse ela com lagrimas nos olhos e o corpo tremendo enquanto lhe passava um papel dobrado

– “Eu tenho que dar uma vida por uma vida.”

- “Deixa de falar merda...”

- “DEAN! Você sabia que o meu anime preferido é Shingeki no Kyojin?”

- “Dean a olhava confuso e embasbaco”

- “Quem salvará vocês será o JC. Então só me prometa que sairá daqui e entregará a mensagem aos meus pais”

- “Você não está falando sério, né?”

- “Por favor... Me prometa.”

- “Eu prometo.”

- “Diga a eles que eu os amo.”

Moon deitou-se ao lado de JC, o medo de morrer de certo modo era o medo de não conseguir se despedir e amar tornou-se também o sacrifício da alma. “Male viventem in tenebris In nomine ordine illustrati Ite ad ínferos”. O corpo de Moonieve tornava-se madeira enquanto o de JC retomava o brilho, as bochechas recuperavam o tom corado e corpo tornara a ganhar uma cor vívida.

JC acordara em um susto, transpirando com os batimentos cardíacos acelerados e desnorteado. Dean segurou levemente o ombro dele para não o assustar.

- “Você tá bem? Sabe onde está?”

- “Sei e tenho algumas respostas.”

JC coloca a mão no peito e tira a chave que está pendurada em um cordão em seu pescoço. Ele olha para o lado e vê que a cabeça do manequim não está junto ao corpo; ele toma o objeto em suas mãos e balança próximo a orelha, de lá cai outra chave com um papel escrito: C2

- “Essa chave é a sua?”

- “É da Moon”

- “E cadê ela?”

- ...

- “Não me diga que...”

JC tampa a boca em choque enquanto olha para o manequim sem rosto ou expressões. O líder sente um peso enorme sobre seus ombros pois a sua vida não era mais dele. Respirou fundo e se levantou com ajuda de Dean, rumaram até a porta e a abriram. Os manequins continuavam jogados pelos cantos, mas perto da porta um gato preto estava sentado lhes observando.

- “Você já leu “a perspectiva de um gato”, Dean?” – questionou JC.

- “Não, por quê? Você acha que ele nos fará algum mal?”

- “Pelo contrário, conta sobre um gato que não tinha controle sobre seu próprio destino e aceitou a morte para salvar outras pessoas. Fala sobre querer um proposito e sentir-se útil. Não acho que nos fara mal.”

JC rumou até a porta trancada no canto da sala sobre os olhos atentos do felino, podia-se ouvir gritos e choro vindos do outro lado. Ele colocara a chave na tranca e os grunhidos aumentaram até que ele girou e abriu a porta; não havia mais nada ali e quando olharam para o lado o gato também havia sumido. Dean apertou mais forte o bolso da calça.

- “Ei Dean, tá tudo bem?” – perguntou JC.

- “JC, eu preciso sobreviver pra dar a carta que ela me deu pros pais dela.”

- “Nós vamos viver, a partir de agora é uma porta a menos. Vamos pro meu quarto agora.”

- “Qual é o número do seu quarto?”

- “C1, fica do outro lado da ala, provavelmente acontecerão eventos que tentarão nos impelir, fique atento.”

Eles estavam a sair da sala quando a luz da lanterna falhara por um minuto e depois voltara em um súbito de rajada luminescente, mas os manequins já não estavam mais no chão e sim pendurados no teto com as suas cabeças decepadas; de algum lugar lá em cima um grito reverbera e alcançara aquela extremidade do castelo. JC olhara por dez segundos para o nada até raciocinar a quem pertencia voz.

– “Meu Deus, o Jeren.”

Ambos subiram pela escada velha que ameaçava quebrar com a intensidade que a velocidade deles exercia sobre a madeira velha e foi o que aconteceu no último degrau; teriam caído se não fosse por Tio Lu e Neka que estavam aguardando na porta lhes esperando sair. Estavam com muita pressa pra perceber que Moon não estava mais ali e a surpresa repentina da volta de JC teria que ser explicada mais tarde, o problema agora vinha do outro lado do castelo e não tinham muito tempo até alguém poder estar morto.

- Carta aberta ao público.

*************

Uma carta aberta para meus amigos e familiares
Se você está lendo isso eu não habito mais esse plano existencial
Sempre disse que a escrita é minha vida e as palavras possuem significado
Próprio além da compreensão delas mesmas e cada letra é também minha
Alma imaculada em seu estado bruto... Pois bem.

Jamais publiquei um livro, jamais publicarei...
Nunca mais farei poesias e nem prosarei tragédias modernistas
Não mais possuo a contemporaneidade da poesia francesa
Minha última poesia de apresso nunca mudará, de agora em diante
Eu sou eternizada em "o filho do século".

Nunca namorarei meninas, jamais beijarei mulheres novamente
Meus cabelos nunca ficarão brancos pelo efeito do tempo
Não terei filhos e nunca farei bolo para os meus netos
O despedir a todos aqueles que amei, amigos e familiares
Para papai e mamãe, para vocês eu jamais morrerei

Eu viverei para sempre em vocês, pois assim
Não de fato deixei de existir, nunca deixei
Pois sempre existirei em todas as memorias
Vivo para sempre em todas as lembranças
Eu fui a estrela que iluminou todo um universo

Mas eu também fui a criação e o criado do nada
Eu jazi da inequação dos átomos e também fui o vazio
E tudo que fui até aqui foram os momentos que deixei agora
Aqui se faz, aqui se ama, aqui no agora, aqui se paga
Não levo nada desta terra, guardem-me com carinho

Pertenço a vocês e não mais que o paradoxo temporal
Abraço a voz que já cantara minhas canções
Beijo a boca que respirou entre meus lábios
E devolvo essa vida que me foi concedia

Eu vou para sempre amar vocês...

Meu último adeus...
- Luiza Moonieve.

Comentários

Anônimo
Foi o capítulo mais intenso que li até o momento. Gostei muito, parabéns Moon!
21/02/2021
Anônimo
C a r a l h o. Muito bom.
21/02/2021
Anônimo
Nossa fui toda animada, fiquei foi triste. Moon deu muitas explicações nesse capítulo e também tragédias, agora o clã vai entender que pra precisar das chaves será necessário enfrentar o mal presente no castelo. Fique tranquila Moon, seu sacrifício não será em vão! Ótimo capítuloo! ~ Black
21/02/2021