A construção era enorme, as inúmeras salas e corredores formavam uma espécie de labirinto, e Jeren percebeu isso da pior maneira ao buscar um copo de água para acalmar JC.

Portas que não davam para lugar algum, outras que levavam a mais portas e por consequência mais chances de se perder dos demais. O jovem logo se desesperou ao ver pela quinta vez o mesmo criado-mudo desgastado presente em uma sala, e ao perceber que andava em círculos logo gritou para que os outros pudessem lhe encontrar.

Visivelmente aquele castelo carregava história, ostentando uma construção completamente diferente do que vemos no país. JC o achava muito intrigante, este foi o motivo da reserva, o mistério sobre sua construção em um lugar tão isolado e a dificuldade de se chegar a essa área remota despertavam seu instinto de curiosidade que fazia ignorar os possíveis perigos da região.

Ele deveria ter desconfiado quando todos os motoristas de aplicativo recusaram a corrida e apenas um velho taxista contador de histórias aceitou levar o grupo por uma boa quantia de dinheiro.

– "O que são lendas se não histórias criadas para assustar os outros?" era o que pensava JC, que mesmo ao ser avisado pelo homem que indicou o local no submundo da internet preferiu ignorar os avisos.

– "Isso é minha culpa, eu deveria ter ouvido - "

– "O que você sabe?" – João diz, interrompendo o automartírio de JC, o chefe da equipe.

– "Talvez não tenha sido uma boa ideia vir para esse lugar, pensei que seria bacana todos se reunirem em um lugar com uma história assustadora."

– "Que segredos carregam esse lugar?" – Pergunta Vitor enquanto tateia a parede cor vinho que enfeita a bela e decorada sala.

– "Ao certo não sei dizer, mas a lenda da região é que algo de ruim aconteceu aqui no século passado, e até hoje ninguém ousou se mudar."

– "Aqui está sem sinal" – diz Jeren, que desesperado tenta ligar para Davi.

– "Sem sinal e sem bateria no meu" – Vicky logo complementou.

– "Será que Karma estava com ele?" – Vitor se preocupa.

– "Eu acho que não, isso deve ser só uma brincadeira sem graça que o Davi está tentando aprontar, mais tarde ele chega dizendo que foi atacado por um dinossauro sei lá o que..." – diz Jeren tentando esconder sua preocupação usando o deboche.

Alguns minutos intermináveis se passam, com todos tendo uma sensação ruim no fundo do peito.

JC segue sentado, coçando sua cabeça e pensando sozinho.

Vitor olha para o chão de madeira maciça enquanto traga seu cigarro e deixa a fumaça escapar por sua boca.

Vicky e Jeren seguem conversando em voz baixa e trocando teorias sobre o que pode ter acontecido.

João olha a escuridão da noite pela janela. O que estaria esperando por eles nessa construção?

João quebra o silêncio e diz;

– "Está muito tarde, e se não podemos sair por agora, é melhor dormirmos e pensar em tudo isso com calma amanhã."

Todos concordam, embora preocupados com os membros da equipe ainda existe a possibilidade de ser tudo uma grande piada visto o histórico negativo dos que ainda não chegaram.

– "Se isso for uma palhaçada da Karma e do Davi, eu juro que mato eles" – diz Jeren dando passos largos enquanto caminha a frente do grupo.

– "e se o chupa-cu pegou eles?"

Todos riem da fala inesperada, apesar da preocupação inerente a situação.

Eles caminham pelo corredor em direção aos luxuosos quartos.

E apesar de ser um antigo edifício praticamente não há poeira em lugar nenhum, a decoração está intacta e dá a impressão de que tudo foi arrumado com muito esmero para o Clã.

Logo cada um escolhe seu quarto e todos se deitam com o pensamento naqueles que ainda não chegaram.

A manhã logo chega.

JC foi o primeiro a se levantar e logo caminhou para fora do castelo para observar o sol que começava a clarear ao lado de seu fiel companheiro; uma xícara de café. Ele já começava a se culpar caso algo acontecesse com seus queridos pupilos, ele gostaria que fosse uma reunião com diversão (e um pouquinho de terror, por que não?) mas não desejava que nada de ruim acontecesse nesse dia tão especial.

Foi após um tempo então que um grito ecoou pelo corredor. Era uma voz feminina e todos puderam ouvir de seus quartos enquanto o sol fraco da manhã tomava conta do céu e invadia as janelas. Vicky era que havia gritado, os outros da equipe saíram correndo de seus quartos enquanto JC levantou o rosto na direção do segundo andar, onde ficavam os quartos.

Ali balançando de um lado a outro estava um corpo de João, a corda ao longe parecia a língua de um demônio, escura, grossa e longa. Ele tinha prendido a corda na janela e projetado o corpo. Todos puderam ver seu rosto azulado, o pescoço destroncado para o lado em um ângulo angustiante porque o tornava maior, espichado. Ele ficou balançando e sorrindo, com sua boca curvada para cima, aliviado talvez seja a palavra certa.

João Augusto poderia ter pulado da janela, seu corpo se chocaria contra o chão, os ossos se partiriam e a cabeça estouraria ou simplesmente poderia ter cortado os pulsos, mas ele optou simplesmente por enrolar a corda em volta do pescoço.

Poderia ter sido mais sujo, mais feio, mais dramático. Era o que esperava de alguém como João que era histriônico. Mas ele foi discreto indo contra a maré natural dos acontecimentos, preferiu uma morte “limpa”. Seu corpo continuou balançando por um tempo até que o grupo tomasse coragem de subir até o segundo andar e cortar a corda para que assim o corpo pudesse chegar ao chão, um verdadeiro desastre.

Na natureza, os animais que não se adaptam, morrem; e o ser humano é um dos animais mais adaptáveis do mundo, se acostuma com tudo, arranja um jeito de se camuflar para sobreviver. Aqueles que não conseguem são tragados pelo movimento da vida, é a lei da seleção natural: os mais fortes sobrevivem, os fracos engolidos pelas próprias fraquezas.

O Clã não podia acreditar no que tinham acabado de presenciar. Ver a morte de maneira tão crua e direta é de cortar o coração de qualquer um, e o choro tomou conta do grupo que tentava entender as circunstâncias para isso acontecer.

JC se trancafiou em prantos no mesmo quarto em que João passou a noite, um pedaço da corda vazia ainda esvoaçava para fora da janela.

Ele, sempre atento aos detalhes, logo notou algo que chamou sua atenção.

Um livro de capa preta.

O mesmo livro que João havia comentado antes, estava jogado na cama com suas páginas abertas.

Logo, ele começou a folhear e viu que o mesmo continha a caligrafia de João na última página.

“Isso é o que nós somos, sempre seremos, eu e você e todos que te habitam.
A culpa nos persegue até os confins do mundo, até no pós-morte, ela só aumenta à medida que tomamos consciência. Não quero ter consciência de atos que não foram meus e, sim, dela que agora se derrama pelas paredes brancas enquanto me debato na tentativa de fugir. Mas não há fuga, ela me envolve e me leva para longe, toma o meu lugar, me possui e eu deixo porque estou cansado de lutar.
Paredes brancas, o branco por todo lugar, o vazio, o nada, o chiado apenas, e a dor.
Aquela figura negra ainda me encara."

Continua.