O Alfaiate do Diabo

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Há 4 semanas

Alfred II tinha apenas 8 anos quando seus caminhos se cruzaram com o verdadeiro e puro mal. A maldade era tanta que a criança passou um bom tempo relembrando esse encontro maldito, não importa o quanto ele tentasse, em sua mente as marcas do trauma nunca se apagaram.

A calça era apresentável, o tecido era confortável, finalmente Alfred deixaria de usar os vestidos afeminados, estava na hora de trocar para a boa e moderna calça. Seu pai, Julian II trabalhava para a rainha, segundo ele chamava de "serviços reais". A mãe Charlotte, como sempre descordava do marido, o chamando de "capacho da rainha" para as amigas tão fofoqueiras quanto ela. Charlotte era uma mãe tão autoritária quanto o pai, ambos tinham o gene forte e arrogante, Alfred por um lado tinha uma personalidade diferente dos pais, era dócil e um pouco ingênuo, mas bem observador. Charlotte não aceitava contratar uma babá, pois achava que todas eram segundo ela "vacas golpistas que só aceitam esse trabalho para roubar nossos maridos", o garoto ainda se lembrava de toda a conversa de sua mãe com a amiga peituda. Apesar de ser uma criança, Alfred II era esperto e estrategista, como Charlotte não o deixava ter muitos amigos, o menino se imaginava em muitas situações e consequentemente ele sempre se saía bem.

Depois de vestir a calça, Alfred segurou a braguilha da calça determinado a não deixar cair, caso isso aconteça Charlotte iria o deixar de castigo por ser desajeitado, ele não queria isso. Depois de vestir, ele desceu às pressas, sua mãe Charlotte tinha acabado de vestir o vestido azul que ela tanto gostava, com muitos babados e mangas bufantes, para acompanhar um chapéu com penas de pavão. O menino achava sua mãe bonita, mas nunca lhe disse isso por medo de ser castigado ou levar bronca da figura materna.

Ambos foram até o veículo transportador -anos mais tarde chamariam de "carro"-, ele sempre se encantava ao sentar no banco de couro do veículo. Segundo seu pai, o automóvel foi dado de presente pela própria rainha. O menino não sabia o porquê de fato o pai era tão importante assim, mas o automóvel foi de longe o melhor presente que a sua família ganhou.

No caminho o garoto observava ao seu redor, a pacata cidade tinha uma beleza mórbida, semelhante à um terreno de fábricas. A fumaça tomava conta da estrada, era impossível gostar de passar por lugar assim, mas estávamos acostumados com a pouca visibilidade, já que não era tão diferente da cidade. Alfred bufou baixinho em seu assento, tem certeza de que sua mãe não ouviu, mas por precaução olhou de canto para o seu rosto. Ela parecia estar apreensiva, suas mãos tremiam ao segurar a bolsa importada da França, com a boca rígida e seca, não estava bem. Mas o menino teve medo de perguntar o motivo, talvez se ele tivesse perguntado a ela, aquilo não teria acontecido. Talvez Alfred já estivesse enlouquecendo, mas tinha certeza de que ouviu alguém dizendo no fundo de sua mente "bom garoto". O automóvel parou.

Alfred se virou para a mãe, seu corpo ainda imóvel como se tivesse visto um fantasma, completamente em choque. Já sua respiração ofegante o assustou, algo definitivamente estava errado, aquela não era Charlotte, nem sua mãe. A mulher depois de alguns segundos em transe hipnótico, se virou para a criança de forma sincronizada com o braço. Pegou em sua mão e jogou duas moedas. Alfred sentiu a pele gelada da mulher tocar em sua mão, um calafrio percorreu por todo o seu corpo, só parou quando a voz da mulher o atingia como facas afiadas. Sua voz era diferente, o menino nunca tinha ouvido algo assim. Seus tons pareciam confusos, no início estava grave, depois passou para um agudo estridente. Ela disse:

- Alfred II, vá arrumar sua calça, quando o serviço acabar, entregue o dinheiro. Se não entregar, vai se ver comigo! Entendeu?

O menino mal terminou de responder quando a porta se abriu, ele se virou com receio de sair, mas o medo súbito de ficar ali o fez sair do automóvel rapidamente. O automóvel começou a se mover, a mulher que se parecia com Charlotte conversava com alguém ao seu lado, não conseguia entender o que ela falava, mas seu jeito de conversar era o mesmo que de sua mãe fofocava com as amigas. Mas... não tinha ninguém ao lado dela.

Após o término da cena bizarra, o menino sentia seu coração pulsar, o suor frio descia pelas linhas de seu rosto definido pelo medo. A cada passo que ele dava era uma nova incerteza. Passo 1: Aquela era a sua mãe? Passo 2: Será que era apenas uma brincadeira dela? Passo 3: Se era uma brincadeira, por quê tão longe de casa? E...que lugar era esse?

No terceiro passo Alfred se questionou duas vezes. Esse era o resultado de uma mente perturbada pelo medo da incerteza, mas não importava o que ele pensava, suas perguntas só estavam começando. Após dar mais alguns passos confusos, algo chamou a atenção do menino, entre a densa neblina. Por ser pequeno o menino achou que era uma pequena casa, mas quanto mais se aproximava, a coisa se manifestava. Ele andou até conseguir enxergar melhor o que era, ao se dar conta do que seus olhos viam, engoliu seco. Por conta da surpresa, as moedas que até então presas em sua palma da mão, caíram no solo arenoso. Ele rapidamente se abaixou e fisgou as moedas do chão. Livre de qualquer distração, Alfred observou bem a caravana à poucos metros de distância do menino. A caravana tinha um visual rústico, com cores bordô e algumas lanterninhas coloridas grudadas na lateral. Para finalizar, uma placa ao da porta dizendo: "O melhor alfaiate da região".

Se fosse pela placa, o menino acharia que aquela caravana era apenas uma caravana cigana comum. Mas havia algo diferente sendo transmitido, uma vibração ruim que seus pêlos arrepiavam quando sentia contato. Depois de algumas viradas de cabeça e arrepios em sequência, Alfred decidiu seguir em frente e bater na porta da caravana. Para se livrar ou (tentar) esquecer seu medo, contou seus passos até chegar em seu destino final. Foram-se... 1...2...dor de cabeça repentina...3...4...suando frio...5...6...a porta da caravana.

Ao levantar o braço, um som assustador surgiu no ar. Se não fosse sua coragem herdada por seu pai, o menino teria corrido de lá sem nem se dar conta de que era uma porta rangendo. A porta da caravana se abriu aos poucos, até ficar totalmente aberta e com livre acesso. Pensamentos ruins ecoavam em sua mente, do tipo que garotos de 8 anos nunca pensariam. Uma sensação estranha e ameaçadora emanava no ar. Talvez teria sido melhor se ele tivesse corrido, talvez não, com certeza. Naquele momento já era tarde demais para ele, o interior da caravana parecia ser maior do que o exterior mostrava. Ou talvez Alfred fosse muito pequeno para entender os tamanhos e suas dimensões -não sabemos-. Ele nunca tinha visto tanto material de costura junto, os materiais ficavam acumulados nas laterais da caravana. Aquele lugar estava longe de ser arrumado, mas fora isso, não era muito diferente de um ambiente de trabalho. Ao longe Alfred escutava uma música, sua melodia triste combinava perfeitamente com a situação. Ele nunca tinha ouvido uma música antes, era algo raro de se ter e ouvir naquela época. Os instrumentos pareciam chorar de melancolia, as sensações estranhas tomavam conta de seu corpo.

Andando em passos lentos, Alfred avistou uma cortina longa rotatória, suponhou de que ali era a área de trabalho do alfaiate, onde ele costurava e reparava as roupas de seus clientes. Ao chegar mais perto, o menino demorou um pouco para identificar o que seus olhos viam. Era algo escuro e grande, a coisa se moveu e o menino pensou: "Ah...É uma sombra."

A música triste pairava sobre o ar e parecia estar mais alta. A cortina vermelha se abriu. O alfaiate surgiu dos fundos, sua roupa era estranha e muito peculiar. Ele vestia um conjunto de roupas pequenas, algumas minúsculas, todas formando uma só, mais para um boneco de voodoo à uma roupa normal. Pra piorar, sua aparência não era das melhores. Seu rosto estava incrivelmente feio, semelhante à uma caveira pirata coberta com pele humana enrugada. Um ombro mais alto que o outro, o sujeito além de ter uma aparência horrível, era torto. Alfred teve uma sensação de que o alfaiate era uma aberração encarnada -e ele não fazia ideia do que "encarnada" significava-. O alfaiate andou com seus passos apressados até o menino e disse:

- Bem vindo Alfred, sua mãe me contou de que quer costurar um zíper em sua nova calça.

O menino hesitou para responder, em sua mente se questionava como o homem aberração sabia que ele tinha vindo para costurar o zíper, sendo que sua mãe nunca havia o visto antes ou falado com ele. Talvez ela tenha enviado uma carta para ele, mas Alfred duvidava muito que algum entregador iria para literalmente no meio do nada entregar uma carta, ainda mais para uma caravana cigana. A natureza educada de Alfred o impedia de ficar em completo silêncio, então ele respondeu, com uma certa frieza:

- Charlotte me mandou vir aqui, o senhor precisa me ajudar a costurar o zíper, trouxe dinheiro para pagar seu serviço.

O menino continuou a olhar para o chão, estava evitando ao máximo encarar os olhos do homem defeituoso. Ele olhou para cima, afim de observar o teto e sem querer visualizou o rosto do infeliz. O alfaiate sorria, um sorriso assustador. O menino tornou a fitar o chão, quando ouviu:

- Não se preocupas criança, irei cuidar muito bem de você.

Após dizer isso, sua mão fez um sinal para que Alfred se sentasse no banquinho do centro. Para a infelicidade da criança, novamente ele submeteu ao comando do homem defeituoso, e se sentou.

A criança sentia uma montanha russa em seu estômago, seu nervosismo repentino o fazia passar mal. Respiração ofegante, mãos trêmulas, suor que não parava de pingar. O homem defeituoso se ajoelhou em sua frente e começou a trabalhar, suas mãos eram ágeis e Alfred nem percebeu que o trabalho já estava quase terminado. Quando ele menos esperava, o burulho do zíper se fechando atraiu a atenção do menino. Olhou para baixo e viu seu novo zíper costurado, se não fosse tais circunstâncias, ele estaria dançando de tanta animação, mas agora, ele só queria sumir dali. Ele fez menção de se levantar quando a mão do homem se posicionou em seu ombro, as pequenas mãos da criança já estavam vermelhas de tanto pressionar as moedas contra sua pele. O homem se levantou e deu a volta no banquinho, até ficar por trás do menino. O medo foi tanto que a dor em sua mão até parou. O menino se preparou para correr quando o ouviu tirar algo de trás da cortina vermelha, era uma caixa preta decorada com laços vermelhos. Ele abriu a tal caixa misteriosa e retirou uma coisa estranha de lá, era uma mini garrafinha de vidro, com uma agulha dentro. Na tampa da mini garrafinha tinha uma fitinha, escrito algo com letra cursiva, o menino forçou às vistas um pouco e conseguiu ler o conteúdo. Na fitinha tinha um nome, o seu nome. O homem retirou a tampa e puxou delicadamente uma agulha lá de dentro. No topo dessa agulha, uma bolinha vermelha estava colada. Novamente um pressentimento ruim tomou conta dos pensamentos de Alfred, dessa vez, ele precisava fazer alguma coisa, ou algo bem ruim iria acontecer com ele. Não deu muito tempo quando ele agiu, se levantou rapidamente do banquinho e partiu em direção a porta. Conseguiu sentir o pano da cortina em seu rosto, mas a doce liberdade não durou muito. A mão do homem puxou seu cabelo, Alfred gritou com a força sobrehumana machucando sua cabeça. Foi puxado para trás, mas sua luta só estava começando. A voz do homem havia mudado, estava mais grave e assustadora, como se de fato tivesse sido possuído por alguma coisa maligna, ele disse:

- O MEU TRABALHO NÃO TERMINOU SUA CRIATURA INSOLENTE!!

O corpo do menino bateu com força no banquinho, o impacto fez ambos caírem. Estrelinhas rodavam em seus olhos, sua visão demorou alguns segundos para ficar nítida novamente. Ao se recuperar, o homem já estava em cima dele, segurando com firmeza a agulha em sua mão. A agulha chegou nem perto dos olhos do menino, mas ele conseguiu segurar seu braço a tempo. Apesar de suportar no início, ele não daria conta de aguentar, precisava urgentemente de fazer com que o homem caísse ou o soltasse, ele precisava de apenas 1 segundo. Diante de tanta adrenalina, os olhos de ambos se encontraram, uma expressão vazia e serena cobriu o rosto do homem defeituoso. O garoto usou essa brecha para chutar no meio das pernas do homem, ao fazer isso, ele se levantou rapidamente e pressionou a agulha na maçã de seu rosto. O homem cambaleou para trás e puxou a cortina consigo, o menino se levantou e olhou para cômodo por onde passou antes. O lugar se transformou em um verdadeiro inferno, os materiais de costura sumiram e foram substituídos por corpos de outras crianças penduradas, haviam agulhas perfuradas em seus olhos. Alfred começou a chorar, por um momento até se esqueceu de fugir, mas o alfaiate estava se contorcendo no chão. Com certeza havia algo bem ruim na agulha, ele não fazia ideia do que podia ser, mas saber a resposta, sem chance. O menino começou a correr em direção a porta da caravana, o lugar tinha um cheiro forte de sangue, fez Alfred cambalear. Ele se recuperou e deu uma última olhada para trás, o homem defeituoso estava se levantando com dificuldade, havia algo de diferente em seu rosto...não tinha só 1, mas vários outros rostos diferentes em uma mesma cabeça. Ele conseguiu ver um rosto animal, talvez um lobo feroz, outro momento mudou rapidamente para um palhaço com os dentes tortos e por fim, o rosto de um homem com um bigodinho pequeno debaixo do nariz, ele parecia estar em dor ou gritar, Alfred já tinha atravessado a porta e não tinha tempo para adivinhar.

45 anos depois

Alfred se encarregou de levar seu filho mais velho Arthur para consertar um rasgo em sua calça. Não deixou sua esposa Cynthia fazer o trabalho pois ela era muito ruim com costura, e para reforçar seus argumentos, a mesma estava grávida de 4 meses. Aquele seria o 3° filho do casal, uma menina chamada Zara.

Ao voltar do trabalho na fábrica de carros, um folheto caiu aos pés de Alfred. Ele pegou o folheto, e o conteúdo chamou sua atenção. Havia um endereço e comentava sobre uma pessoa que costurava bem e fazia por um bom preço seu serviço. Ele resolveu levar seu filho para costurar o rasgo, deu beijos e abraços em seus filhos, por fim um chamego na esposa. Dessa vez, resolveram ir de bicicleta. A família apesar de ter boas condições de vida, eles tinham uma vida simples e sem extravagâncias, o casal resolveu viver assim após o pai de Alfred ser preso por corrupção e se envolver com comunistas da época. O fardo desse acontecimento marcou sua vida negativamente, o casal teve que se mudar de cidade por conta disso. Andar de bicicleta não era uma tarefa difícil, Alfred gostava da simplicidade e alegria que a bicicleta transmitia, Arthur o menino dos olhos cor de mel também adorava estar com o pai. A estrada estava vazia nessa parte da cidade, o caminho para chegar até o tal endereço era um pouquinho longe do que o normal. O endereço se passava em uma área de fábricas, Alfred conhecia bem esses locais já que trabalhava em um. Os dois deram uma volta nos arredores, por fim encontraram o tal endereço em uma rua atrás de uma fábrica de cigarros, não parecia ter ninguém trabalhando lá. Alfred estranhou aquele silêncio todo, segunda-feira não é dia de folga, o lugar era para estar lotado de homens indo trabalhar.

Ambos chegaram no endereço correto, Alfred parou a bicicleta e deu um beijo na testa de seu filho Arthur, dizendo palavras confortantes a ele:

- Espere aqui, vou encontrar a casa da costureira.

Ele começa a andar pela rua silenciosa, apesar de ser uma rua bem ampla, não tinham muitas casas para se visitar. E para piorar, as únicas casas que tinham por lá pareciam estar empoeiradas e com uma péssima aparência. Era como se essa rua tivesse sido esquecida por todos que um dia moraram lá, se alguém morou ali. Mas uma casa salvou diante de tanta feiúra. Era uma casa pequena, mas arrumada. As luzes estavam acesas, ao que aparenta tinha alguém morando lá. Alfred decidi ir bater na porta, seus instintos de pai protetor gritavam em sua mente, deixar Arthur sozinho não era uma boa ideia, já que o garoto era bem medroso. Mas já que ele não ia demorar ali, não se importou em o deixar esperando na bicicleta.

Bateu na porta duas vezes, na primeira não houve resposta, mas na segunda vez a porta se abriu. Não havia ninguém lá dentro, os móveis estavam cobertos com lençóis brancos e fedia a mofo. Alfred sentiu uma sensação estranha de déjà vu, mas não conseguia se lembrar de muita coisa, já que as memórias de sua infância foram apagadas quando ele caiu da escada aos 11 anos. Quando se preparava para voltar, um som peculiar surgiu dentro da casa, uma luz se acendeu. O homem corajoso dentro de si anda pela sala à procura da luz acesa, talvez alguém estivesse precisando de ajuda ou coisa do tipo. Ele encontrou uma porta entreaberta, no chão dava pra ver o reflexo da luz acesa. Antes de entrar, ele observou a plaquinha pendurada na porta, escrita "Bem vindo". Por mais estranho que pareça, Alfred não se incomodou com aquilo, um sentimento de curiosidade queimava como chamas dentro de si, ele queria ver o que tinha lá dentro.

Ao entrar no tal cômodo, Alfred sentiu uma tontura que o fez cair no chão. Não deve muito impacto, alguma coisa o ajudou a não se machucar. Ele pegou os objetos e seu coração acelerou, por algum motivo desconhecido. Eram rolos de linhas para costura, de diversas cores, mas a maioria predominante vermelhos. Não entendia o porquê aqueles objetos fizeram seu coração acelerar, só ficava assim quando sentia medo..."mas medo de quê?" Ele se perguntou, mas não queria saber a resposta.

Com o corpo já firme e livre da tontura, ele se levantou, finalmente poderia ver o que tinha dentro do cômodo. A surpresa veio como um soco em sua cara, ele balançou a cabeça e passou a mão nos olhos, não entendia como aquilo era possível. O cômodo -que não era cômodo- o fez refletir sua insanidade, talvez Alfred estivesse louco, não dava para saber. As paredes tinham formatos redondos, aquilo não parecia um quarto. Aparelhos de costura e linhas estavam espalhados por todos os cantos, as poeiras e teias de aranhas também tiveram presença. Agora a testa de Alfred pingava de suor, suas mãos tremiam sem parar, alguma coisa estava errada. Ele se levantou e desistiu da ideia de procurar saber que lugar era aquele, passou tempo demais longe de Arthur, precisava ver como a criança estava. Mas ao tentar sair, a porta trancada o impedia de fugir. Sem entender, o homem começou a ficar desesperado, batia com força na porta redonda de madeira. Quando não conseguiu o que queria, ele se lembrou. Alfred lembrou de tudo. De algum jeito, ele foi parar na maldita caravana. A caravana que durante anos o atormentou causando diversos pesadelos, aquela não era a pior parte, pois se ele estava da dita caravana, o alfaiate também estava lá. Ao se der conta de que para sair dali era preciso lutar, ele se virou e encarou o final, onde a cortina vermelha chamava sua atenção. Ele sabia que o alfaiate do diabo estaria ali, afinal, foi o mesmo lugar onde os dois tiveram um confronto anos antes. O corpo de Alfred se mantinha em posição de defesa, ele esperava qualquer aparição, não importava o que fosse. Ele lutaria. A primeira aparição foi totalmente inesperada, a cortina foi aberta aos poucos e uma mão gigantesca a arrastava. Alfred pegou o cabide de pendurar roupa para usar como defesa e o quebrou no meio, uma estaca de madeira pontuda e perfeitamente mortal -era o que ele pensava-. Seu preparo mental não era dos melhores, apesar de querer vingança, tinha medo de não fosse forte o suficiente para derrotar a criatura. Mas os vislumbres do passado o fez ter mais determinação, as imagens das crianças mortas eram suficientes para o seu ódio dar sinal de vida. No instante em que a criatura se mostrou, vestígios de seu medo também surgiram. A criatura era tão grotesca e medonha que Alfred se urinou todo. A aparência diabólica fez seu estômago revirar, mas por sorte ele conseguiu engolir o vômito. Uma voz aterrorizante surgiu por trás da cortina vermelha velha, dizendo:

- Bem vindo de volta, criança insolente!

A criatura gosmenta se arrastou devagar pelo chão, mãos, pés, braços e pernas grudadas em seu corpo. Era como se ele tivesse tentado devorar aqueles corpos, mas parou no processo. Ao se der conta da monstruosidade, Alfred tentou rezar e pedir proteção para seu pobre filho inocente que o esperava, mas já era tarde demais para ele. Seu destino trágico ficou marcado na pele gosmenta do monstro, ao tentar matá-lo a estaca cortou e rasgou uma parte de seu corpo monstruoso. Mas não foi o suficiente para acabar com a vida da criatura, talvez uma cicatriz ficaria marcada no lugar, ele nunca ia saber.

Arthur já estava cansado de esperar por seu pai, o sono o fez sentar ao lado da bicicleta e sem querer cochilar por alguns minutos. Um cochilo rápido, até porquê se ele dormisse ali levaria bronca do pai quando voltasse, dizendo sempre o mesmo discurso: "Não durma em qualquer lugar sem a supervisão minha ou da sua mãe, nunca se sabe quem pode aparecer e fazer maldade com você". O menino esfregou os olhos e escutou um som diferente ao longe, uns segundos depois seu sorriso aumentou ao descobrir que era uma música. Apesar de ser triste e lenta, a música trazia um sentimento bom e confortante, alguns segundos depois o menino já estava hipnotizado seguindo o som da música. O ambiente ao seu redor mudou e ele nem percebeu, mais a frente uma caravana com lanternas coloridas piscavam em um ritmo constante. A placa ao lado da porta dizia: "O melhor alfaiate da região".

Comentários

Anônimo
Amei, ficou perfeito ❤️
23/09/2020
Anônimo
Socorrinhooo! Morri de medo jdjjendks mto boa a história
23/09/2020
Anônimo
Ótima história
23/09/2020
Anônimo
Achei muito interessante, e o final foi surpreendente. Mas queria que detalhasse melhor o final, entretanto gostei do monstro alfaiate!
24/09/2020
Anônimo
Fiquei com medo, gostei do conto.
24/09/2020
Anônimo
Arrepiei todo, eita
24/09/2020
Anônimo
A narrativa arrepiou...irei ler mais suas obras
24/09/2020
Anônimo
Uau, esse monstro poderia facilmente ter sido criado pelo Neil Gaiman. Pelas características físicas e peculiares dele, adorei o conto!
25/09/2020
Anônimo
Amei!
28/09/2020