Abriu a porta singela de madeira, degastada pela ação impiedosa da maresia, produzindo um som nostálgico e agradável ao ouvido, ela olhou saudosista para o pequeno portão, fechou os olhos respirou fundo, soltando todo ar que havia em seus pulmões, admirou aquele fim de tarde, segurando com todas as forças, as lágrimas, não chorou, porém, ficou com olhos marejados, com lábios emocionalmente trêmulos, se despediu dos últimos raios de sol, o céu assumia um tom ameaçador, sem demoras, a noite veio.

Ainda com os braços e costas, gentilmente apoiados no portão, retirou o colar de dentro da larga e velha camisa branca de algodão, estremeceu ao sentir o toque nostálgico e gélido, apertou fortemente aquela peça de artesanato local, provocando um pequeno ferimento na palma da mão, havia se tornado prisioneira daquelas lembranças amargas, a angústia abraçou, estremecendo, as ondas tocavam estranhamente cada grão de areia branca, daquela exótica praia.

A lua pálida e brilhante iluminava seu rosto igualmente pálido, estava ofegante, tentou se manter sã, porém, suas tentativas foram em vão, atordoada amarrou o cabelo de forma despretensiosa, aquele quebrar de ondas, havia se tornado mais violento, aqueles ventos nostálgicos, sopravam com mais intensidade,  despertando seus demônios interiores, trancafiados em masmorras de paredes imensas, onde não há luz, onde habitavam as mais perversas formas de pensamentos, um lugar nefasto que muitos tentam esconder.

Devaneios dos mais absurdos ressoavam em sua mente, fragmentada, desesperada, recorre a uma forma banal, no bolso de trás da bermuda jeans, retira um isqueiro e uma carteira de cigarros, mãos e lábios trêmulos, adquiriu esse hábito com o ex-marido, lutava para abandonar, mas guardava tanto a carteira, como o isqueiro como lembranças dele, apoiou o cigarro entre os lábios trêmulos, acendeu e tragou profundamente, soltando a fumaça entorpecente, que se dissipava com rapidez, na infinita escuridão, lentamente sentiu, os efeitos tranquilizantes, vislumbrou o mar, com o cigarro sustentado por seus lábios, tremeu ao sentir o toque pútrido e repulsivo da brisa marítima.

Segurou nas madeiras do portão, para não desmaiar, traga pela última vez a fumaça, livrando-se do cigarro, então, volta para casa, tropeçando pela areia branca, tranca a porta, e desaba em pesadas lágrimas de culpa e medo.

Estava longe de superar tal perda, o vazio deixado por ele, era um abismo terrivelmente infinito, o qual ela estava em queda livre eternamente, esse sentimento deteriorava sua sanidade, aquelas memórias assombravam cada cômodo da casa, ouvindo o som das ondas, pensou algo perturbador, fazendo seu corpo estremecer.

Aquelas águas escondiam algo desconhecido.

Aquele fatídico dia, não abandonava sua mente, enquanto seus olhos repletos de angústia, contemplavam o vazio daquela casa, sentiu, algo emergindo das profundezas do seu subconsciente, para tortura-la. De forma impetuosa, a tal lembrança surgiu. Em uma certa noite, Paulo que dormia profundamente, tivera o sono interrompido, emitindo um horrendo urro, rompendo o silêncio daquela noite.

O terror escorria dos seus olhos assombrados, ele havia vislumbrado algo tenebroso através do mundo cósmico dos sonhos, assustando terrivelmente a esposa, com uma fisionomia perturbadora, ele relata o pesadelo à esposa, que ouvira tudo com olhos aflitos, em seguida, abraçou fortemente e beijou, desde então, Paulo passou a observar o misterioso mar, com uma estranha atração e um certo temor, através do portão corroído pela maresia.

Os dias foram se passando, e aquele pesadelo ressoavam no seu subconsciente, uma estranha obsessão pelo mar crescia gradativamente, se tornando cada vez mais introspectivo, tratava a esposa com aspereza, a obsessão havia se tornado severa, culminado em um ato impensável.

Estes momentos amargos, dilaceravam sua mente estilhaçada, então, com olhos molhados de dor, enxerga uma cartela de comprimidos, sob a pequena mesa de madeira, não queria aquilo, porém seu corpo debilitado precisava, com muita dificuldade, engatinhou até a mesinha, apoiou-se nela, ergueu aquele comprimido a boca engoliu a seco, engasgando logo após, sentou sob aquele chão de cimento gélido, com a cabeça mergulhada em seus joelhos, murmurando em uníssono: você disse que voltaria! Você disse que voltaria! Você disse que voltaria!

As lamentações se estenderam por breves minutos, suas  pernas estavam frenéticas, com os braços envolta dos joelhos, sentiu que sua temperatura corporal havia abaixado, seu corpo agora estava mais leve, os efeitos foram devastadores, sem demora, desmaiou, acordando no dia seguinte com tremores por todos o corpo, os cílios cobria seus olhos da claridade  impetuosa, esfregou os olhos, pronunciou alguns palavrões, tentou se reerguer, apoiando-se nas paredes, o movimento das pernas, escaparam por um momento, mas conseguiu se manter de pé.

Caminhou para o banheiro, se despiu, de olhos fechados, permitiu que a gélida água do chuveiro gentilmente tocasse seu corpo, apesar da água estar fria, aquele banho foi acolhedor e revigorante, desligou o chuveiro, trocou de roupa e cumpriu suas funções diárias sem muito interesse, assim que foram cumpridas, deitou-se com seus fantasmas, a noite chegou sorrateira, odiava a noite, pois seus temores afloravam.

A loucura deixada por Paulo após seu desaparecimento, preenchiam toda a extensão daquela residência tornando-a claustrofóbica, passou a ouvir um zumbido nefastos, causando dores insuportáveis, tampou os ouvidos, mas foi em vão, pois se transformou em palavras inaudíveis, palavras essas que Paulo sussurrava pelos quatros cantos da  casa, sentada na cama, ouvindo aquelas palavras repulsivas, se contorceu, seus  batimentos aceleraram, ofegante, com mãos gélidas, segurou o colar, com uma forma de proteção, com olhos fechados, implorou que as lembranças a deixassem em paz.

Possessa pelo efeito nostálgico daquela lembranças, abriu a porta, caminhou em tropeços, abriu o pequeno e desgastado portão de madeira, vislumbrou o céu, com poucas nuvens, porém, a lua pálida trazia um brilho assustador, iluminando toda extensão do mar, devido ao intenso brilho pálido, as ondas tinham um aspecto de pérolas cintilantes, bailando na infinita escuridão, algo nunca visto, extasiada por tal visão, ela cai de joelhos, na areia branca, respira fundo, o medo inexplicável resplandece em sua pele, através de arrepios e espasmos.

O vento sopra mais intensamente, trazendo grãos de areia, que tocaram gentilmente sua pele, fazendo-a gritar histericamente em direção às ondas que se tornavam mais agressivas, em seguida deflagrou incontáveis socos na areia, acompanhados de insultos e risos bizarros, estava esgotada de tanto gritar, respirava ofegante, sentada, fechou os olhos, uma onda de espuma fétida a tocou, abriu seus olhos imediatamente, gritou, porém não conseguia sair de lá, aquelas águas exerciam uma influência sob ela.

Em estado de catalepsia, ela caminha lentamente em direção ao mar sombrio, seus olhos permaneceram inertes, como em um transe demoníaco. Continuou a passos lentos, sentiu seu corpo sendo puxado para o abismo, sem demora as águas sombrias a devoraram por completo.