Já havia um tempo que estava procurando por um local para morar, a cidade grande já estava me dando nos nervos, toda essa agitação, correria, barulho e caos já estava afetando minha saúde física e mental e não queria ficar louca antes dos meus 60 anos. De tanto procurar, finalmente encontrei um bom lugar distante da cidade, um lugar um pouco remoto e tranquilo, seria o meu refúgio de tudo isso.

Trabalho no ramo de publicidade e passo mais tempo em casa do que propriamente no escritório, então precisaria de um lugar assim, mais tranquilo e sossegado. O dono da propriedade estava pedindo um preço bem abaixo do mercado e isso estava bem estranho pra falar a verdade, mas quem sabe não era apenas alguém desesperado que estivesse com bastantes contas para pagar, tentei pensar dessa maneira.

Após uma longa conversa, fechamos negócio com o preço que ele estava oferecendo. Perguntei o porquê da casa ser tão barata assim, e ele me disse que precisava cuidar de sua mãe que estava internada em um hospital na capital e que o dinheiro ajudaria nisso. Me senti um monstro ao pensar que havia algo errado na casa.

Resolvemos toda a burocracia com o banco e a escritura da propriedade e assim que fiz o pagamento, cuidei logo de comprar alguns materiais para reformar a casa. Não que ela estivesse caindo aos pedaços por ser uma propriedade antiga, mas não gosto de morar em uma casa onde já moraram várias pessoas e continuar ainda do mesmo jeito, é um tipo de misticismo que tenho, ninguém sabe o que essas casas antigas escondem, então preferi não correr o risco de descobrir da pior maneira possível.

Percebi que isso ia demorar um pouco, afinal teria que me desdobrar com a casa nova e o meu trabalho, estava ainda com alguns trabalhos pendentes que precisaria terminar antes que começasse a reforma. Depois do fim do meu casamento a três anos, preferi continuar sozinha e me dedicar ao meu ramo de trabalho, queria crescer profissionalmente antes de me relacionar de novo. Talvez meu casamento tenha sido bem desgastante para mim, ele não era um rapaz tão fiel quanto pensava e só fui ver isso após ver as suas conversas com outras mulheres em seu celular, conversas bem picantes por sinal. Então resolvi acabar com tudo e seguir minha vida só.

Após uma longa noite de muito trabalho, finalmente consegui terminar todos os trabalhos pendentes e deixar já alguns pré-iniciados e dar início a reforma da minha nova casa. Já estava ansiosa para me mudar e ter um pouco mais de tranquilidade e paz.

No dia seguinte cheguei cedo a casa, alguns passarinhos cantavam nas copas das árvores próximas da varanda, uma brisa fria empurrava a grama verde que rodeava todo o lugar, o sol forte já clareando as primeiras horas do dia faziam com que todo aquele lugar isolado se tornasse um paraíso aos meus olhos. A sensação de um novo capítulo em minha vida brotava dentro de mim como o desabrochar de uma flor.

O primeiro cômodo a ser demolido foi a cozinha, ela realmente estava precisando de muitos reparos e era onde queria deixar bem aconchegante, afinal seria nela que passaria a maior parte do meu tempo, então queria deixar bem ao meu estilo.

Comecei a remover o papel de parede que já estava bastante manchado e com marcas do tempo. Cada pedaço tirado era algo bastante satisfatório, dando uma sensação boa e agradável. Assim que fui arrancando os pedaços do papel de parede, foram aparecendo várias datas e nomes escritos na parede, isso me deixou bastante intrigada do que poderia ser aquilo. Continuei tirando e cada pedaço do papel de parede que arrancava, mais nomes e datas iam aparecendo.

Assim que a noite chegou, peguei meu computador e fui pesquisar nome por nome e data por data que continham nas paredes para ver se haviam algum sentido ou se estavam interligados de alguma maneira, ou que fosse apenas alguém sem ter muito que fazer, escreveu esses nomes e datas, sem ter alguma lógica, apenas por diversão.

Pesquisando fui descobrindo que os nomes eram de pessoas desaparecidas e as datas dos desaparecimentos, eram as mesmas que estavam na parede da cozinha. Congelei ao ver tudo aquilo, pessoas que haviam desaparecido e jamais haviam sido encontradas, todas tinham passado pela casa ou quem sabe, ainda estavam por lá. Peguei meu telefone e liguei para a polícia local para virem até a casa pela manhã para checarem se eu não estava ficando louca ou algo assim.

Assim que eles chegaram pela manhã na casa, fizeram as mesmas pesquisas e já tinham todas as datas e nomes no banco de dados da delegacia. Era real, todos os nomes e datas eram os mesmos das pessoas que estavam desaparecidas. Ligaram e procuraram o homem que havia vendido a casa para mim, mas nenhum rastro encontraram, nem mesmo o nome de sua mãe constava no hospital que ele havia relatado para mim. Isso me deixou em choque e sem reação alguma.

A casa foi interditada como cena de crime e tentei dar todo o apoio para os policiais falando tudo que sabia. Estava próximo ao meu carro quando um dos policiais chegou comigo e perguntou se havia sido eu que tinha tirado o papel de parede, respondi que sim, ele então olhou para mim com uma expressão preocupada e disse: “O que tinha na parede, era humano. O que você removeu, não era papel de parede!”.