Há alguns dias, após a morte de minha esposa, mudei-me com meus filhos gêmeos para uma pacata cidade onde normalmente não há nenhuma ocorrência, tanto é que não há ronda policial e a delegacia mais próxima fica na cidade vizinha.

A razão de eu querer mudar-me para cá foi justamente essa suposta tranquilidade que é oferecida aqui.

Há alguns poucos habitantes, pequenos comércios que oferecem o básico e, como costumo buscar alimento fora da cidade, isso nunca foi um incômodo.

Trabalho como encanador e dedetizador também, é o que garante o alimento de meus filhos.

Nosso relacionamento é um pouco conturbado: eles mal falam comigo, principalmente após a morte da mãe. Não tenho certeza sobre como isso os afetou, mas tenho a impressão de que algo mudou neles.

O caso é que, ultimamente, eles andam sumindo o tempo todo e apenas vêm a mim quando estão com fome, não sendo nem um pouco educados.

Vez ou outra, quando vou ao centro da cidade, noto olhares tortos e repulsivos das pessoas em mim. Não consegui fazer nenhum amigo desde que cheguei. Uma pena, pois fazer amigos novos seria muito bom e útil.

Acho que me olham assim porque provavelmente devem ter visto meus filhos por aí, aprontando alguma coisa.

Preocupo-me muito em ser um bom pai aos olhos de meus garotos. Tenho medo de que passem a odiar-me caso não atenda atenciosamente as vontades deles. Não sei se isto é o certo, mas não quero acabar como minha esposa só por tentar impor limites a eles: devoraram-na com tanta ferocidade que seus gritos não passaram de um minuto.

Aliás, devem estar com muita fome... Ainda bem que me contataram para consertar um encanamento. Isto me garantiu a chance de levar comida para casa. Preciso chegar logo antes de que o corpo fique frio — meus filhos não gostam quando a carne começa a apodrecer.