Não foi por falta de tentativa. E mesmo depois de tanta rejeição, persisti ao máximo. Talvez o problema fosse a minha abordagem. Sei lá! Mas não sou do tipo que desiste. Chegaria o momento em que Bianca reconheceria meus esforços. Faria de tudo para conquistá-la.

Ela estudava psicologia na UFC, tinha um carisma magnético. Atraía vários olhares. Uma voz firme e rouca. A primeira vez que a vi numa dessas festas universitárias, esse negócio de amor à primeira vista passou longe. A primeira impressão dizia que era só uma garota comum. Mas o tempo construiu o edifício, tijolo por tijolo, as colunas e a base. Aquela evolução que todo mundo conhece: admiração, respeito, confiança e, por fim, amor.

E como todo excesso faz mal, tive que revelar o meu amor por ela, digamos que para aliviar esse fardo: o peso que sentimos quando amamos alguém em segredo. Agora pouco falei sobre excesso por um motivo: a maneira que encontrei de expressar tudo foi um tanto quanto exagerada.

Loucuras de Amor era um serviço que podíamos encontrar na internet, com vários pacotes e a melhor opção para o grande momento. Isso mesmo, aquele que envolvia um carro de som cheio de balões com formato de coração, uma mensagem lida através de um microfone e muitos fogos de artifício. Discrição não era o lema do negócio.

Aconteceu na avenida 13 de Maio. Assim que Bianca saiu da aula, o carro dobrou a esquina da universidade e a pegou de surpresa. Ela me esperava junto aos seus colegas da turma de humanas. Escolhi Exagerado do Cazuza para acompanhar a declaração. O volume da música abaixou gradativamente. Então aquele vozeirão de locutor começou:

— Bianca, a futura psicóloga, você está aí? O Lucas tem uma mensagem especial pra você. — O som estava perfeito! — Bianca de Oliveira Batista, escolhi essa canção para lembrar do quanto nos divertimos naquela noite. Você e a cerveja me convenceram a fazer um dueto no karaokê. Cantamos “Exagerado” tão desafinados que a galera mandou a gente ir se lascar. Foi a noite do nosso primeiro beijo. Foi a noite em que seu sorriso quebrou meu coração. A partir dali, decidi que me doaria a você. Minha atenção seria sua. Te alegraria só pra sentir esse amor que o teu sorriso me traz.

A reação era incredulidade. Normal. Ela meteu o rosto nas costas de uma amiga só para esconder as lágrimas. Pouco depois, fiz o pedido de namoro. O champanhe estourou. Fogos coloridos pipocaram, e até ofuscaram as estrelas. E então, Bianca aceitou.

No dia seguinte, eu não via a hora de mudar meu status de relacionamento no Facebook. Mas isso nunca aconteceu. Na verdade, eu só recebi um textão dela por inbox:

“Juro que não consigo entender o que passou pela tua cabeça. Eu tenho muita consideração por ti. E respeito os teus sentimentos. Lógico que eu jamais recusaria um pedido desses na frente de todo mundo. Não quis e nem quero te magoar. Você é um grande amigo e também te amo muito. Mas tudo que rolou entre a gente não passou de momentos legais. Acho que houve um mal-entendido gigantesco. Fico meio bad, considerando a proporção que a coisa toda tomou. Por favor, não fica triste. Sei que esse pedido é meio sem noção. Mas espero de coração que você supere.”

Esse golpe não doeu tanto em comparação aos dias que vieram. Tentei enterrar o fato dela mentir pra mim, como se eu fosse digno de pena. E como assim? Ela não entendia o que passou pela minha cabeça? Talvez o futuro dela não fosse psicologia; mas certamente, tinha que ser comigo. Apesar do golpe, mantive o comportamento de sempre. Busquei a melhor maneira para continuarmos amigos. Mas depois da declaração, Bianca me evitou, usando todo tipo de desculpinha esfarrapada.

Ela nunca estava em casa. Começou a faltar muito, até que por fim, trancou o curso. Sumiu das redes sociais. Depois eu descobri que, na verdade, ela me bloqueou. Por quê? Por nada! Sempre quis que ela me aceitasse, e sempre a procurei, mostrei de toda forma que a amava, e o quanto a atitude dela era injusta comigo. Era só ela aceitar. Ficar comigo não arrancaria pedaço. Agora toda essa rejeição, eu suportei! Até mesmo a droga da medida protetiva que me obrigou a ficar à 500 metros de distância dela. Uma baita covardia!

Loucuras de Horror era um serviço que podíamos encontrar na deep web. Nos anos 80, ele foi tão utilizado aqui em Fortaleza que deu origem à lenda urbana conhecida como Hilux Preta. Havia vários pacotes e ofertas: um carro preto, sequestro, extração de órgãos, tortura e ocultação de cadáver. Dessa vez, discrição era o lema do negócio.

Não demorou para que eles a encontrassem. E depois de um estudo de rotina, pegaram Bianca durante a tarde, um solzão de três horas. Ninguém na rua. Tudo deserto. Eu estava na Hilux. Foi muito rápido. Logo ela nos acompanhou pela BR-116, confortavelmente amarrada na carroceria do carro preto.

Matei a saudade em um casebre no meio do mato.

Aquele sorriso que me trazia tanta satisfação; cada molar, incisivo e canino foram colhidos com um alicate. Aquela gengiva ficou gosmenta. Ainda sinto a sensação quente e molhada. O céu de sua boca banhando minha ereção com sangue. Fazíamos tanto amor! No início, ela lutava muito. Resistia demais. Morder não era algo natural e cortava o clima, por isso fiz a extração.

Hoje em dia, guardo todos os dentes num pote de azeitonas.

Bianca sumiu para o mundo, mas eu ainda a visito.

E finalmente, depois de tanta persistência com ela, fui compreendido. Agora o coração de Bianca só bate por amor. É o amor que ela sente por mim.