"Recentemente aqui no Bairro São Francisco, misteriosos assassinatos vem ocorrendo. Acredita-se que estejam conectados com as estranhas aparições de palhaços…”

– Todo dia é a mesma notícia…. – Disse minha esposa Gabriela.

– Pois é. – Eu concordei, acenando com a cabeça.

Sou Jake. Nascido e criado no Bairro São Francisco. Lugar maravilhoso no qual conheci minha esposa, Gabriela. Temos um filho, Richard, ele tem oito anos. Todo lugar maravilhoso tem suas desavenças, no nosso caso: os palhaços.

Era praxe escutar essa notícia:

"Homem é encontrado morto. Causa da morte: Espancamento.

Vítima encontrada totalmente desfigurada, contendo inúmeras fraturas, dês do crânio até as pernas.”

Logo de cara era possível associar aos palhaços. Aqueles bastardos!

Até determinado momento eu realmente não ligava para eles. Eles espalhavam o caos? Sim. Mas nada a ponto de me fazer tomar uma atitude, afinal não era problema meu. No entanto alguns dias foram mais que suficientes para me convencer do contrário. Certo dia meu filho estava na casa de um amiguinho no bairro. Algumas horas depois comecei a sentir sua falta, sua ausência me deixava angustiado, portanto fui buscá-lo; a pé. Ao chegar lá, o pai do outro garoto disse que meu filho já havia ido embora; sozinho. No momento tive a insana vontade de matá-lo. Como que ele podia deixar uma criança caminhar sozinha com esses palhaços à solta? Como eu não me deparei com meu filho durante o percurso? Sai correndo, sem dar uma explicação sequer. Idiota.

Refiz o caminho. Dado momento em um beco escuro, onde a ausência de luz predominava, vi uma silhueta, formada por luzes refletidas do sol, por raios solares que se perderam, errantes. A silhueta assemelhava-se a de um palhaço. Uma onda de medo e pavor tomaram conta de meu ser, entretanto não era uma opção fugir, sabendo que meu filho poderia ser uma vítima em potencial. Peguei um pedaço de cano que estava nos arredores, aproximei-me lentamente até sua localização. Meus passos não disseminavam ruídos. Assim que cheguei perto o suficiente ergui o cano acima da cabeça do palhaço, sem muitos esforços, e comecei a bater, bati incessantemente, só parei quando me certifiquei de que estava morto. Limpei minhas digitais do cano e o soltei ao lado do corpo. Havia feito o bem. Um dia seria conhecido como herói…

Naquela noite meu filho não apareceu. Registramos seu desaparecimento. Acho que quando peguei aquele palhaço já era muito tarde. Eu e minha esposa nos lamentamos pelo resto da noite. Não havia nada que pudéssemos fazer senão esperar.

Foi uma noite triste. Ressentimentos rondavam o ambiente.

No dia seguinte ao acordar, ao invés de me deparar com minha belíssima esposa na cozinha, deparei-me com um asqueroso, um palhaço. Será que ele tinha ido para vingar o falecido o amigo. Esse era mais alto que o outro, porém nada me impedia de matá-lo.

Aproveitando que ele não me vira, peguei um espeto de churrasco que estava no canto direito da cozinha e comecei a ir em sua direção, contudo em um breve momento deixei o metal se chocar contra o chão, desta forma, fazendo um ruído metálico propagar-se no ar, alertando sobre minha presença. O palhaço me encarou. Me fitava com aqueles ridículos olhos dele. Aquilo só fazia minha raiva aumentar. Corri em sua direção e em um único golpe enfiei o espeto em seu branco pescoço. Ele tentou puxa-lo na vã tentativa de se livrar do espeto, mas eu forcei-o novamente para garantir sua morte. Por fim, cedeu, suas mãos escorregaram pelo metal frio e escorregadio do espeto e caíram, cambaleantes tal qual um relógio antigo cujo pêndulo não para, sempre está em movimento, balançando. Seu corpo morto exalava um odor fétido. Pelo menos às minhas narinas.

Arrastei o corpo para o porão, mas antes o embrulhei no plástico – assim não fazendo um enorme rastro de sangue por onde passava – o deixei por lá. Futuramente revelaria que encontrei um palhaço morto em meu porão. Limpei a cozinha com água sanitária e logo em seguida deitei-me no sofá, exausto.

No mesmo dia, porém mais à tarde minha campainha tocou. Polícia. Meus batimentos aceleraram e comecei a transpirar, todavia logo passou, afinal como teriam chego até a mim?

– Senhor Jake, sentimos em lhe informar que seu filho foi encontrado morto em um beco à pancadas por um cano de aço. Ele havia acabado de sair da casa de seu amigo e, infelizmente, deu o azar de encontrar com um dos bandidos que vem rondando o bairro. Desculpa.

– Espera… Não são palhaços? – Eu indaguei.

– Palhaços? Nunca houve caso de palhaços assassinos aqui senhor… – Disse um dos dois policias, segurando a risada.

Naquela hora minha cabeça voou. Não sabia mais o que estava a acontecer. Quem eu matara então?

– Mas… Tem…um palhaço no meu porão…Mor…morto. – Eu disse com certo receio, logo depois me arrependendo.

– O quê? Nos leve até lá. Agora!

Ao chegar lá, desembrulharam-o. Na verdade, desembrulharam-a. Era minha esposa. Mas como era possível? Na hora eu podia jurar que era um palhaço.

– O que significa isso, senhor?

– Eu não sei… – Eu já estava aos prantos. – na hora que matei era um palhaço. Juro!

– Desculpa, mas o senhor terá que nos acompanhar até a delegacia.

Eu não sou louco, era um palhaço sempre foram os palhaços. No julgamento fui condenado e hoje vivo em uma clínica psiquiátrica. Não tenho acesso a nada. Esse relato estou escrevendo com um lápis colorido que roubei da ala dos artistas loucos e com um papel que achei no chão. Não sou louco. Não sou. Eles não acreditam em mim. Palhaços atacaram minha família, não eu…

28/03/2014

"James Belafonte, empresário acusado de ter assassinado esposa e filho, é encontrado morto em seu quarto. Morto por um lápis em sua traqueia, asfixiando-o, além da enorme perda de sangue. Dizem ter se matado após um médico da alegria ter entrado por engano em seu quarto. O médico trajava vestimentas de palhaço.”