O celular tocou.

– Alô.
– Júlia, está dormindo?
– Estava, o que foi?
– Você está bem?
– Estou... acho.
– Que bom... Estou muito preocupada contigo! Te mandei um e-mail. É muito importante que veja.
– E-mail? Sobre o quê?
– Não posso falar agora. Mas veja isso o quanto antes.
– Ai, que merda Laura!
– Júlia é sério! Levanta e vai ver. Depois me liga, beijo.

A amiga desligou do outro lado. Era domingo e Júlia estava com uma tremenda dor de cabeça e ressaca.

– Que merda!

Não conseguia se lembrar da noite passada. Virou para um lado, depois para o outro. Que noite! Bebera demais! Passou o dedo nos cantos dos olhos. E-mail uma hora dessas – pensou. – Preciso de uma dipirona.

Foi à procura no guarda-roupa. Achou uma só numa cartela bulida. Água – disse mentalmente. Desceu para pegar na cozinha, mas antes ligou o computador.  Desceu em passos lentos. Não havia sinal de vida naquela casa: sua mãe, seu pai, seu irmão menor, ninguém. Todos haviam evaporado. Só quando estava voltando para o seu quarto, com o copo na mão e os pés descalços, foi que se lembrou de que devia ter levantado mais cedo para ir à igreja.

– Ainda bem que eu não fui. – disse para si pensando em toda aquela cantoria dos cultos de domingo. Sua cabeça não ia aguentar. Ouvir aqueles coros fervorosos estourariam os seus miolos. E até riu quando construiu a cena da explosão na sua cabeça.

Ela bebeu o remédio o quanto antes e  se sentou na frente da tela do computador. Abriu logo a página de e-mails, havia uns vinte recentes. Abriu o primeiro, era de sua amiga Laura. Era cedo e Júlia foi logo tomada por um assalto. O que havia no e-mail estava redigido em poucas palavras, mas alarmantes. Abaixo havia um endereço, um link de um site de vídeos. Júlia deu dois cliques. Abriu uma nova janela na tela. Sobre o vídeo havia escrito: FESTINHA AZARADA. Júlia sentiu o coração vir à boca. De repente, ao ver as imagens que se desenrolavam sem cerimônia na tela, foi sendo convidada a se lembrar, aos poucos, do que sua mente registrara da noite passada. Tudo parecia confuso na sua cabeça. Eram lembranças vagas, falhas, sem pé nem cabeça. Já na tela tudo estava claro, mais claro do que poderia supor. Júlia entrou num estado de choque.

* * *

Era quase uma da manhã e o som continuava alto. Até o momento nenhum vizinho viera reclamar, mas se viesse, Gabriel atenderia porta com toda sutileza que ele sabia usar:

– Desculpe-me senhora! São os meus amigos... A senhora entende? Vou conversar com eles. Obrigado pela atenção e desculpe o incômodo!

Porém não havia mais tanta gente espalhada pela casa. Os corredores iluminados estavam praticamente desertos. Júlia sabia que havia bebido demais e que por isso não tivera forças para ir pra casa quando suas amigas pegaram carona com seus namorados. Júlia preferiu ficar. Estava bêbada, mas estava gostando. Também porque Gabriel se mostrara muito gentil essa noite. Não que estivesse totalmente caidinha dele, mas era um jovem bonito, rico, e um bom partido por assim dizer. Ficou sentadinha na varanda. Adorava ficar balançando na rede. Julia, uma adolescente como qualquer outra, tinha seu encanto. Olhos cor de mel, cabelos castanhos compridos. Sempre usava pouca maquiagem.

Foi então que acabando o terceiro gim tônico, ela resolveu ir ao banheiro. Quando se levantou, sentiu o peso da gravidade. Estava tremendamente tonta. Riu de sua desgraça. Foi se apoiando nas paredes até alcançar a porta. Olhou para a sala, uns poucos dormindo no sofá. A música continuava tocando, só que agora algo bem fim de festa. Encarou a escada. Como parece alta! Meu Deus! – pensou. Foi subindo, um pé depois do outro. Seu corpo balançava como se dançasse por dentro. Uma leveza instável a controlava. Se meu pai me visse assim, me mataria com certeza! – pensou. E também porque não só bebera muito como também havia tomado um papelzinho colorido. Não era algo que Júlia realmente gostasse, mas estava na onda das amigas.

Quando Júlia alcançou a porta do toalete foi um alívio. Bateu a porta. O banheiro não estava limpo, como já havia imaginado. O tapete estava embolado, a pia escorrendo, latinhas de cerveja empilhadas pelos cantos e até sentiu um leve cheiro de vômito na privada também. Ok, vou fazer o que tem de ser feito – pensou.

Aos atropelos puxou o rolo de papel higiênico para cobrir a tampa do vaso, mas sentou antes que isso fosse possível. O xixi escorreu por si só. Quando fechou os olhos, Julia sentiu como se não estivesse ali. Sua cabeça rodava tanto, tanto, como num carrossel desgovernado, e de súbito abriu os olhos para que não se desmanchasse ali mesmo. Não havia acabado o xixi quando ouviu um barulho vindo da porta. Ela já não tinha certeza se a havia trancado. De repente a porta abriu.

Quem entrou primeiro levou um susto, depois deu um passo adiante. Ele parou e começou a rir, assim, sem menor constrangimento em ver a garota ali, prostrada. E Júlia só pensava: Mas que porra! Ele não disse nada, nem ela, porque não conseguia, estava mal mesmo! Os olhos dela foram se fechando ao mesmo tempo em que sua cabeça recostava no box. E ele só ria. Parecia se deliciar com a cena. Foi então que ele chegou mais perto. Não é muito difícil imaginar o que se passava pela sua cabeça. Como se não bastasse, chegaram mais dois.

– Pega seu celular.

A iniciativa talvez fosse de chamar alguém, os pais, certamente. Mas não, não mesmo! Eles começaram a filmar. Para aumentar a cena no registro em vídeo do celular, foram se apropriando da situação. E da garota.

* * *

Júlia começou a sentir um aperto, uma ardência, uma sensação horrorosa. Enquanto as lágrimas escorriam, assistia ao vídeo sem forças para desligar. Eles não tiveram piedade, usaram seu corpo de todas as maneiras possíveis e estava tudo registrado e correndo na internet. Só então Júlia teve medo, muito medo. Só naquele momento pensou que quando seus pais soubessem, acabariam com ela.

De súbito começou a andar de um lado para outro, um turbilhão de imagens e palavras passavam por sua cabeça. Então parou, fechou o e-mail e pegou o celular sobre o criado. Rediscou para a última chamada.

– Alô – disse em voz trêmula.
– Jú... calma!
– Que merda! Olha o que fizeram comigo!
– Eu te avisei para não dar trela pra esses meninos.
– Ai, Meu Deus! E agora?
– Agora é o seguinte: Não pense duas vezes: vá polícia.
– Ai, mas e meus pais? Eles vão me matar! Não posso, não posso!
– Júlia, você está na internet. Mais cedo ou mais tarde todo mundo vai ficar sabendo. O quanto antes agir, melhor.
– Ai, você é minha melhor amiga Laura, vem para cá!
– Sim eu vou! Só não fui antes porque achei cedo demais. Fique calma. Ou pelo menos tente. Esses filhos da puta! Isso não vai ficar barato não! Você vai ver só.

Vinte minutos depois a campainha tocou, Júlia estava na cozinha. Seus olhos arregalados eram de dar medo. A campainha tocou mais duas vezes. Ela continuou onde estava.

* * *

Mas Júlia não conseguia se debater, estava sem forças. Parecia uma montanha russa e as risadas continuavam. Beijavam seu corpo, mordiam seus braços, puxavam-lhe os cabelos. Era um pedaço de carne fresca.

Celso, o mais magrelo de aparelho, estava a registrar tudo. Agora ela era forçada a ficar de quatro. Alguém bateu na porta.

– Pô, quero usar o banheiro!
– Está ocupado, gritou um.
– Vá pro inferno, disse outro.
– Quero entrar, mijando aqui..., e continuou a bater.

Nesse momento eles pararam de rir. Entreolharam-se sérios.

– Porra!
– Vá embora, ocupado!

Mas o de fora começou a esmurrar a porta. Então Celso subiu a calça e foi abrir. Gabriel se levantou e assentou Júlia na privada com ajuda de Binho.

– Com cuidado – sussurrou.
– Sai fora cara.
– Vai se foder – disse entrando com tudo no banheiro  e se deparando com a cena.
– Bico calado!
– Que merda é essa?

Otávio estava meio alto, mas não o suficiente para não perceber o que acontecia ali.

– Que porra vocês estão fazendo aqui? Essa mina é de quem?
– Nos divertindo... Quer?
– Desliga essa porra – disse Otávio para o celular de Celso, que filmava tudo. – Vocês não têm noção do que cês estão fazendo?

* * *

Quando a mãe, que foi a primeira a entrar, chegou à cozinha, viu sua filha caída com uma enorme poça de sangue no chão. Júlia havia cortado o próprio pescoço com uma faca. A mãe gritou. O pai veio às pressas. A mulher correu para cima, parecia ainda viva, mas era certo de que não resistiria até que a pudessem socorrer.