- I -

São 23h45 do dia 31 de dezembro, daqui a 15 minutos será um novo ano. A multidão se aglomera na frente do palco, todos ansiosos para extravasar a alegria alcoólica quando os fogos marcarem pontualmente às 00h00.

Todos os anos, o mesmo espetáculo se repete: um palco montado na praia com atrações medianas para distrair uma população cada vez mais pobre e ignorante; o som alto, de qualidade duvidosa, brigas, xingamentos, prisões, socorristas sendo acionados... Um ciclo que se repete do fim da noite de um dia ao raiar do sol do outro.

Observo, de minha posição privilegiada, na sacada do apartamento de um amigo, um casal que, ao contrário de muitos outros, sequer conversa, apenas permanecem lado a lado, ocasionalmente se olhando e nunca se tocando.

Eles aparentam ter trinta anos, nem feios, nem bonitos. A mulher é séria, tem o corpo torneado e longos cabelos loiros. O homem está sorridente, já parecendo meio alto, e é musculoso e barbudo.

Eles permanecem em sua “interação” até a chegada de outros dois casais, um formado por duas mulheres bem jovens, vestidas com bermudas e blusas brancas, e o outro sendo uma mulher na casa dos quarenta e um rapazote com não mais que vinte.

A conversa flui regada por muita bebida. Vez ou outra, uma cigarrilha passa de mão em mão, e somente a mulher do primeiro casal não a pega, não bebe e não participa da conversa, apenas observa, às vezes dando um sorriso sarcástico.

Continuo observando com interesse, e em uma das paradas para discutir, o homem olha para cima, em minha direção; não sei se é possível me enxergar, talvez o meu vulto. Ele cochicha com a mulher, que vira para olhar também.

É como se o olhar dela viesse diretamente de encontro ao meu. Seus olhos são frios e o desprezo é visível mesmo por baixo das lentes dos óculos que usa. Envergonhado, entro no apartamento para beber algo.

Faltam cinco minutos para a meia-noite, volto à sacada com um copo de uísque. Ainda curioso, arrisco outra olhada na direção dos casais, mas dessa vez, tenho cuidado para não ser pego observando-os e mudo de lugar. Estão todos com copos nas mãos esperando a contagem regressiva, como eu e os demais.

O locutor anuncia a banda principal, que irá anunciar o início dos fogos. Todos se viram na direção do palco. Menos eu, que, movido por alguma força desconhecida, mantenho meus olhos naquela mulher estranha – que passei a chamar de Maria e o seu companheiro de João.

Para minha surpresa, e horror, sou testemunha de quando ela, aproveitando a distração geral, coloca algo no copo do homem que a acompanhava. Em um primeiro momento, não pareceu ter nenhuma importância, mas enquanto os dez minutos de fogos finalizavam, João caiu agonizando no chão, enquanto espumava pela boca e se debatia.

Após o susto inicial, todos se mobilizaram para tentar socorrê-lo, exceto Maria, que permaneceu parada, como se estivesse em transe. E foi então que ficou óbvio que se João não havia morrido, estava muito grave.

No meio da confusão que se instalou, entre gritos, de alegria dos que não tinham percebido a morte e de desespero dos que estavam perto, Maria seguia calada, sem demonstrar nenhum tipo de reação, o que me fascinava e me impedia de desviar o olhar, até que ela virou em minha direção e seu olhar me arrancou do transe em que me encontrava.

Ela sorriu um daqueles sorrisos de canto de boca que não sabemos se é de diversão, cinismo ou simples desprezo, e saiu andando em direção contrária à que os socorristas levaram o corpo de João.

Quando ela desapareceu na esquina, enfim pude respirar novamente; sequer havia notado que tinha prendido a respiração. Não me despedi de ninguém, saí a francesa, ainda abalado com tudo que acabara de ver.

- II -

Olho o relógio de cabeceira e vejo que são 8h30 do dia 02/01, eu já deveria estar no trabalho, mas uma noite insone relembrando o réveillon e o olhar de Maria para mim, me fizeram dormir além do que eu deveria.

Levanto apressado, tomo um banho rápido e saio sem tomar café, não tenho tempo. A minha sorte é trabalhar perto de casa, dois quarteirões e meio; correndo são cinco minutos.

Entro tentando não fazer barulho e não chamar atenção de ninguém, um misto de ressaca com um medo incompreensível faz com que eu sinta minha cabeça latejando. A sensação de pavor é o mais estranho, não sei de onde vem e não tenho explicação para sentir isso, não consigo compreender.

Tomo o café que peguei na copa, preto e amargo, e engulo dois analgésicos às pressas para tentar aliviar a dor de cabeça e poder trabalhar.

Olho o relógio várias vezes, como se assim o tempo fosse passar mais rápido e eu enfim pudesse voltar para casa, a sensação de estar sendo observado, mesmo aqui dentro, é quase palpável, e não ajuda a diminuir o medo irracional que sinto.

No meio da minha confusão, me vem à mente as cenas do réveillon e tenho a impressão de reconhecer algo, mas é um sentimento tão vago que não consigo discernir. Balanço a cabeça e tento mais uma vez me concentrar no trabalho; nem consegui almoçar, só quero sair daqui.

* * *

Meia hora antes de encerrar o expediente, não consigo mais esperar e saio, só quero chegar em casa. Nesse horário, 17h30, o trânsito de carros e pedestres é intenso, é melhor não correr, então ando lentamente, tentando colocar os pensamentos em ordem.

Estou tão distraído que não percebo quando começo a atravessar a rua; uma forte buzina, alguns xingamentos e um puxão na minha mochila me fazem voltar à realidade e me impedem de ser atropelado.

Com o susto, volto a me concentrar no caminho e lembro que não tenho praticamente nada em casa para comer – talvez um pão velho e água na geladeira. Resolvo parar no mercadinho e comprar algumas coisas. O lugar está cheio, mas como preciso me alimentar, decido que vale a pena enfrentar a multidão e ando pelos corredores apertados procurando o que preciso.

Me dirijo para a seção de bebidas e vejo uma mulher parada na frente do freezer. Ela olha para dentro do mesmo sem se mover, o que é bem estranho, talvez esteja decidindo o que levar. Me aproximo mais e noto algo familiar. Paro, momentaneamente indeciso, e ela vira na minha direção: Maria, que me fita com seus olhos frios e acusadores.

Sim, ela me olha de forma acusadora, e ao mesmo tempo em que não entendo o porquê, sinto uma onda de um sentimento que não consigo descrever tomar conta de mim.

Ela abre um sorriso e eu saio correndo, largando tudo que tinha escolhido no chão.

Corro como se estivesse fugindo do diabo, no caso, de uma demônia. O que aquela mulher queria? Será que ela sabia que eu a tinha visto matar João e estava atrás de mim? Mas por que ela não falava logo comigo?

Cheio de dúvidas, e novamente com o medo que vinha sentindo, me joguei no sofá da sala de casa e tentei pensar de forma clara no que estava acontecendo e no que eu poderia fazer.

Cansado do esforço da corrida e sem comer direito o dia todo, acabo adormecendo no sofá, e desperto sobressaltado perto das 22h00. Olho pela janela e vejo alguém parado na rua em frente ao prédio onde moro. Como a pessoa está contra a luz, não consigo ver seu rosto, mas a expressão corporal e o cabelo solto não deixam dúvidas: é Maria quem me observa.

Dou alguns passos para trás e caio no chão com o susto, o que está acontecendo, afinal? Por que essa mulher tem me seguido e assustado?

Decido, em um ímpeto de coragem, confrontá-la, e desço as escadas correndo, mas quando chego na rua não há ninguém. A rua inteira está deserta.

Confuso e com raiva, volto para casa tentando decidir o que fazer e como encontrar Maria de uma vez por todas.

- III -

Mais uma vez atrasado. Já faz três dias desde que vi Maria em frente ao prédio onde moro, e de lá para cá, além de não conseguir trabalhar ou dormir direito, também não consegui pensar em uma forma de encontrá-la.

Tento passar o dia da forma mais normal possível, o que inclui me alimentar mal, ficar distraído e continuar com a sensação de estar sendo observado.

Cochilo sobre a mesa de trabalho depois do sanduíche que almocei, e acordo assustado com o barulho de algo quebrando – um copo ou xícara na mesa em frente à minha, que é ocupada por um colega novo na empresa, não lembro o nome, ele começou ontem e minha memória está uma droga.

Mas o que me surpreende é que, ao despertar com o xingamento do colega, me vêm à mente o mesmo palavrão dito por outra pessoa em uma ocasião completamente diferente e, chocado, lembro que já tinha visto João, o defunto, antes daquele réveillon infeliz.

As lembranças, ainda fragmentadas, vão surgindo: uma noite chuvosa logo depois do Natal, um casal brigando no meio da rua quase deserta. Vozes se elevando, dedos apontados, um tapa de um lado, um empurrão do outro, a mulher caída, o homem me mandando não parar e segurando ela pelo cabelo...

O homem era João. A mulher gritou algo como “ele vai me matar”, mas eu fingi que não ouvi, estava cansado, com fome e molhado da chuva, não queria me meter nos problemas dos outros – e briga de casal sempre acaba com os dois fazendo as pazes e a gente passando por intrometido.

Ouvi outro grito desesperado por socorro seguido por um baque surdo, parei e me virei para olhar, mas o homem, que jogava a mulher desacordada dentro do carro, gesticulou que estava tudo bem, que eu podia me afastar, fazendo aquele gesto típico de girar o dedo próximo à fronte, indicando que a mulher era louca. Hesitei, por um instante, porque vi a mulher desmaiada, mas ele afirmou que ela havia escorregado e batido a cabeça e que a estava levando ao hospital.

Nunca fui do tipo herói, nem de me preocupar com os outros – cada um que cuide da sua vida –, então segui meu caminho para casa e esqueci o incidente.

Até esse momento.

Até despertar assustado por lembrar que o homem era João e a mulher, Maria.

Sem conseguir entender tudo o que me acontecia, peguei minha mochila e saí em disparada para casa; eu precisava pensar, encontrar a conexão entre todos esses acontecimentos e o fato de Maria estar me seguindo e me observando.

- IV -

São 2h45 da madrugada de 07/01, hoje completam sete dias desde que vi Maria pelo que me pareceu ser a primeira vez; hoje sei que não foi.

Passei três dias pesquisando notícias na internet. Encontrei uma foto com o pedido de informações do paradeiro de Lídia Gonçalves, vista pela última vez saindo de casa para se encontrar com um ficante que havia conhecido em um aplicativo de relacionamentos. A família e os amigos não sabiam quem era, uma amiga sabia o primeiro nome que ele informara a Lídia: Gustavo. Nenhuma informação a mais.

Encontraram o carro de Lídia abandonado em um ramal deserto fora da cidade cinco dias após o seu desaparecimento, às vésperas do ano novo. Tinha uma mancha de sangue, vômito, um pé do tênis que ela calçava, a bolsa que usava e só. Nada do corpo, celular, nenhum vestígio de outra pessoa; ninguém tinha visto nada e a polícia não tinha o que fazer.

Agora eu sabia que não era verdade: eu tinha visto. Eu tinha visto Lídia e Gustavo discutindo. Tinha visto Lídia ser agredida e pedir socorro, ser jogada inconsciente, talvez já morta, dentro do seu próprio carro e tinha seguido em frente, com pressa de chegar em casa.

Gustavo está morto, eu o vi morrendo na noite do réveillon, também pesquisei isso. Gustavo Ribeiro, personal trainner, morreu de overdose durante os fogos do ano novo na praia. Fritou os miolos de tanto álcool e drogas. Tinha histórico de abuso físico contra mulheres, duas prisões por agressão e uma tentativa de estupro, mas estava solto por falta de provas.

E havia matado Lídia.

Agora sei que Lídia – não a chamo mais de Maria – não me segue, ela me assombra. Não sei o que ela quer. Nos filmes e livros, o espírito quer que ajudem a descobrir seu assassino, mas ela estava ao lado de Gustavo, sussurrando no seu ouvido para que tomasse mais e mais drogas; não pode ser isso, só sei que está me enlouquecendo.

Me levanto e olho pela janela: Lídia está lá fora, me olhando como fez todos esses dias.

Em um rompante, abro a janela e grito, perguntando o que ela quer e ordenando que me deixe em paz. Um vizinho abre sua janela e pergunta se eu estou louco ou usando drogas, me mandando calar a boca em seguida. Volto para dentro, envergonhado e ainda assustado.

Tomo dois comprimidos de calmante qualquer, porém, antes de cair no sono do esquecimento, me ocorre que não encontraram o corpo de Lídia e não sabem onde procurar, porque não têm informações sobre o sumiço dela, mas eu sei quem a matou e agora sei o quê e onde começar a procurar.

- V -

9h15 do dia 09/01. Novamente perdi o horário do trabalho.

Demoro um pouco para colocar as ideias no lugar e lembrar da descoberta do dia anterior; o sono pesado proporcionado pelo remédio me deu ânimo, e decido que vou procurar Lídia, ou melhor, o corpo de Lídia, quem sabe assim ela me deixa em paz.

Baixo um mapa on-line que engloba o bairro em que ela sumiu e o local onde Gustavo morava; se as informações policiais estiverem corretas, talvez ele tenha abandonado o corpo dela nesse perímetro.

Paro no mercadinho para tomar café e pensar direito no que vou fazer; não vou ficar perambulando pelas ruas, vão pensar que sou doido, estou drogado ou avaliando o terreno para assaltar – eu pensaria isso se visse um cara rondando e observando a vizinhança.

Não tenho perfil para detetive, o que me desanima um pouco. Fico olhando para a rua, esperando por uma intervenção divina, até que me vem à cabeça a ideia mais clara de todas: ele deve tê-la levado para a casa dele! Pelo que li, morava sozinho e não parecia ser um primor de inteligência – nem eu era, pois pensava em arrombar e invadir uma casa sem ter a menor noção de como fazer isso.

A casa onde Gustavo morava não é longe de onde estou, são cinco ou seis quarteirões apenas. Vou andando, me dando tempo para refletir sobre o que fazer. Ao parar em uma faixa de pedestres, vejo, do outro lado da rua, Lídia. Ela me observa com um sorriso brincando no rosto, uma expressão no mínimo curiosa, e entendo que estou no caminho certo, já que ela não tenta se aproximar e me assustar.

* * *

Gustavo morava em um velho prédio de três andares, daqueles sem elevador e com escadas escuras, em que os moradores não abrem a porta para ninguém e nunca veem ou ouvem nada. O bairro fica no limite da periferia, mas é conhecido pela violência e por ser um reduto para traficantes.

Sem ter noção de como entrar no apartamento dele, adentro o prédio e me dirijo ao terceiro andar, à porta do 304. Tenho a sensação de estar sendo observado novamente e imagino que Lídia esteja por perto, esperando para ver o que farei. A mim, parece um sinal de que é o certo a se fazer: descobrir e revelar onde está seu corpo, identificar seu assassino e dar paz ao seu espírito. Os livros, séries e filmes sempre falam disso, deve ser isso então.

Me armo de uma coragem que não sabia que tinha, acho que mais pelo desespero de me ver livre dessa assombração que está me enlouquecendo, e giro a maçaneta da porta sem muita esperança, mas, para a minha surpresa, a porta abre sem esforço.

Entro no apartamento, um quitinete sujo de dois cômodos. Olho em volta procurando por uma pista, qualquer coisa, e só o que vejo são roupas sujas jogadas para todos os lados e restos de comida nos móveis; não tem onde esconder um corpo, não tem como esconder nada naquele local, mas o cheiro de podridão é forte, um cheiro pungente e enjoativo que não pode ser apenas de comida estragada.

Lembro que não olhei o banheiro; deve ser minúsculo, mas como já estou aqui, preciso continuar. Como pensei, um cubículo com um vaso e um chuveiro mínimos. Nada. Retorno para a sala.

E o cheiro? O cheiro era o que mais me incomodava. Nunca senti o cheiro de um cadáver, mas tenho a nítida sensação de que é o que sinto.

Olho em volta novamente e vejo duas caixas térmicas, dessas grandes, que vendem em supermercados e que levamos para a praia com bebidas e gelo, empilhadas.

Com nojo crescente, me aproximo e abro a primeira, não tendo dúvida do que vou encontrar ali. Dentro dela, com o gelo derretido há muito tempo, estão bem encaixados vários pedaços de um corpo. Consigo discernir um tronco feminino sem os membros e a cabeça.

Viro para o lado e vomito todo o meu café. Ofego em agonia, mas me recupero o suficiente para fechar a caixa e tirá-la de cima da outra. Preciso abrir, preciso ver e confirmar que é Lídia.

Com esforço, retiro a caixa de cima e abro lentamente a de baixo, e lá estão: braços, pernas, pés, mãos e a cabeça no centro, a boca aberta em um último grito de pavor. É ela. Sem dúvida, é Lídia.

Desabo ao lado da caixa e deixo as lágrimas correrem livres, de choque pela descoberta e de alívio: vou poder ficar novamente em paz.

Levanto-me devagar, imaginando como avisar à polícia, não quero me envolver. Como fui burro! Não tomei cuidado nenhum e vai ser fácil me colocar na cena do crime; provavelmente deixei rastros em todos os lugares desse muquifo imundo.

Fico paralisado, tentando pensando no que fazer, e decido tirar o corpo de lá de outra forma; Lídia já está morta, não posso fazer nada quanto a isso. Qual a diferença entre ser descoberta em uma caixa térmica ou em sacos de lixo? É só cortar em pedaços menores, que eu possa carregar. Levo e jogo na rua, em frente à uma casa ou loja, e quando forem tirar de lá, descobrirão. É isso!

Satisfeito com minha solução, procuro uma faca na cozinha improvisada; se Gustavo desmembrou o corpo, precisou de algo para isso, e se não teve tempo de tirar as caixas, talvez ainda não tivesse se desfeito do instrumento que usou. Procuro e encontro uma faca grande e um cutelo de açougueiro em cima da geladeira – ainda estão sujos de sangue coagulado e seco.

Me viro para as caixas e vejo Lídia parada em frente a elas. O olhar que me dirige está repleto de ódio e maldade, algo que eu nunca havia percebido. Não sei como falar com um fantasma, mas tento parecer triunfante e digo:

— Pode descansar em paz, seu corpo será descoberto para ser enterrado dignamente.

Uma gargalhada sinistra reverbera pelo cômodo e ela diz:

— Descansar em paz? Nem eu, nem você, seu egoistazinho de merda. Você podia ter evitado a minha morte, mas preferiu se acovardar e fugir, porque não era da sua conta. Agora quer fugir novamente. Não se preocupe, meus restos serão encontrados quando a podridão da decomposição do seu corpo incomodar os vizinhos.

Horrorizado, me viro para sair correndo dali.

Sinto um empurrão, e me vejo caindo lentamente com a faca ainda nas mãos, sei que vou ser empalado por ela, mas não consigo fazer nada para evitar; meus braços estão congelados de pavor e nem sequer um grito consegue passar pela minha garganta.

Sinto uma dor lancinante no peito e tudo escurece. A última coisa que escuto é a gargalhada macabra ecoando na minha cabeça.

- VI -

18h45 do dia 12/01. O jornal da noite conta a história macabra descoberta por uma moradora do bairro da Mata. Uma senhora, residente de um velho prédio em ruínas, se incomodou com o cheiro de um apartamento vizinho e foi até lá pedir para que o limpassem. Como a porta não estava trancada, ela entrou e encontrou um homem caído no chão sobre uma poça de sangue; uma ponta de faca era visível na costa dele.

A polícia foi chamada ao local e encontrou também o corpo de uma mulher desmembrado dentro de duas caixas térmicas. A mulher foi identificada como Lídia Gonçalves, desaparecida desde a véspera de natal. O homem, ainda não identificado, morreu em decorrência de uma parada cardíaca fulminante antes de cair sobre uma faca de açougueiro que perfurou seus intestinos. A polícia investiga a participação do morador do local, Gustavo Ribeiro, morto por overdose no réveillon.

Fim