- Quando dormir, feche a porta dos quartos e banheiros. Se tiver filhos, as deles também.

- Pendure, no batente de cada porta, uma imagem sacra e benta. Pode ser um terço ou uma medalhinha de algum santo que você é devoto.

- Mas eu não acredito em Santos e imagens… sou Ateu !

- Isso, não interessa para eles.

- Para eles, quem??

- Portas abertas, são passagens. Eles gostam de ficar nas passagens, observando. As crianças sempre os veem… os animais, também. Os adultos, só aqueles sensitivos.

- Eles, quem? - Tornei a perguntar.

- As sombras, sem rosto. Vagam por aí e invadem os lares desprotegidos dos incrédulos ou onde há crianças e ou pouca fé. Maus espíritos ou espíritos perdidos.

Olhei para o meu amigo, Celso, que insistiu em me levar ao Padre João, o único da cidade, famoso por colocar “coisas” para correr dos lares. Ele só sussurrou:

- Escute o Padre !!!

Por educação e respeito continuei a escutá-lo e como bom Ateu, as vezes questionava - o.

- Padre, eu apenas comentei com o meu amigo que vi de canto de olho uma sombra parada na porta do meu quarto. Mas acho que era mais uma ilusão de ótica do que outra qualquer coisa. Eu estava deitado, vendo TV e talvez as luzes da TV tenham causado isso. Já foi o suficiente para o Celso incomodá-lo...rs

Nisso, Celso retruca:

- Por que você estava se queixando que já trocou meia dúzia de lâmpadas na sua casa, somente esta semana???

- E o que tem a ver uma coisa com a outra? Algum problema elétrico…

- Padre, o cabra é cabeça dura e incrédulo… mas eu estive na casa dele e me senti agoniado…

- Bom, meu filho, já te expliquei o que pode ser e o que deve ser feito. Também pode ser uma ilusão de ótica ou um problema elétrico. Se voltar a acontecer, volte aqui.

Você permitiria que eu benzesse sua casa?

- Se for para tirar a agonia do meu amigo...rs

As risadas não caíram bem e fui-me embora com o Celso. No carro era evidente que a conversa não seria outra.

- Cara, você está brincando com fogo. Quando que sua esposa volta com o teu filho de férias?

- Hoje. Aliás já devem ter chegado em casa.

Pego o celular e ligo para o telefone fixo de casa. Dito e feito.

- Rita? Já chegou? Viagem tranquila? Que bom! Já, já estou em casa!

Deixei o Celso em casa e quando desceu do carro ele falou:

- Fique atento. Me ligue, qualquer coisa. Vigie o seu filho.

- Porra, Celso...não tem nada !

Fui–me embora e pelo retrovisor ainda o vi acenando. Chegando em casa, fui recepcionado pelo meu filho de 9 anos.

- Pai, pai, que saudades !!!

- Como estava a praia?

- Legal, pai! Brinquei bastante!

Férias de verão. Mulher viaja com o filho e eu fico no batente.

Monte Azul, era a cidade ideal para se viver. Interior do interior de São Paulo.

Baixo nível de Stress para um ansioso crônico.

Tinha uma coisa de cada. Uma escola, uma igreja, uma Praça, uma farmácia e uma banca de jornal e logicamente, um coreto.

Faltava um médico de família e eu supriria essa necessidade.

Celso era o dono do único mercado e eu já o havia socorrido algumas vezes.

Umas crises de asma importantes. Em dois meses que eu estava lá, já tínhamos nos tornado amigos. Mas eu acredito em amizade que vem desde a infância. Então, era um novo conhecido...

Comprei uma casa um pouco retirada, cerca de 20 Km do Centro, onde eu tinha meu consultório.

Ainda não me apresentei. Meu nome é Alex. Não é apelido, é Alex mesmo. Sou

médico, clínico geral, 50 anos, 25 de carreira.

Casado ha 10 anos e tenho um filho de 9 anos, Miguel, hiperativo.

Minha esposa dedica-se a lecionar Yôga. Para mim, com transtorno geral da ansiedade e síndrome do pânico, aquilo era uma tortura. Era mais fácil tomar o antidepressivo, que ajudava, mas não resolvia. Ou seja, eu vivia “à Milhão”.

Quase me esqueço de Blup, o nosso gato preto.

Parece tudo uma maravilha, não? Só que não era bem assim. Mudamos para

Monte Azul pela minha saúde e para nos afastarmos de todos. Sim, todos. Eu já não tinha pai nem mãe. Rita tinha a mãe, ou seja, eu tinha sogra. Tranquilo. A víamos muito pouco, mesmo antes de mudarmos. Quanto menor a convivência, menores são os problemas. A vida ensina isso.

- Meu amor! Que saudades! Como foi a viagem?

- Excelente. Ano que vem, vamos todos.

- Sim, sim, ano que vem já estará tudo organizado, nos eixos.

- Saiu com o Celso?

- Sim, mas isso é conversa para noite. Preciso ir à farmácia. Agora que lembrei...

Quer algo?

- Eita...acabou de voltar da Cidade. Compre o remédio do nosso filho e o meu anti ácido.

- Pois é... acabei de lembrar que a ração do Blup está no fim, também. Posso levar o pequeno cidadão?

- Sim, sim…

A sua preocupação no momento era desfazer as malas e lavar as roupas sujas da viagem.

- Miguel, vamos para a cidade?

- Fazer o que, pai?

- Preciso ir na farmácia e no mercado.

- Vamos, né… não tem internet e essa TV digital só passa coisa de igreja.

- Daqui a pouco você faz amizade na escola

- Todo mundo devagar lá, pai...quase parando. Até a tabuada é devagar…

Para uma criança da cidade grande, a vida no interior era entediante. Partimos para a cidade. O mercado era bom, mas deixava a desejar para os grandes hipermercados. A ração do gato não tinha e ninguém, lá dentro, conhecia. Comprei uma de outra marca. O gato que se vire com essa…

- Pai, me compra um doce?

Levar criança em supermercado é o dobro da despesa na certa.

- Pega um chocolate…

- Vou levar mais um para a mamãe. O Blup vai comer essa ração?

- Se não comer, que vá caçar algo...

Saímos do mercado, atravessamos a rua de paralelepípedos, mau conservada e entramos na farmácia.

- Bom dia Dr. Como vamos?

- Bem, Ciro.

Ciro era o dono da farmácia e o único funcionário. Era anão.

- O que vai querer?

- Me veja um vidro de anti ácido e esse antidepressivo, já chegou?

- Já...eu nem comprava...ninguém nessa cidade faz uso disso.

-Até imagino o porquê…Se ninguém toma, me venda todas. Quantas comprou?

- Duas. Trouxe a receita????

- Trouxe… pode ser a minha????

- Claro que pode! - e deu risada.

Virou-se e foi no armário buscar o antidepressivo. Lá de dentro me perguntou:

- Você viu que tem um vírus respiratório, chegando por aí?

- Outro?

- É, mas parece que esse é mais “brabo”. Já morreu um bocado de gente na

China. Será que chega aqui?

- No Brasil é provável, em Monte Azul, só se chegar de GPS. E ainda vai se perder.

- Tomara, Dr. São R$ 150.

Na rua, Miguel pergunta.

-O que é vírus, pai?

-É um bichinho que deixa as pessoas doentes. filho.

- Eu já tive?

- Alguns!!! Vamos para casa. Está ameaçando chover.

O que chegou não foi uma chuva e sim uma tempestade. Por pouco não chegamos em casa. Não se via nada pela frente e havia um bom pedaço de estrada de terra até chegarmos. Pelo visto teria que me programar melhor, no verão, antes de sair de casa.

- Rita, chegamos!

- Ué...pensei que já tinham chegado há algum tempo.

E saiu da cozinha enxugando as mãos.

- Como assim?

- Pensei ter visto e ouvido alguém passar pela sala...sei lá..

- Quem, mãe?

- Acho que foi a minha imaginação...deixa para lá. Trouxe o meu remédio?

- Filho, dê o remédio para a sua mãe e vai comer o seu chocolate na sala.

- Posso dar o dela, também?

- Sim, sim…

Rita me olhou desconfiada e quando Miguel se retirou da cozinha, veio a pergunta:

- O que houve? Tem a ver com o assunto que iriamos falar à noite?

- Sim. Podemos antecipá-lo. O que você viu?

- Ah, deve ter sido imaginação. Vi algo passando atrás de mim. Um vulto. Pensei que era você.

- Estranho. Também vi essa mesma coisa. Muito rápido, né?

- Sim. Nem dois segundos. Está acontecendo algo?

- Quando você chegou de viagem, eu estava voltando com o celso da Igreja do padre João.

-Só pode ser brincadeira...Você indo às igrejas. Um médico ateu, como a maioria.

- Então, mas ele me perturbou tanto depois com o que contei, que acabei indo.

- E o que ele falou?

- Não falou que sim, mas deu uma série de conselhos…

-Tipo?

- Penduras coisas nas portas, fechá-las à noite.

Senti que ela estava ficando assustada, pois, ao contrário de mim, de cética não tinha nada. Super-religiosa. Parece que tinha algo a ver com seu pai que, segundo ela, ficava mandando mensagens escritas no box do banheiro na hora do banho. Mas eu já tinha feito a besteira de contar.

- Que tipo de coisas?

- Sei la´...imagens sacras, bentas…

- Será que é meu pai? Mas mudou o jeito? Tem mais de 10 anos que ele não fala comigo.

- Rita, você sofreu um trauma muito grande com a perda dele. Você achava que ele escrevia no Box do banheiro. Na verdade, era você mesma.

Foram necessários alguns anos de terapia para ela assumir o que fazia.

- Minha mãe, falava com ele!

- Sim, depois que ela bebia uma garrafa de vinho, ou quando ia no centro de

Macumba! Não vamos remoer isso.

Resolvi mudar drasticamente de assunto.

- Parece que tem um novo vírus se espalhando pelo mundo.

- Mais um?

- É...mas esse está causando uma certa preocupação no meio científico.

- Pois é...e nós, alienados, aqui nesta casa sem TV a cabo, internet, e o rádio que não pega nada.

- Ora, temos TV..

- Sim, passando programas de pastores o dia todo.

- Talvez tenha de fazer uma nova procura de canais no decoder. Vou ver.

- Vai lá. Em meia hora sirvo o jantar.

- A TV era nova, LED, 43 polegadas. Feita para transmissão a cabo e conexão com a internet. Mas no momento só contava com uma antena que comprei no mercado do Celso.

Fiz uma nova busca de canais, enquanto Blup se esfregava nas minhas pernas.

Esse gato não me largava. Era do meu filho mas vivia atrás de mim, até no banheiro. Às vezes era irritante.

Na nova busca, sintonizei alguns canais novos e dentre eles um de notícias.

E, naquele momento, estava passando notícias do novo Vírus.

Realmente mais um vírus estava à solta. Origem, China. Parece que já haviam alguns relatos de casos no Oriente Médio e Europa. Ainda não estava chegando por aqui, conforme relato do pequeno Ciro. Era preocupante? Sim, mas a humanidade já tinha passado por isso e sobreviveu.

Após o jantar, ainda assistimos um pouco de Tv, enquanto Miguel desenhava.

Dez horas, estávamos dormindo.

Seis horas da manhã. O celular toca e eu desperto. Alarme.

Rita roncava ao meu lado o que me proporcionava noites mal dormidas. No inverno era pior: atacava a rinite e aí a coisa ficava séria, para mim. Dormir no sofá era quase que o cotidiano no inverno.

O banho de manhã era inevitável. Não tinha como sair de casa sem tomá-lo.

Tanto fazia inverno ou verão o chuveiro ficava sempre ligado no inverno. Sempre água muito quente. O banheiro ficava enevoado e a cortininha de plástico abafava bem o box.

Banho de 5 minutos? Nem pensar. No mínimo 20 minutos. Era uma terapia.

Aquela água quente caindo no topo desde a cabeça, era extremamente reconfortante.

Olhos fechados, só o barulho da água caindo. Eu já levantava mais cedo para aproveitar essa sensação.

A porta do banheiro ficava a uns 2 metros do box. Exatamente de frente a ele. O banheiro não era muito grande mas oferecia um bom espaço.

Abri os olhos e naquela névoa percebi alguém na porta do banheiro. Com aquela fumaça e a cortina fechada, o que eu vi foi só um vulto.

- Pode entrar, Rita... já estou saindo.

- Rita????

Enxaguei o rosto e abri a cortina. A porta aberta e eu estava sozinho. Saí do banheiro e voltei ao quarto. Rita ainda roncava, ou seja, sono profundo. Fui ao quarto do

Miguel. Dormia, mas o vulto no banheiro era de um adulto. Imaginei que era alguma ilusão de ótica, provocada pela fumaça e dei continuidade à minha rotina.

Na banca de jornal do Centro da cidade, comprei o jornal do dia. A notícia de capa, era o tal vírus.

- Será, Dr., que chega aqui?

- Tudo é possível.

A pergunta era do Ivanir, o Jornaleiro. Um Sr já com os seus 70 anos. Não dá para espalhar pânico, sem necessidade.

Abri o consultório, simples, uma sala de espera, um banheiro e o consultório propriamente dito.

E assim, além de uma coisa de cada, tinha somente um médico na cidade e eu me instalei, como todos os comerciantes, em volta da igreja matriz. O outro médico havia deixado ele montado. Uma mesa para recepcionista, algumas cadeiras para pacientes e dentro da minha sala, outra mesa, uma balança e uma maca. Eu havia pegado uma cadeira da recepção para o paciente sentar na minha sala.

No calor de 40 graus um ventilador Chines, cumpria mal e porcamente a sua função. Não havia esgoto e a fossa já dava sinais de que precisava ser limpa. Água encanada? Sim, 3x por semana…

Abri as janelas e senti um cutucão nas costas. Com o susto virei-me e uma moça negra com os seus 25 anos, magérrima, sorriu para mim.

- Bom dia, Dr! Me desculpe pelo susto!!!

- Imagine…

- O Seu Celso pediu para eu vir falar com o Sr. Parece que precisa de uma ajudante.

Era verdade. O comércio do Celso tinha grande movimento e pedi para ele colocar um anúncio na porta do mercado, solicitando uma secretária, ou no caso, uma ajudante…

- Ah, que bom... preciso de alguém para marcar as consultas, atender os pacientes e passar uma vassoura no final do dia… sabendo ler e escrever já serve.

- Sei sim, Dr. Tenho o fundamental completo.

- Você mora por aqui?

- Moro com a minha avó, na estrada de terra, depois do Alambique.

- Nem sabia que tinha Alambique por aqui…

- Tem sim Dr. E vou te contar um segredo. É do Padre.

- Padre João????

- Sim. Ele faz as pingas dele e acho que até o vinho da missa.

Dei muitas risadas. Padre João já era um senhor com os seus 60 anos. Passeava pela praça à tarde e o encontrei algumas vezes no mercado. Muito simpático e me cobrava idas à missa e me deu os conselhos espirituais. Ele mantinha uma escolinha no fundo da igreja de reforço escolar. Ele mesmo lecionava.

- Esqueci de perguntar o seu nome, menina.

- Gilda, Dr.

- Ok, Gilda, posso te pagar um salário-mínimo e alguns benefícios.

- O que é isso Dr?

- Isso, o que?

- Salário mínimo?

- Vixi...você tem carteira de trabalho?

- Não Dr. Só trabalhei no sítio, ajudando minha avó.

- E Seus pais?

- Morreram de doença de Chagas.

- Bom...acho que ninguém aqui, tem carteira de trabalho…

Contratei a Gilda pelo salário-mínimo, dava a ela uma cesta básica por mês e ajuda médica para ela e para a avó. Fora isso, também a ajudava com remédios, roupas, etc. A moça era esperta. Aprendeu rápido o serviço. De quebra, fazia o café. A idéia do café, foi dela. Tive de comprar um fogãozinho, um bule e um coador. Foi uma excelente idéia.

A maioria dos meus pacientes, eram crianças e idosos. As crianças com vermes, asma e algumas outras com picadas de insetos peçonhentos. Os idosos, o mais comum era a doença de chagas na maioria e comorbidades relacionadas à idade. As gestantes eu encaminhava para a cidade grande. Assim como outras coisas. Eu tinha recursos bem limitados. O pronto Socorro ficava a 50Km de Monte Azul em Itaipó, outra cidadezinha, mas melhor estruturada.

Passado vários dias, Ciro me procurou no consultório, quase na hora de fechar.

- Dr. Alex, que bom que ainda está aqui!

- Boa tarde, Ciro? O que é tanta euforia?

- Você não viu o noticiário?

- Não... o que aconteceu?

- O vírus chegou no Brasil!

- É... ele já estava por toda a Europa e Estados Unidos. Era uma questão de tempo.

- Será que chega aqui?

- Ciro, monte azul não é uma cidade turística e nem conhecida. Difícil alguém de fora vir para cá.

- Sei não…

- Acalme-se. Vamos tomar um café. Por onde anda o Padre?

- O Bispo esteve aqui hoje para ver a escolinha dele. Passaram o dia juntos.

- Ah, tá. É que não o vi passeando na Praça.

- Essa escolinha está servindo de modelo para as outras cidades. Até o prefeito, safado, está se interessando.

- Este final de semana vai ter a procissão do Salvador. Você participa?

- Eu não sou do tipo que segue procissões, Ciro.

- Dr. apegue-se a Deus. Não fique aberto desse jeito.

- Aberto, como?

- A alma, Dr. Alma sem dono, é refeição do Satánas.

- Estou bem assim, Ciro. Vamos embora?

Cheguei em casa e Rita gritou da cozinha:

- Oi, amor, chegou?

- Sim, neste minuto.

- Pode vir aqui um pouco?

- Estou indo. Miguel, tudo certinho?

- Tudo pai.

Ele Estava entretido com algumas revistas de colorir que comprava na banca de jornal semanalmente.

- Alex, minha mãe perguntou se ela pode vir para cá no dia 25 e passar alguns dias conosco. O que você acha?

- Daqui a duas semanas... por mim, ok. Sua mãe é tranquila, até a segunda latinha de cerveja...

- Ela melhorou com a bebida. Posso confirmar?

- Sim, sim.

Nunca vi alguém melhorar de beber. É sempre justamente ao contrário, até o fígado virar uma pedra.

- E aí, Miguel? Já pintou todas as revistas?

- Ainda não, pai. Voce pode trocar a lâmpada do meu quarto. Ela queimou novamente.

- De novo?

- Sim...Eu ia pedir para o meu amigo, o Quebra luz, que estava na porta, mas não deu tempo.

- Quem??

- O Quebra luz!! Ele fica comigo enquanto a mãe está dando aula. E eu acho que é ele que queima as lâmpadas, só para se divertir...

Corri para a cozinha.

- Rita você conhece esse amigo do nosso filho, um tal de Quebra luz que ele diz fazer companhia enquanto você dá as aulas de Yoga?

- Aqui em casa, só ficamos nós dois. Os amigos dele são da escola e nunca vieram aqui.

- De volta a sala, continuei o assunto de modo divertido.

- Legal esse teu amigo, hein? E eu que tenho de trocar as lâmpadas!!!

- Conversa com ele, pai. Pede para ele parar.

- Ele aparece de dia?

- Sim... alto. Sempre que ele aparece, a lâmpada queima. Mas ele não vem todos os dias, não. O Blup fica tentando pegar ele.

- E que cara ele tem? Parece com o Naruto????

- Ele não tem cara, pai. Ele parece o “mancha negra” da Disney..

- Você não tem medo?

- Não...ele fica na dele e me faz companhia.

Os dias se passaram e Miguel disse que o seu “amigo” não voltara mais.

Curiosamente foram dias sem lâmpadas queimadas.

Num dia calmo, como tantos outros, Gilda entra na minha sala:

- Dr. ,o Padre está aí fora. Ele quer saber se pode fazer um encaixe para ele...

- O dia está calmo. Temos alguma consulta?

- Agora para tarde, não.

- Peça para ele entrar.

Não sei porque, imaginei que o padre João fosse pedir alguma doação para a igreja. Era a segunda vez que ele ia ao meu consultório. A primeira foi para dar as boas vindas.

Porém, quando ele adentrou a sala, via-se que o motivo da visita era outro.

- Boa tarde Padre! Como o Sr está?

- Olá, Dr...Deus te abençoe... Não estou muito bem...

- Era claro que ele estava acometido com algo. Estava abatido, ofegante e muito corado.

- O que está acontecendo? Me conte.

- Desde a procissão de Domingo venho sentido dores de cabeça, mal estar e o meu paladar sumiu. Hoje eu estou sentindo uma leve falta de ar.

- Vamos ver a sua temperatura.

- Eu já estava certo da febre, pois o rosto dele estava bem corado.

- Medi a sua temperatura e não deu outra. 38 graus.

- Padre, está com febre. Deixe-me examiná-lo.

- Na ausculta havia um belo chiado no peito dele e dos dois lados.

- Padre, vou receitar um antitérmico e vai até o posto com está receita de inalação. Pode ser uma gripe. Faça repouso e hidrate-se. Amanhã, me conte como o Sr está.

- Ok, Dr. Acho que peguei do Bispo. Ele não estava bem e disse que voltou do

Vaticano com febre.

- E como ele está?

- Não sei...Aliás ele ficou de me ligar nesta segunda e não o fez...

- Depois me conte como ele está. Faça o que eu pedi e deverá se sentir melhor.

- Ok, Dr. Obrigado!

Finalizei a consulta, dispensei Gilda e fui para casa.

Em casa, deparei-me com a minha sogra que também acabara de chegar. A mala e uma frasqueira no canto da porta de entrada e o que mais me surpreendeu. 5 PACS de cerveja e algumas garrafas de vinho.

Da porta da cozinha ela sorriu para mim e veio me cumprimentar, já com uma latinha de cerveja na mão.

Vestida com uma calça jeans surrada, camiseta pink e tênis. Pelo estado do cabelo que estava embaralhado, parecendo um ninho de passarinho, via-se que aquela não era a primeira latinha. Os olhos vermelhos também denunciavam.

- Meu genro favorito !!!! Que saudades!

- Me abraçou e me deu um beijo com cheiro de cerveja.

- Olá, Eleanor. Tudo bem contigo? Como foi de viagem?

- Ótima! Vim ver como você está tratando a minha filha querida!

- Nisso, Rita aparece na sala vindo da cozinha.

- Bem mamãe..ele me trata bem. Tudo bem meu amor?

- Tudo ok. Onde está o Miguel?

- No banho.

A parte chata de Eleanor já se aflorava.

- Me conta Alex, como é essa vidinha de vocês aqui?

A pergunta era provocativa, lógico.

- Essa casa de vocês, até que é boazinha...

- Eu podia ter ajudado a comprar uma melhor...

Nisso, ela senta na poltrona da sala, abre a sua bolsa e pega um maço de cigarros. Acende um, cruza as pernas e continua.

- Aliás, vocês poderiam ter ido morar em alguma Capital. Aqui é um fim de mundo.

- Rita percebeu que os limites estavam sendo ultrapassados em menos de 5 min de encontro e interveio.

- Estamos ótimos aqui. Calmo, tranquilo, longe da agressividade da cidade grande.

- E o meu neto? Tem escola boa por aqui? Espero que ele não esteja em nenhuma espelunca.

Miguel, desce as escadas e corre para os braços da avó.

- Vó, que saudades !!!! Trouxe presentes???

- Lógico!!! Achou que eu esqueceria de você? Está dentro da minha mala. Alex, poderia trazer a minha mala, por favor?

Aquele cheiro de cigarro empesteava a sala. Eleanor era uma boa pessoa, mas como eu disse, até a segunda lata de cerveja. Aí, a coisa mudava. Deixei a mala ao lado de Eleanor.

- Alex. Me ajuda aqui na cozinha.

- Rita queria dizer: Vamos conversar.

O gato se escondera. Não gostava de Eleonor. Engraçado como os animais se portam diante de diferentes pessoas. Peguei um pano de prato e enxugando a louça comentei:

- Sua mãe já chegou com a corda toda, né?

- São só 10 dias Alex. Aguente firme! - E sorriu.

- Pensei que era definitivo, já que trouxe tudo aquilo de bebida. Ela acha que aqui não tem supermercado?

- Você sabe com ela é....Trouxe 5 pacotes de cigarro, também.

- É...a semana promete.

Miguel entra na cozinha radiante.

- Pai, olha o que a vó me deu!!! Um kit de espionagem importado! Tem um binóculo, uma lupa, dois rádios comunicadores, um óculos de visão infravermelho, uma lanterna e caneta com tinta invisível!

- Legal, filho. Vamos nos divertir!

Nesse ponto, Eleanor era surpreendente. Adorava o neto e dava presentes que aqui no Brasil nem sonhava em vender. Trazia tudo de fora. Da sala se ouviu:

- Estou com fome !!!!

Olhei para Rita e sorri.

- Vamos alimentar o Dragão.

Rita me deu um tapa no ombro. Posso admitir que foi com uma força considerável.

Após o jantar, Miguel se equipou inteiro com o presente que havia ganhado e me deu um dos rádios. Do lado de fora da casa recebi uma chamada na cozinha.

- Alô, câmbio!!! Pai?

- Na escuta, filho!

Escutei risadas do outro lado.

- Filho, o seu primeiro trabalho é achar o gato...

- Ok, câmbio e desligo!

Até eu estava gostando da brincadeira.

Enquanto eu participava da brincadeira, Rita e a sua mãe conversavam na sala.

Eleanor já dava ares de cansaço e pediu, para levá-la até o quarto de visitas que improvisamos com um sofá cama. Isso já era umas 9:00 horas da noite.

Eleanor na cama e Miguel com uma lupa e lanterna, procurando o gato na cozinha escura. Sentei para ver TV com a Rita.

A programação era aquela de sempre. Bispos apocalípticos, curas milagrosas e doações vultuosas.

Encontrei um noticiário. Corrupção, tráfico de drogas, assaltos, acidentes de trânsito, filas nos hospitais do SUS e uma notícia de última hora.

A OMS decretou Pandemia mundial pelo novo vírus, ou seja, o vírus já havia se espalhado pelo mundo.

- Que horror.. - disse Rita.

- Parece que negligenciaram o poder de contaminação – disse eu.

Pela explicação dada pelo repórter, era um vírus respiratório, de alta contaminação. Centenas de pessoas eram internadas e apenas alguns sobreviviam, com sequelas. Não havia tratamentos nem vacinas. A Europa estava fechada e os Estados

Unidos já contavam seus milhares de contaminados.

- Câmbio, pai! Na escuta!

- Câmbio, filho. Pode falar!

- Ué...vc não me chamou?

- Não, filho. Estamos vendo TV. Achou o Blup?

- Ainda não. Continuando buscas. Câmbio e desligo.

Final de jornal. Fui até a cozinha e Miguel não estava lá.

- Miguel?

Nada de resposta. A porta dos fundos estava aberta. Saí e na escuridão o chamava. A noite estava fria e o céu nublado. Lembrei - me do rádio.

- Câmbio, Miguel?

Silêncio. Larguei o rádio e comecei a chamá -lo na escuridão. De repente, o radio chama.

- Câmbio, pai! Missão cumprida!

Vejo um facho de luz, saindo de dentro da lavanderia. Era miguel. Debaixo do braço, Blup.

- Cacete, filho. Que susto. Falei para você ficar na cozinha!

- Desculpe pai, mas o Quebra luz me disse que era para eu ver na lavanderia.

- Como é que é?

- Então pai, aquela hora que eu pensei que era você me chamando no rádio, era o Quebra luz. Ele falou para eu procurar na lavanderia.

- Ele falou pelo rádio?

- Sim!!! Adorei esse presente! Vamos Blup, você dorme comigo.

Miguel sai correndo se utilizando da lanterna e adentra à casa. Eu voltei pensativo, fechei a porta dos fundos, pensei em beber água e quando fui acender a luz da cozinha. A lâmpada havia queimado. Não bebi água e nem comentei nada para Rita que me questionou:.

- Onde esse menino estava?

- Na lavanderia...

- O que houve? Parece preocupado.

- Nada, nada...vamos dormir.

No dia seguinte, Eleanor voltara a ser a doce mulher que era sem o alcool.

- Bom dia, Alex!

Sentou-se a mesa da copa e encheu uma xícara de café.

- Ontem, naquela confusão da minha chegada, esqueci de lhe dar um presente.

- Ora, Eleanor, não havia necessidade.

Ela sabia como me agradar e puxou do bolso, do seu Hobby, uma caixa de uns 7x5 cm, embrulhada para presente. Ao abrir, me surpreendi. Era um oxímetro de dedo. Uma ferramenta bem legal para um médico e que poderia ser me útil no meu dia a dia.

- Puxa, Eleanor, muito obrigado!

- De nada. Espero que seja útil.

- Será, com certeza!

Chamei Miguel que apareceu aos tropeções na cozinha, tomou um copo de leite com achocolatado e pegou uma maçã na fruteira.

- Bom dia, vó!!!! Sabia que ontem eu achei o Blup graças ao seu presente?

- Que bom, Miguel! Parece que agradei a todos!

- Vamos embora, Miguel.

Despedida rápida, deixei Miguel na escola e, no caminho para o consultório, liguei o rádio do carro. Naquele lugar só AM sintonizava e ainda em algumas rádios locais, mas nas 3 estações que consegui sintonizar, a notícia era mesma. Diversos casos de contaminação no Brasil pelo novo vírus. O Governo ainda não tinha números concretos mas vários Estados já haviam anunciado que dezenas de pessoas foram procurar ajuda médica com os mesmos sintomas, mesmo que ainda não muito definidos. A falta de ar era em 100% dos casos.

Cheguei ao consultório e na sala de espera estavam Gilda e o Padre João, com uma aparência bem melhor.

- Bom dia Padre! Como se sente!

- Melhor. Podemos conversar?

- Sim, sim... Entre na minha sala. Gilda, leve 2 cafés , por favor.

- Me conte padre. Como passou à noite?

- Alex, posso chamá-lo assim?

- Lógico! Há algo de errado?

- Alex, o Bispo está morto. Liguei para a Matriz, na Capital, agora cedo e ele havia morrido não tinha nem uma hora.

- Meu Deus. E qual foi a causa da morte?

- Parece que esse novo vírus. Ele já veio contaminado da Itália. Lembra, que te contei que no avião ele teve febre?

- Lembro.

- Eu, com certeza, me contaminei com ele. Mas não progrediu, até agora. Me sinto melhor.

Gilda bate na porta.

- Dr., tem dois pacientes que chegaram sem marcar hora.

- Peça para eles aguardarem. Já vou atendê-los.

- Alex, não vou mais tomar o seu tempo, mas se isso é tão contagioso quanto parece, preciso alertá-lo que eu fui o centro da procissão ao Salvador, no Domingo. Eram mais de 200 pessoas que participaram da procissão e da missa. E eu já não me sentia bem.

Antes de ir embora medi a temperatura do padre o auscultei e estreei o oximêtro.

Tudo normal, apesar de o peito dele ainda chiar, mas sem dificuldade respiratória.

- Padre, volte para a igreja e me mantenha informado do seu estado de saúde e vou pedir que fique isolado, sem contato com ninguém.

- E as missas e a escola?

- Cancele tudo. Deixe eu apurar o que está acontecendo.

Via-se o desapontamento do padre, mas era o melhor a ser feito naquele momento. O padre levantou-se e com um sorriso amargo se despediu de mim.

Abri a porta do consultório e chamei a Gilda. Fechei a porta.

- Eu gostaria que você fosse na farmácia e comprasse alguns pacotes de máscaras cirúrgicas. Pegue esse dinheiro.

- Ok, Dr. Agora?

- Sim, já! E, por favor, peça para um dos pacientes entrar.

- Está bem.

O paciente entra. Idoso, uns 65 anos, pele maltratada pelo Sol, pessoa simples do povo.

- Bom dia Dr.

- Bom dia! Qual o nome do Sr?

- Sílvio Pereira Arantes.

- Muito bem seu Sílvio. O que está acontecendo?

- Dr, já tem uns 3 dias que eu não sinto o cheiro nem o gosto de nada. Nem da cachaça do Alambique!

- O senhor notou mais alguma coisa?

- Não Dr. Só isso...

- Toma algum remédio, fuma?

- Dr, eu dou as minhas pitadas...mas já são 40 anos...não tomo nada de remédio.

- Bom, vamos esperar mais alguns dias... Se o senhor sentir algo de diferente, volte a falar comigo.

Não tinha o que receitar. O negócio era esperar e ver o que acontecia ou ver se,simplesmente, tudo voltava ao normal. Pedi para o outro paciente entrar. Uma moça, vinte e poucos anos, com uma tosse persistente.

- Bom dia!

- Bom dia, Dr.

- Qual o seu nome?

- Berenice.

- Me conte, Berenice. O que você tem?

- Dor de garganta Dr. Uns 3 dias, já…

Fiz os exames de praxe e a moça estava febril...

- Parece um começo de gripe...vou te receitar esse remédio para a febre, caso ela aumente. Você tem termômetro em casa?

- Não tenho isso, não...

- Ok, Ok... volte aqui amanhã...quero ver você de novo. De qualquer modo tome 30 gotinhas do remédio.

Gilda bate na porta e entra:

- Dr, comprei 5 pacotes de máscaras. Era o que a farmácia tinha.

- Obrigado. Pegue esse pacote e a partir de agora quero que você as use.

- Está acontecendo algo, Dr?

- Espero que não Gilda...espero que não… Mais uma coisa. Vamos redobrar, melhor, triplicar a limpeza do consultório, ok? Pano com água sanitária em tudo…

Aproveitei o momento que tinha, sem pacientes e fui comer algo no bar, curiosamente ao lado da igreja…

Era um boteco de pinga. Talvez, as do Padre. Tinha uma bancada azulejada, faltando vários azulejos e outros prontos para cair. Atrás dessa bancada, prateleiras de madeira presas em uma parede rosa, já encardida e descascando. Umas 50 garrafas de bebidas entre cachaças, licores coloridos e vinhos artesanais, estavam dispostas nas prateleiras. Em cima da bancada uma estufa, com alguns salgados dentro e dois ovos coloridos. A iluminação era precária. Só uma lâmpada pendurada em um soquete. Uma gambiarra elétrica. Duas mesas de plástico e 2 cadeiras em cada uma. Sentei-me em uma das mesas e com um calor para la de 35 graus minha camisa branca já estava transparente de tanto suar. Quando sentei-me, uma senhora com uma blusa sem mangas e uma calça jeans com a barra levantada até o joelho, segurando um rodo e com um pano de prato no ombro me cumprimentou.

- Mas é uma honra ter o nosso médico no meu estabelecimento!!! Boa tarde, Dr.

Eu sou a Telma!

Enquanto falava isso, ajeitava o cabelo tingindo de vermelho.

- Prazer ,Telma! Vim comer e beber algo rápido! Posso comer uma esfiha e tomar um refrigerante?

- Lógico Dr.! A esfiha está quentinha. Acabei de assá-la em casa! Vou ligar a TV para o Sr.

Não prestei muita atenção no que ela falou, pois num raro momento o meu celular estava com sinal. Aproveitei para ver rapidamente os meus e-mails.

- Depois que mudei de cidade, meus e-mails baseavam-se em spams ou anúncios de cursos na minha área. Desisti do celular e enquanto comia a esfiha, assistia a TV de tubo em cima da geladeira.

Passava um filme de faroeste quando, de repente, um noticiário de emergência entra no ar.

Estava sendo decretada a quarentena no país. As fronteiras estavam sendo fechadas e a ordem era ficar em casa. Centenas de pessoas haviam morrido em diversos estados e o

Governo não sabia o que fazer. Tomou a decisão tardiamente e o vírus se espalhara.

- Dr que horror... e agora?

-Vamos seguir as recomendações e ficar de olho nas notícias.

Não quis causar alarde, mas eu tinha a minha desconfiança. Dispensei a Gilda por tempo indeterminado e resolvi ficar sozinho no consultório a partir daquele dia.

Em casa, Rita estava em pânico. Queria sair e fazer compras, porém, aquela hora, o mercado já estava fechado. Cidade pequena. Tudo fecha as 6 horas. Fui trocar aquela camisa que secou e molhou diversas vezes e no caminho do quarto encontro

Eleanor no corredor.

- Olá, sogrinha! Tudo certo.

Ela ainda estava sóbria e amável.

- Tudo Alex. Estava fazendo lição com o Miguel. A escola me pareceu boa. Digo isso por conta dos livros. Um bom material didático. Confesso que fiquei surpresa.

Eleanor foi professora, durante 35 anos, na época que ainda falávamos em ginásio. Então o seu comentário era, sim, importante.

- Fico feliz com a sua aprovação.

- Você tem data para voltar para a cidade, Eleanor?

- Nossa, já quer se ver livre de mim?

- Você não escutou o noticiário ou falou com a Rita?

- Não. A Rita me esconde algo?

- Vamos dizer que ela ainda não te falou nada. Estamos em quarentena.

- Mas o que aconteceu nessa cidadezinha para entrar em quarentena?

- Não é a cidade. É o mundo. O Brasil, entrou hoje.

- Por conta da gripe nova? Que absurdo! Já tivemos outras e nada disso aconteceu.

- Não diria que é uma gripe. Ninguém ainda sabe o que esse vírus é, mas está matando e rápido. Então você vai ficar aqui por tempo indeterminado, mesmo por que eu escutei no rádio do carro que todas as estradas estão bloqueadas. Tudo deverá estar fechado a partir de amanhã. A ordem é ficar em casa. Eu não posso, já que sou médico.

Tenho que trabalhar e provavelmente enviar relatórios a vigilância sanitária.

Eleanor não disse mais nada e saiu andando corredor afora. Miguel saiu do seu quarto com todo o seu equipamento de espionagem e apenas me deu um “oi” e continuou a andar.

- O perfume da Eleanor impregnou o corredor… alguma água de colônia. Me dava dor de cabeça instantânea.

No jantar, Miguel mantinha o seu rádio comunicador em cima da mesa.

- E aí, Miguel? O rádio funciona bem? A bateria ainda está boa?

A pergunta era para ver se ele me contava algo que eu deveria saber, ou não…

- Funciona pai. E nem preciso do outro para conversar!

Parece que chegamos no ponto que eu queria.

- Como assim?

- Ontem a noite eu e o meu amigo, brincamos de stop…

- Filho, posso um dia conversar com ele?

- Não pai...ele disse que só brinca e fala comigo .

Enquanto jantávamos, Eleanor entornava uma garrafa de vinho. A noite prometia.

Pelo menos, para mim.

- Rita, amanhã vou comprar suprimentos para ficarmos 1 mês em casa sem precisar de nada. Espero que a quarentena não passe disso.

Enquanto enchia o último copo de vinho, que a garrafa permitia, Eleanor já visivelmente alterada me provoca:

- Será que eu aguento ficar um mês com você, Alex???? - gargalhou. Espero que não fique tendo chiliques, como se chama? Crises de pânico? Enfim, essa sua frescura que jogou minha filha e meu neto neste fim de mundo.

Levantei -me e levei meu prato para a cozinha. Na volta, cochichei no ouvido dela, mas em um tom que todos pudessem ouvir.

- Veja se não vomita no meu tapete.

Não dei tempo para réplica e fui para a sala de TV. Parece que aquele comentário havia finalizado a noite.

No outro dia, ao chegar no consultório, havia uma fila na porta. Não havia dúvida.O vírus definitivamente havia chegado à aquele fim de mundo.

Notifiquei a vigilância sanitária e encaminhei os pacientes para o Hospital em Itaipó. Só naquele dia foram mais de 100 pessoas. As queixas eram as mesmas.

Ao final do dia, ainda com pessoas chegando, fui obrigado a ficar mais tempo.

Eram 10 h da noite e ainda tinha fila pelo lado de fora. Às 11 h já não havia mais ninguém.

Fechei o consultório. Quando ia entrando no carro, alguém me cutuca nas costas. Com o susto virei me rápido. Era o padre.

- Olá, Padre? Como está?

- Bem… não sinto mais nada…

- Encaminhei, hoje, mais de 150 pessoas para o hospital de Itaipó. Todos com o mesmos sintomas.

- A procissão. O que era para ser uma benção, se tornou uma maldição.

- Não é culpa sua, Padre.

De repente, Celso também chega.

- Ainda bem que consegui pegar os dois juntos. Vou fechar o mercado.

Aproveitem para pegarem o que quiserem, mas tem de ser agora. Vou sair da cidade em algumas horas. Peguem tudo o que quiserem.

Eu e o padre nos entre olhamos e, logicamente, não poderíamos recusar a oferta.

Liguei para Rita e disse o que estava acontecendo e que chegaria bem mais tarde que o esperado.

- Alex, compre cerveja para a minha mãe.

Estacionei o carro na porta do mercado. Lá dentro eu e o padre pegamos tudo o que era possível para nos mantermos por um mês. Era o que deveria, provavelmente, durar a quarentena. Voltando para casa com o carro lotado, notei que muitos estavam deixando a cidade. Eram motos, caminhões, carroças e até mesmo, a pé.

Fiz uma reunião de família e esclareci que teríamos que ficar isolados por um mês. A princípio estávamos abastecidos de tudo o que precisávamos.

A vigilância sanitária havia entrado em contato comigo, por SMS. Estavam assumindo o caso em Monte Azul. A ordem era eu me isolar, coisa que eu acabara de fazer. Espero que os poucos contatos que tive com doentes não tivessem me contaminado e, assim, não transmitir nada para a minha família. Ainda bem que eu havia me protegido precocemente.

A primeira semana foi tranquila, apesar dos leves atritos etílicos com Eleanor.

- Na segunda semana, Miguel me surpreendeu novamente com o seu amigooculto. Eu já tinha até esquecido mediante a situação que estávamos.

- Pai, o meu amigo voltou a brincar comigo. Ele disse que tinha sumido porque tinham chamado ele.

Eu já estava levando na brincadeira.

- E do que vocês brincaram?

- Pergunta e resposta, pai. Mas eu não curti.

- Por que?

- Eu perguntei, quanto tempo nós iriamos ficar fechados e ele falou que por muito mais tempo do que a gente pensa e que você e a vovó brigariam muito.

- O que mais ele disse?

- Disse que você não iria ficar bem e que ele iria me proteger e a mamãe também.

- Ele falou pelo rádio?

- Não papai, ele escreveu.

- Onde?

Miguel me levou para o seu quarto e levantou o seu colchão. No verso do colchão, tudo o que ele me dissera estava escrito e algo mais, a respeito de Eleanor, que não estava terminado.

- O que é isso Miguel? Deu para estragar as coisas?

- Não fui eu pai. Foi ele com a minha tinta de pintura a dedo! Eu juro! Ele acabou com o meu vermelho...Você pode comprar outro pote?

Não falei mais nada e chamei a Rita. Eleanor apareceu, sóbria, graças a Deus, afinal eram 10h.

- O que isso miguel!!!

- O Quebra luz!!!!

- Eleanor não falou nada e saiu do quarto.

- Ele escreveu debaixo do colchão por que era só para eu ler.

Botamos o colchão de volta na cama e tentei identificar o que se passava com o meu filho. Ao meu parecer médico, Miguel poderia sofrer de algum distúrbio mental.

- Rita me esperou no quarto e percebia-se a sua preocupação.

- Alex, você lembra do meu pai?

- Seu Antônio? Convivemos pouco, mas ele era uma boa pessoa, não era?

- Sim..pouco estudo. Conseguiu tudo no trabalho e na lábia. Um pai amoroso.

- Ah.. ele era bom de conversa mesmo. Poucas, mas boas lembranças dele. Mas por que essa conversa agora?

- Você sabe que eu conversava com ele enquanto tomava banho, lembra?

- Era uma época em que você estava muito abalada com a morte dele. Você fantasiou aquilo, tanto que, com o passar do tempo, nunca mais aconteceu.

- Aquela caligrafia no colchão era dele, Alex!!!!

- Rita…

- Era idêntica a do box no banheiro!!

- Você está querendo me dizer que, o amigo imaginário do nosso filho, é o seu pai???

- Não sei...estou confusa.

- Não comenta isso com a sua mãe, senão essa casa vai virar um centro de

Umbanda.

À noite, tive uma crise de ansiedade dormindo. Acordei como se tivesse corrido uns 3km. Levantei-me, saí do quarto e me dirigi à cozinha. Um copo de refrigerante gelado sempre me acalmava.

Ao passar pela sala vi Eleanor, dormindo na poltrona e duas latinhas de cerveja ao seu lado. Nem me atrevi em acordar Eleanor. Fui até a cozinha e ao acender a luz, dei me com blup em cima da geladeira, fitando-me.

- Gato do inferno...quase me mata de susto…

Geralmente quando cessavam as crises de ansiedade , vinha uma sensação de exaustão, como se aquilo tivesse acabado com todas as minhas energias.

- Eu olhava pela janela da cozinha. Nisso, Blup sobe na pia e fica se esfregando em mim. Queria comida, o interesseiro. Enchi a panelinha dele.

- Pode comer… tem muita ração para você, seu bicho preto!

Mas repentinamente ele para de comer e sai correndo da cozinha como se estivesse atrás de algo. Como era normal ele caçar insetos, achei que tivesse visto alguma barata. Passei pela sala rumo à escada e aquela velha ainda estava no sofá, na mesma posição, de boca aberta. Aquela visão me assustava mais do que qualquer assombração.

- Apaguei as luzes e, ao subir as escadas, Blup estava sentado ao pé dela, olhando para frente. Eu ainda não tinha visão do andar de cima mas o gato estava estático, olhando para frente. Quando cheguei ao topo da escada, olhei para frente e não vi nada que me pudesse chamar a atenção, mas algo chamava a atenção de Blup.

O som de uma porta se abrindo me alerta para algo. Era do quarto do Miguel. Fui em direção ao quarto vagarosamente e vejo a porta entre aberta. Escuto vozes vindo lá de dentro.

- Quebra luz, você pode ficar comigo? O Blup não está aqui e não gosto de dormir sozinho…

Abri vagarosamente a porta e vi Miguel, sentado na cama, de costas para mim.

Aproximei - me e quando já estava bem perto, perguntei:

- Estava falando com quem, filho?

- Ainda bem que ele falou que você estava aqui, pai, senão tinha tomado o maior susto!!!

- Ele quem?

- O Quebra Luz. Ele ia dormir comigo…

- Não, não..eu durmo com você!

Deitei-me na cama e apaguei a luminária do quarto. Nesse momento, abraçado ao Miguel, sinto um pequeno fluxo de ar, como de uma respiração na minha orelha. Não me virei, mas meus olhos estavam abertos. Apertei mais o Miguel e ele sentiu que algo me incomodava.

- O que foi pai? - Sussurrou ele.

Nesse momento escuto um chiado, bem no pé da minha orelha, ininterrupto e sinto algo encostar em mim. Jogo meu braço para trás como se fosse para agarrar algo e consegui sentir alguma coisa na minha mão. Era algo peludo. Era o desgraçado do gato que quase me matou de susto pela segunda vez.

Passei o bichano por cima de mim e dei para Miguel, que o colocou debaixo da coberta. Pouco tempo depois, dormimos.

Estávamos entrando no final da primeira semana de confinamento e o Quebra luz tinha dado um tempo. Porém, Eleanor não tinha dado um tempo e estava passando a maior parte do dia embriaga e me provocando.

Passei a ficar mais tempo no anexo, nos fundos da casa, onde podia ficar sozinho ou às vezes brincando com Miguel.

Naquela noite, me dei conta de uma coisa. Tinha me esquecido totalmente de uma coisa essencial para mim. O meu antidepressivo. Eu só tinha mais 5 comprimidos e o meu calmante só dava para mais dois dias.

De manhã, falei para a Rita que ia para o centro, tentar conseguir os meus remédios.

- Está indo ver alguma vagabunda que conheceu…

Eleanor não perdeu a chance de dar a cutucada dela. Agora, ela bebia desde de manha até a hora de dormir. Fazia tempo que não a via sóbria. Comentei com a Rita:

- Você não falou que a sua mãe tinha melhorado?

- Pois é… talvez esse confinamento tenha mudado as coisas…

Não respondi nada e fui para o carro.

Cheguei ao centro de Monte Azul. Tudo estava fechado, A cidade estava deserta.

O único posto de gasolina da cidade estava fechado. O que eu tinha de gasolina dava só para eu voltar para casa. Mais um erro que cometi. Não abastecer o carro.

Voltei para casa, muito preocupado com a abstinência que a falta de remédios poderia me causar e eu, mais do que ninguém, sabia que isso aconteceria. Isso me deixou mais nervoso e lógico que alguém havia percebido…

- Ô “mediquinho”, se você pisa na bola com você mesmo, imagina quantos pacientes já não matou???

Dessa vez, Rita se meteu:

- Mãe, respeite o Alex. Você está na casa dele e pare de beber. Eu já não estou aguentando mais!

Eu ainda estava me controlando apesar das ofensas me incomodarem mais e fui me retirar para o anexo. Eu já não fazia as refeições em casa e praticamente me mudei para o anexo.

No dia que tomei meu último antidepressivo e já estava há dois dias sem calmante, Eleanor aparece no anexo, com a mesma camisola de dias, manchada de bebida. Banho acho que já não tomava há uma semana e o cabelo completamente arruinado.

- Vim lhe pedir desculpas.

- Esqueça Eleanor.

- Não, quero lhe pedir desculpas!

- Ok, ok.. está desculpada…

- Você me desculpa, então?

- Sim, eu te desculpo!!

- Você é um frouxo, mesmo! Te ofendo todos os dias e você ainda me desculpa.

Seu médico de merda!

Nesse momento, levantei me da cadeira, da mesa da lavanderia, onde eu estava mexendo no celular e num salto estava a menos de dois dedos de distância do rosto dela.

- Vai embora daqui, sua velha rabugenta! Vê-se porque o seu marido enfartou!

Fora antes que eu…

- Eu, o que ? Frouxo!

Saiu por debaixo do meu braço e foi se embora.

Saí atrás e a ultrapassei pelo caminho. Dentro de casa, fui até a cozinha onde

Rita estava. Numa atitude nunca vista por ela em anos de casamento, eu gritei:

- SE ESSA MALDITA BÊBADA, APARECER LÁ ATRÁS, NOVAMENTE, EU NÃO SEI O QUE EU FAÇO COM ELA!!!

Nisso, Miguel entra na cozinha.

- Pare de gritar, pai! Bem que o Quebra luz tinha me avisado!

- E você, pare com essa asneira! Não quero mais ouvir você falando de amigos imaginários idiotas, entendeu, moleque ? Entendeu???

Rita se pos na frente dele.

-Alex, pelo amor de Deus, volte lá para o fundo e se acalme!

Eleanor estava parada na porta da cozinha, apoiada no batente. Passei por ela e

fui-me embora.

Os dias foram se passando e o que eu temia aconteceu. A abstinência aos remédios estava piorando à cada dia.

Chamei Miguel enquanto eu ainda tinha algum domínio sobre a minha mente e disse para ele ficar longe de mim, pois em algum momento eu já não seria mais o seu pai.

Pedi para ele escrever em um caderno as minhas mudanças de atitudes e comportamento. A Rita não iria se condicionar a isso. Ela era muito emotiva. Miguel aceitou. Disse a ele que quando tudo passasse, leríamos as anotações juntos e daríamos boas risadas das besteiras que eu teria feito. Eu já tinha separado um caderno, novo, para ele e uma caneta minha que ele adorava.

Ele não somente escreveu sobre o que estava acontecendo comigo mas, também, o que acontecia à tudo e a todos que estavam ali, confinados.

E ele escreveu:

No último dia de quarentena, eu já praticamente não via meu pai. Ele se mantinha trancado no anexo e era comum escutá- lo chorando. Muitas vezes minha mãe foi consolá-lo mas com o passar do tempo, isso ficou difícil e temeroso para nós.

Minha vó continuava bebendo e gritando ofensas para o meu pai lá de casa.

Minha mãe já estava tendo crises nervosas e eu era o único que conseguia me manter estável, pois a companhia do Quebra luz me confortava e eu tinha que cumprir a promessa que fiz ao meu pai.

Numa noite, ouvimos no noticiário que a quarentena seria estendida por mais um mês. Essa notícia foi como uma sentença de morte decretada para nós..

A noite eu escutava meu pai quebrando coisas. Minha mãe tapava os ouvidos para não escutar.

Uma noite, não se escutava nada do anexo. As luzes apagadas. Era como se estivesse vazio. Será que meu pai tinha ido embora?

Todos já estavam dormindo e pensei em descer para ver se eu descobria o porque daquele silêncio do outro lado.

Desci as escadas e fui até a porta de entrada. Ao tentar abri-la estava travada. A fechadura não estava trancada mas a maçaneta estava travada. Fui até as portas dos fundos e a mesma coisa. As janelas também não abriam.

Acendi a luz da cozinha e vi escrito na porta da geladeira, com uma das minhas tintas de pintura a dedo: “Estou aqui para vos proteger”.

Nisso, uma das janelas da cozinha se quebra e vejo o meu pai, tentando entrar.

Não conseguiu de primeira, mas o machado que segura fez que isso acontecesse na segunda tentativa.

Ele entrou e seu rosto não estava nada normal. Olhos esbugalhados, sujo, camisa com respingos de sangue e vários ferimentos pelo corpo.

De pé na cozinha, segurava o machado em uma mão e tinha uma faca na cintura.

Escuto minha mãe gritar lá de cima:

- Miguel ???? Onde você está???

Não consegui responder, mas consegui correr. Passei pela porta da cozinha e a mesma se fechou sozinha. Ouvia meu pai tentando abri-la aos chutes e ponta pés.

Também, gritava:

- Filho, a vovó está aí??? Preciso fazer as pazes com ela!!!!

O machado entra em ação.

- Eleanor, Eleanor….quero tanto falar com você! Sua puta velha!

Nisso estamos todos na sala vendo a porta ser derrubada. Minha avó, estava atrás de mim e naquele dia, não tinha bebido. Minha mãe havia escondido as bebidas.

- Meu Deus… o que há com esse homem? Disse minha avó.

Vem a terceira machadada e já é possível ver o rosto do meu pai, através da porta.

Ele consegue ver minha vó e para de quebrar a porta, fitando-a.

- Eleanor, minha querida… vamos tomar algo? Sabe quem me visitou esses dias???? Tonico!!!! Lembra de Tonico???? Ele me contou que o você trabalhou bem. Você e aquela macumbeira que vai queimar no inferno junto com você!

-Rita, minha esposa… você sabia que a sua mamãe fez um trabalhinho para o seu pai??? Um enfarto do nada! Nem deu tempo dele sentir dor! Você achou que era o colesterol alto????

Eleanor se pos a frente.

- É mentira!!!

- Sua vagabunda ordinária…. está gastando tudo em viagens e bebidas… por trás da professorinha uma piranha assassina que acende velas pretas nas esquinas às sextas feiras!!!.O seu amiguinho, Miguel, é o seu avô!!!!

Minha mãe simplesmente desmaia.

As pancadas voltam e a porta da sala de Tv se abre. Acima do batente está escrito. “AGORA”

- Eleanor meu amor, não era assim que ele te chamava????? Sabe qual a vantagem de ser médico? Vou cortá-la milimetricamente sem fazer muita sujeira. Vou te picar inteira!!!!

Eu havia entendido o recado do Quebra luz no batente e com esforço, arrastei a minha mãe para a sala de TV.

Minha avó ainda ficou alguns segundos e quando também tentou correr para a sala de TV a porta se fecha e fica travada. Não se entra, não se sai.

- Miguel, deixa eu entrar!!!

- Não consigo, vó! Está travada!

Escuto o que parecia ser a porta da cozinha sendo posta no chão. Não escuto mais a minha vó mas escuto o meu pai e estava perto. Consigo ter uma visão pelo buraco da fechadura e vejo-o segurando minha vó pelo braço e vindo em direção a nossa porta.

- Miguel… quer se despedir da vovó??? O vovô está aqui para levá-la!!! Eu só vou dar uma forcinha para ele!

Vejo meu pai levando a minha vó para o centro da sala e jogando-a no chão. Ele a vira de costas e parecia saber que eu olhava pelo buraco da fechadura.

- Veja, filho. Vou lhe ensinar algo de medicina. Um pouco de neurologia.

- Uma lesão entre a primeira e a sétima vértebra cervical pode levar a pessoa a tetraplegia. Ah, me desculpe, você ainda é criança, não entende esses termos.

Ele havia posto o joelho nas costas da minha vó para segurá-la no chão.

- Explicando melhor. Se eu espetar a faca nessa região do pescoço da sua vovó, ela não vai se mexer mais. Só os olhinhos. Mas tem de saber fazer para não matar.

Enfia-se em torno de uns 3cm, o suficiente para lesar os nervos e deixar a bruxa paralisada mas viva!!!!!

Minha vó ainda consegue esboçar algo:

- Seu velho desgraçado! Vai se vingar!!

- Não sogrinha...essa vingança é minha!!!!

Meu pai apoia a faca na nuca da minha avó e diz:

- Aqui...entre a terceira e quarta vértebra. Um bom lugar!

Com a outra mão ele bate com a palma no cabo da faca. A mesma penetra, mas como ele disse, somente o suficiente. Vejo minha avó sofrer como e fosse um choque elétrico e ficar paralisada.

- Ora, ora…paciente anestesiado.

Nesse momento, ele se levanta, tira a camisa e se aproxima da porta.

- Querido, você não pode ver a cirurgia. É um pouco chocante para a sua idade.

Nisso ele coloca a camisa em frente ao buraco da fechadura. Não vejo mais nada, mas ouço. Minha mãe acorda.

- O que está acontecendo? Onde está a sua avó?

Eu não conseguia falar , mas ela já sabia que o pior aconteceria. Ela começou a esmurrar a porta, o que de nada adiantou.

- Alex, o que você fez com a minha mãe? Deixa ela em paz!!!

Ouvíamos, meu pai:

-Meu amor!!!! Sua mamãe vai ter que operar! Ela já está anestesiada. Anestesia geral!

E ria compulsivamente!

- Tenho que extirpar os pecados dela… Álcool, assassina, caluniadora, macumbeira e tantos outros!

De tanto minha mãe sacudir a porta a camisa caiu da fechadura e ela conseguiu ver o que acontecia, mas algo a empurrou para o lado e não a deixava se aproximar da porta.

Eu me aproximei novamente da fechadura. Tinha que cumprir o que prometi ao meu pai. Ele estava de pé e machado na mão..

- Não vai doer nada, ou quase nada!!!!

A primeira e a segunda machadada, cortaram os pés.

- Nossa Eleanor… meus conceitos estavam errados. Muito sangue!!!! Talvez você tivesse razão, talvez eu seja um “mediquinho” de merda!!!

Segunda e terceira machadada certeiras nos joelhos. As duas partes inferiores da perna estavam fora.

- Não vamos fazer bagunça.

Ele pegou os dois pés e as duas pernas e colocou-as lado a lado em cima da mesa de jantar. O detalhe é que havia uma toalha branca na mesa.

- Vamos fazer o mais fácil, doçura?

Terceira e quarta machadada. Mãos decepadas. Minha mãe estava em choque e deitou -se no chão da sala, fitando o nada. Essas mãos, sogrinha… o que elas jã não fizeram, hein????

Ele segurava uma das mãos e as fechou fazendo um movimento de cima para baixo. Soube posteriormente que era uma alusão a masturbação.

Quarta e quinta machada. Os Dois antebraços para fora. Tudo era arrumado em cima da mesa. Pedaço por pedaço.

- Bom...nem tudo é moleza!

De sexta à décima segundas machadas. Coxas separadas do quadril.

- Sua velha gorda… olha quanta banha. Não sei como você é que não enfartou.

Décima terceira e décima quartas machadadas. Braços extirpados. Nisso vejo

Blup subindo na mesa da sala. Foi quando pensei que era o fim dele.

- Blup!!! sua coisa preta, inútil!!!

Meu pai fez um cafuné nele e falou:

- Chega de ração né gatinho? Um pouco de carne para variar!

Vi ele dando uma das mão da minha vó para o Blup, que a pegou e saiu da minha

vista.

Escuto baterem na porta de entrada.

- Alguém em casa????

Meu pai solta o machado e sai do meu campo de visão. Escuto a conversa:

- Padre?

- Sim, Alex! Sou eu! Vim saber como estão e se precisam de algo!

- Ora, Padre… seja bem-vindo. Preciso, sim, de algo!

Talvez, pelo fato de ouvir uma voz diferente minha mãe reage.

- Padre!!! Nos socorra!!!!

O Padre percebe que há algo de errado.

- Alex, abra essa porta!!!

A porta se abre sozinha.

-Entre Padre… seja bem-vindo! Falou isso se apoiando no machado imundo de

sangue. Alex, o que aconteceu com você?

-Essa quarentena, Padre…. Difícil ficar isolado em família!!!! Mas venha, Padre!

Preciso da sua ajuda!!! Venha!!!

Ouço eles se aproximando e meu pai mostra o que estava fazendo.

- Meu Deus, Alex!!!! O que você fez????

- Padre...ela ainda tem um fio de vida… Você pode dar-lhe a extrema unção? É uma pecadora, Padre!

- Eu tenho que chamar a polícia!!!!

Meu pai pega a faca que estava no chão.

- Padre, não posso permitir isso. De a ela a extrema unção!!!

Apontando a faca para o padre, o mesmo não viu outra alternativa a não ser fazer o que era pedido.

- Alex… esta mulher já esta morta… deixe-a em paz.

- Ainda não acabou padre…

Meu pai se abaixa e pega o machado.

- Padre, falta a melhor parte!

E num golpe só separa a cabeça do que restou do corpo da minha avó.

O Padre, num movimento brusco, consegue pegar a faca no chão e finca no peito do meu pai.

Meu pai, que segurava a cabeça da minha avó, veio ao chão. Estava morto.

A nossa porta se abre e eu e a minha mãe saímos. Minha mãe, transtornada, senta-se na poltrona da sala, aquela que a minha avó costumava ficar.

O padre corre ao meu encontro e tenta não deixar ver toda aquela cena, mas eu já tinha visto o pior. Saímos de la´e fomos para a igreja.

Na nave da igreja ficamos sentados em silêncio por quase meia hora. Levanteime do banco e fui abraçar minha mãe. Desde aquele dia ela não falou mais. Ficou catatônica.

O Padre teve de deixar a batina. Era inconcebível um padre homicida. Mas ele cuidou de mim e da minha mãe.

Permanecemos na Igreja por ainda 2 meses. Tivemos que saquear o supermercado algumas vezes. Nesse período, ninguém apareceu na cidade. A maioria tinha morrido e alguns se mudaram definitivamente.

Houve uma melhora na Pandemia e aproveitamos para sairmo de Monte Azul.

Todos.

Nos mudamos para uma cidade ao Sul do País e nos estabelecemos em meio às novas mudanças que o vírus havia imposto.

Quando fiz meus 16 anos, ainda morávamos com o ex padre. A quarentena já havia acabado há anos e o vírus já havia sido controlado. Tínhamos uma vacina. O mundo já não era o mesmo e nem voltaria a ser.

Mesmo não sendo mais padre, João, mantinha alguns hábitos religiosos.

Rezávamos antes das refeições e fazíamos algumas caridades.

Nunca mais soube o que acontecerá a Monte Azul. A única coisa que realmente continuou a mesma, por anos, foram as lâmpadas de casa que continuavam a queimar mais do que o normal, apesar de todos os cuidados do Padre para o que ele dizia ser alguma manifestação espiritual.

O Quebra luz tinha vindo conosco. Isso era fato. Conversávamos na hora do banho via Box do banheiro.

Certa vez, perguntei sobre a minha avó e o meu pai. Ele escreveu no vidro do Box:

“Sua vó, sofrendo por não poder beber, em um lugar onde faz muito calor. Muito”.

- E o meui pai?

“Ele manda um recado...”

Neste mesmo instante, o chuveiro elétrico queimou.